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Não sou muito boa a seguir regras. Nunca fui. É um problema que tenho desde que me conheço e que tento ao máximo corrigir e melhorar. Mas chega uma altura na vida de cada um de nós em que temos que assumir as nossas falhas, aprender aquilo que vai sempre ser uma constante em nós, e em vez de nos forçarmos a melhorar algo que (admitamos), não é melhorável, vivermos com isso da melhor forma. E é isso que vou fazer hoje.

Quando comecei a escrever estas cartas para a PS2, tinha toda a intenção de falar dos tesouros menos conhecidos daquela que, para mim, foi a melhor consola de todos os tempos. Falei de Primal e Second Sight – esses sim, jogos que são verdadeiras pérolas ocultas  num oceano de criatividade que a geração desta fantástica consola nos trouxe. Mas como eu disse, nunca fui muito boa a seguir regras, e existem experiências que moldaram de forma tão profunda a gamer que sou hoje, que não estaria a ser justa se não falasse delas nesta crónica.

Hoje quero falar daquele que considero o melhor jogo de Acção/Terror de Sempre: Resident Evil 4. Provavelmente um dos melhores jogos de sempre na história dos videojogos, não interessa o género. Julgo que o terminei 3 vezes…e acho que o terminarei outras tantas sempre que tiver oportunidade.

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Apesar de ser considerado como um grande clássico da PS2, este título não foi exclusivo desta famosa plataforma. Aliás, foi inicialmente pensado para ser um exclusivo da Nintendo Game Cube, mas um fuga de informação e contradições de declarações dos developers e imprensa, fez com que este jogo fosse lançado para todas as plataformas, sendo a PS2 aquela onde o jogo atingiu mais sucesso comercial. O que é lógico – se é a consola que mais vende, é também aquela onde os jogadores mais podem comprar.

Exclusividades à parte – este é um jogo Estupendo! Uma daquelas experiências que chega uma vez em cada geração de consolas e revoluciona tudo. E quando digo tudo –  é Tudo! Mecânica de jogo, ângulo de câmara, narrativa, longevidade, construção de história e personagem…TUDO. Pensando bem…reminescendo nas horas que passei a jogar…não há rigorosamente NADA que não adore nesta experiência. Tudo é absolutamente genial e bem intrincado a cada momento da narrativa e da acção. Não há um unico momento que eu poria de parte ou ao qual não goste de regressar.

A premissa é bastante simples: a filha do Presidente dos Estados Unidos é raptada por uma seita e levada para uma aldeia de Espanha, onde conduzem rituais de forma a obter a dominação do Planeta com a criação de seres superiores. Cabe a Leon S. Kennedy e à sua personalidade divertida e aventureira, meio Nathan Drake, viajar até à aldeia de Espanha para recuperar a donzela em perigo: Ashley. Pelo meio, conspiração Umbrella, velhos inimigos, acção como antes nunca se viu num jogo e das imagens mais horripilentas que já vimos num título do género.

Existe muita temática religiosa subjacente, o domínio de uma população, experiências genéticas com populares sedentos de sabedoria e elevação, pessoas loucas pelas ruas sempre em eterna caça pelos que não pertencem, e muitos mas muitos seres híbridos: metade homem metade monstro, que nos assustam e nos mantém com o dedo sempre preso no gatilho.

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OK – façam agora este jogo comigo. Leiam este último parágrafo e digam-me de que jogo estou a falar? Resident Evil 4 ou…Bloodborne?

Juro que nunca li nada ou vi qualquer vídeo no Youtube que dissesse que um jogo se teria inspirado no outro, mas quando vou a Yharnam, principalmente no nível inicial, com os transeuntes a perseguirem-me pelas ruas com as suas tochas, a chamarem-me “Tainted Beast” e a gritarem: “You are Not wanted here”, é quase impossível não me transportar para o início da aldeia espanhola, quando Leon chega, não sabe nada do que se passa – tenta apenas procurar informação, e logo a seguir o primeiro popular tenta agarrá-lo e matá-lo. Depois vê-se perseguido por todos, o que inclui o mítico – absolutamente épico – monstro da moto-serra e serapilheira na cabeça.

Confesso que Bloodborne não é apenas um jogo para mim – é uma autêntica obsessão. Nenhum outro jogo, nos meus 20 anos de Gaming, me puxa tanto, me faz amá-lo e odiá-lo com o mesmo fervor, me faz sentir tudo ao mesmo tempo, como Bloodborne. E agora, que escrevo sobre Resident Evil 4, consigo entender um pouco mais porquê.

Resident Evil 4 transportou-nos, em 2005, para um mundo doente, de experiências cientificas, de fanatismo religioso, de obsessão pelo domínio que leva o mais doente de nós ao estado de idolatria e patologia mental. Trouxe a acção frenética ao mundo de um Survival Horror, pôs a câmara por “cima do ombro”, num misto de terceira pessoa com fps, introduziu quick time events de uma forma fluída e que complementa a acção, e trouxe de volta o terror físico – com monstros e aberrações e pessoas que se transformam em seres, sem por de lado o terror psicológico – algo que qualquer Survival Horror de Excelência deverá sempre ter. E no meio disto, trouxe uma campanha longuíssima para altura, com gráficos que ainda hoje parecem excelentes, e que, quando se termina, tem Bónus que fazem sentido ser jogados: desafios, níveis alternativos e, toda a campanha com uma personagem diferente, nada mais nada menos que Ada Wong. Com Ada, repetimos a campanha num outro ponto de vista onde conseguimos ver onde a campanha de Leon se entrecruza com Ada e podemos efectivamente fazer o que na campanha de Leon, apenas víamos em Cutscene.

Digam-me: Isto não é uma experiência de Jogo perfeita? Única no seu tempo, longa, repetível, sempre fresca e original e que influenciou todo um género? Como poderia fazer um Post Scriptum sem falar neste jogo? Um jogo que definiu um género?

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Resident Evil 4 foi aclamado pela critica, que lhe concedeu vários troféus de Jogo do Ano, e aclamado pelos jogadores, que o consideram como um dos melhores jogos de Acção/Terror de sempre. As vezes a maioria tem razão e um jogo pode ser Mainstream, AAA e derrubar as barreiras dos hipsters velhos do Restelo que adoram que estas produções falhem. Que se lixem esses…esses não sabem aproveitar as experiências que a Indústria por vezes, sabe tão bem proporcionar.

Curiosamente a Capcom nunca mais soube repetir esta fantástica fórmula. Triste. Este título tornou-se o Canto do Cisne da série Resident Evil e depois do 4, nunca mais pudemos dizer que a Capcom soube definir um género. Resta-nos esperar que o 7 ressuscite uma série tão morta para todos.

Mas, porque a ironia do Destino tem este dom de nos fazer sorrir de contentamento, foi a From Software que aproveitou este tipo de jogabilidade agressiva, este frenetismo que obriga o jogador a não retirar o dedo do comando com medo do que vai suceder, que recuperou um género que nem sabíamos que tínhamos perdido.

Sim – Bloodborne traz-me presa e obcecada há um ano. Como uma relação duradoura, renovo o meu amor em Yharnam sempre que lá regresso. E por cada momento em que me assusto, em que páro para olhar para o fantástico design, que simplesmente ouço o som da doença e sinto e ambiente à minha volta, sussuro secretamente em agradecimento à Capcom e a Resident Evil 4.

Mais uma vez repito: não sei se foi inspirado ou não – mas tal como em Yharnam, em que o corrompido Paleblood corre nas nossas veias sem que nada tenhamos feito para tal, Resident Evil 4 mudou tudo e a “corrupção” da sua genial influência, corre certamente no sangue de Todos os developers que amam videojogos!