ojogo

Som de chat do Facebook.

Isaque: Alexa, vamos falar do Bloodborne.
Alexa: ‘Bora.
Isaque: Como é que está a correr a tua análise?
Alexa: Está quase pronta. Estava desiludida com esta nova geração de jogos, mas voltei a ganhar esperança com este jogo.
Isaque: Gostaste, portanto? Já sei que sim, mas só para ficar on record.
Alexa: Sim. É soberbo, a vários níveis distintos.
Isaque: Mas o jogo não é uma reskin do
Dark Souls com umas pequenas mudanças/updates?
Alexa: Até pode ser. Nunca joguei
Dark Souls. Mas é aquilo que um jogo deve ser.
Isaque: Difícil e punitivo?
Alexa: Não. Imersivo e envolvente, sempre a exigir o melhor de ti.
Isaque: E se eu não quiser esforçar-me, se quiser só apreciar o jogo?
Alexa: Isso é como tudo, Isaque.
Isaque: Imagina, estás no sofá a ver TV, ou a ler um livro. E enquanto fazes isso, continua a imaginar, alguém está a jogar ao mata contra ti; se não te desviares da bola a tempo, és obrigada a fazer rewind ou regressar à primeira página. Para mim o Bloodborne é mais ou menos isso; há quem se habitue a desviar da bola, e isso massaja-lhes o ego.
Alexa: No comment.
Isaque: Então? Já sabes que vou fazer de advogado do Diabo.
Alexa: Sei.
Isaque: Quero uma discussão acesa. Insultos em Caps Lock.
Alexa: É? Então já que insistes, deixa-me responder-te:
Isaque: Mas espera, antes disso: e a tua análise?
Alexa: A minha análise vai ter um paralelo com os pecados capitais.
Isaque: Os sete pecados?
Alexa: Sim. O Bloodorne não te deixa seres ganancioso, preguiçoso, perderes a calma. Não te podes irar. Luxúria, esquece: enquanto jogares não vais querer sexo com ninguém. Não há lugar para inveja: para teres algo, seja o que for, tens que trabalhar.
Isaque: Soberba?
Alexa: Soberba, esquece também: quando achas que dominas o jogo, verga-te. Gula: ficas sem apetite.
Isaque: Perdes o apetite? Descrito assim parece uma doença.
Alexa: Não comes. Não bebes. Não [censurado]. Quote me on this.
Isaque: Assim farei. Portanto, o Bloodborne é como uma doença? Uma espécie parasita?
Alexa: Não. É como uma segunda pele.
Isaque: Uma espécie de esquizofrenia?
Alexa: Sim, olha: uma espécie de esquizofrenia. Deixas de saber quem és até atingires a recompensa, que é única e extasiante.

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Isaque: Tira-te o apetite, a sex drive, não te deixa relaxar, verga-te o espírito e o corpo, e mais importante: enlouquece. É isso?
Alexa: É como uma colina.
Isaque: É como uma colina?
Alexa: Custa a subir, escorregas de vez em quando, mas chegas ao topo, recebes a recompensa: a vista.
Isaque: Não será mais como uma montanha?
Alexa: Pode ser. Só que a recompensa vem em etapas. Pequenos momentos.
Isaque: Como assim?
Alexa: Em cada boss.
Isaque: Portanto, imagina, novamente: cometes um crime.
Alexa: Sim…
Isaque: E és presa.
Alexa: Ok.
Isaque: Serves uma sentença. A prisão é muito difícil. Mas consegues. Sobrevives. Não sabes como, mas chegaste ao fim; conseguiste aguentar três meses.
Alexa: Não vás por aí.
Isaque: Mas és presa outra vez. Cometes outro crime. Em vez de três meses desta vez é um ano. É mais difícil. Mas cumpres a tua pena. Chegas ao fim. Conseguiste. E isso acontece uma série de vezes. Perdes imenso tempo nessa palhaçada porque estás viciada no crime, porque estás viciada nesse jogo masoquista contra o destino…
Alexa: A diferença:
Isaque: Sim?
Alexa: Cometeres crimes não te melhora como pessoa.
Isaque: E o Bloodborne melhora-te como pessoa?
Alexa: Sim. No Bloodborne tudo em ti melhora.
Isaque: Um exemplo, se faz favor.
Alexa: Os teus sentidos ficam mais apurados. A tua visão, a tua destreza…
Isaque: A tua visão fica mais apurada? Ou ficas condicionada a ver certas formas e cores com mais facilidade? Inimigos, por exemplo.
Alexa: Mais apurada.
Isaque: Eu argumentaria, pelo contrário, que o jogo condiciona a tua mente a operar na sua lógica muito específica, muito restrita, muito limitada; e limitante. Que te obriga a limitares o pensamento a essa pequena caixa de operações e que te atrofia o cérebro.
Alexa: Olha.
Isaque: Diz.
Alexa: Sabes para onde é que eu te mando?
Isaque: Diz.
Alexa: Para o [censurado]. E sabes que mais?
Fim.

mundoaocontrario

Isaque: Então? Muda-se alguma coisa?
Alexa: O texto acaba comigo a mandar-te para o [censurado]?
Isaque: Não gostas?
Alexa: Porquê?
Isaque: Pacing. Fica mais dramático assim.
Alexa: E aquilo que eu disse a seguir? Sobre a inteligência e a compartimentação do cérebro?
Isaque: Pacing.
Alexa: Assim até parece que eu estava sem argumentos!
Isaque: Achas? Não acho.