Por aqui passou-se parte do fim de semana em torno da closed beta do aguardado The Division. Tom Clancy é um dos nomes que é sinónimo de qualidade. E nostalgia. Portanto, aguardava com alguma expectativa este título. Expectativa essa temperada, claro, com alguns trailers e informação que ia sendo leaked, contribuindo para a lenta ebulição do hype.

E entrei. Ou melhor, fui mais ou menos despejado por lá. Fruto da versão beta ou não, o meu jogo lançou-se automaticamente dividido nos dois monitores, mas amputando a metade inferior, como se tivesse sido dividido em quatro monitores e me fosse permitido ver apenas a parte de cima. Fica bonito. Mas foram momentos confusos e frustrantes enquanto tentava encontrar uma forma de navegar pelos menus para aceder às opções gráficas e tentar sair do jogo, depois de uma intro que se viu truncada em 50%.

The Division (2)

Afectado por isso ou não, certo é que me vi despejado ali para o meio da acção sem grande coisa para a contextualizar. Um HUD com travos de futurismo, adaptando-se e guiando-me até aos waypoints pretendidos, dando-me a mão para eu não me perder. I’m a child again. Não que seja mau, não é. Mas senti que me estavam a dar a mão em demasia, com os tracinhos a dizerem-me exactamente para onde tinha que me dirigir, curva a curva. Directamente para o objectivo sem passar pela casa de partida e sem receber dois contos.

Portanto… infecção. Coiso. Morte, destruição, quarentena e divisão, certo? É isto? Assim resumido é isto? Great! Agora, quando é que eu vou matar gente? Bichos? E meti-me ao caminho, numa missão que escolhi, dirigindo-me pela hábil mão do meu HUD para eu não me perder pelo caminho e não gastar tudo em chocolates. Fui salvar alguém a um Hospital. Porquê? Porque ela estava lá. “Refém”, dizem-me. Eu devia ter bebido qualquer coisa para não me questionar porque raios alguém iria sequestrar alguém dentro de um hospital numa cidade meio destruída. Mas questionei. Procurei não ligar. It’s all about the fun! E fun it is, navegar por aquele ambiente distópico, pós apocalíptico (gosto sempre desses, confesso). Os gráficos e os sons envolventes enquanto se percorre a cidade cumprem bem o seu papel de nos colocar “lá”. Somos nós ali, com aquela arma na mão, a correr por entre a cidade em ruínas, mas com vida a deambular pela rua. Volta e meia surge um cidadão necessitado. Quer água. Medicamentos. Recompensa-me com um chapéu. (Really?! Dou-te um kit médico e tu ofereces-me um chapéu da Zara?!) But it’s fun.

The Division (4)

Tento esquecer o quão infantil o HUD me faz sentir com a constante setinha, mas é difícil… muito difícil, quando em cada caganita que me surge no caminho o HUD decide mostrar-me que posso usar aquilo como cobertura, que posso pressionar SHIFT para saltar por cima do objecto. Não é uma vez. É SEMPRE. Cada carro, cada cabine, cada barreira, cada balde do lixo, cada prop é uma espécie de uma armadilha do HUD. Aproximamo-nos o suficiente e ele, prestável, amistoso, irritante como um hemorroidal inflamado, a sugerir-nos “Olha, podes saltar isto! E isto! E aqui? Não queres saltar aqui? Salta, vá! Tu sabes que queres! Carrega no SHIFT! Olha, eu mostro-te a tecla! SHIFT! SHIFT SHIFT! Salta!! Ou então, caaaaaalma… encosta só aqui. Encosta. Abaixa-te aqui e encosta-te. Ficas seguro, huh? Não te sentes seguro? Eu sentir-me-ia seguro, aí nessa posição!”. Cansa. Distrai. Era escusado. É um ambiente bem construído que se desconstrói com ajudinhas. Constantes. A cada passo uma setinha. Eu repito. A. Cada. Passo. Uma. Setinha! Uma ali, outra acolá. É uma porra de uma árvore de Natal de setinhas, ajudinhas e luzinhas na porra do ecrã e eu SÓ QUERO MATAR GENTE!!!!! E NÃO, SE NÃO ME ENCOSTEI NOS OUTROS 326 PROPS DO CENÁRIO SEM RAZÃO PARA TAL, NÃO VOU FAZÊ-LO AGORA, HUD DE UM RAIO!

Calma. Zen. Inspira. Expira. Bota Shankar no fundo, bota. Zeeeeeeeeen. It’s gaming. It’s fun. Vamos matar gente para relaxar, vamos? Péu, péu!

Suspiro.

Não gosto. Não gosto de ter ali humanos que o HUD me mostra convenientemente iluminados a vermelho. Porque raios estou eu a matar humanos? Pior, eu ando ali no meio dos outros humanos e nada se passa. Eles vêem outros humanos e nada se passa. Apareço eu e eles disparam. WHY?! E, amigos… amigos! Amiguinhos. Colegas, vá… Se um indivíduo vos aparece à frente com uma M4, com uma MP5 e com uma Colt carregadas… Se ele disparar contra vocês… FUJAM! Fuginde, fugeinde, bazem, ponham-se a milhas!! Não – poramordasssssaaaanta!!- Não vão a correr atrás dele ignorando qualquer tipo de cobertura para lhe baterem com o vosso ameaçador taco de baseball. É que é ridículo! E estraga-me o gozo do jogo. Por um lado, há um esforço notável na criação de um bom ambiente caótico, de guerra urbana. Por outro, há inimigos que não sei bem porque o são, que, cobertos com apenas um hoodie, são capazes de aguentar com 3 tiros na cabeça sem que isso os demova de avançarem na minha direcção para me baterem com uma ripa de madeira mal amanhada.

The Division (1)

De que serve criar toda a envolvência para um bom cover-shooter se depois não há necessidade de cover? Os inimigos nunca me pareceram ameaçadores o suficiente. E, aparentemente, têm o o QI inferior ao número que calçam, porque o mesmo jogo que me incentiva a esconder-me atrás de todo e qualquer obstáculo os põe a avançar às cegas para mim. Há um ou outro que se esconde. Deixo-os para o fim, para tentar tirar algum gozo da matança. Bem sei, é uma versão beta. E não é por isso que o jogo deixa de ser cativante – é uma agradável maneira de passar uns 15-30 minutos aos tiros. Mas é desanimador quando se vê um jogo que poderia ser tanto, com potencial para tanto, a dar este tipo de tiros nos pés, e ficar aquém, não das expectativas, mas daquilo que poderia ser. É um cover-shooter? Make it a good one! Obriguem-me a esconder! Façam-me ter medo de levantar a cabeça para disparar. Flanqueiem-me! Nota positiva para as granadas, no entanto. Quando me escondo em demasia, há um inimigo que procura lançar uma granada, no belo flush-em-out que me lembro de ver pela primeira vez em Half-Life. A parte má? O meu ever-so-friendly HUD avisa-me para isso com um ícone vermelho com uma granada! Era mesmo preciso? É assim tão mau eu morrer porque não estava atento ou sou, simplesmente, mau?!

The Division (3)

Se calhar o defeito é meu. Gosto de jogos difíceis. Gosto de um bom desafio. E este The Division, nesta versão Beta, ainda não o é. O jogo continua a interessar-me. Continuarei a segui-lo e irei reinstalá-lo para jogar a Open Beta assim que puder, mas não posso dizer que me tenha mantido agarrado a ele para o jogar em todas as oportunidades que tive, durante o fim de semana. Aguardemos, atentos ao que aí vem.