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Pouco se sabia sobre We Happy Few desde o seu maravilhoso trailer apresentado no ano passado, e apenas uma certeza existia: o ambiente artisticamente construído estava a sê-lo para nos cativar ao primeiro relance, e para nos criar uma tremenda curiosidade para saber do que trata afinal este jogo criado pelo estúdio Compulsion Games.

Quase que por uma feliz coincidência, dias antes de receber We Happy Few comecei a ler um livro de 1940 injustamente pouco-conhecido quando comparado com outros congéneres: Kallocain da escritora sueca Karin Boye. Em Kallocain seguimos o dia-a-dia de Leo Kall, um químico que está a desenvolver um “soro da verdade” que expõe os pensamentos de potencial traição do Estado dos sujeitos expostos à droga experimental. Com uma temática semelhante à conhecida obra de Huxley, A Brave New World, em que uma droga de seu nome soma surge como uma forma de controlo estatal, ao abolir por completo qualquer tipo de pensamento ou acção individual através deste poderoso alucinogéno.

No curto e misterioso trailer We Happy Few apresentava-nos um mundo com aspectos semelhantes ao de Huxley, e o lançamento do jogo em Early Access veio comprovar isso mesmo.

Os primeiros minutos de WHF deixam antever a aura de um Bioshock Infinite mais politizado e menos fantasioso. Ritmicamente excelente na forma como nos enquadra dentro do setting, dentro da pressão social de tomar Joy, a droga de controlo emocional cuja toma é obrigatória pelo Estado. Os habitantes da ilha ficcional Wellington Wells passam então a viver num estado de alegria e euforia constantes e a percepcionar a realidade de uma forma muito diferente do mundo em que existem.

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Como referi existe um ritmo exímio na forma como mergulhamos naquele mundo, com uma lógica narrativa e de acção decorrente da inspiração na forma de contar histórias que a Irrational Games nos habituou a todos, contagiando essa marca para The Happy Few. A real percepção entre os downers, os depressivos, aqueles que vêem o mundo real e que se recusam a tomar Joy é-nos logo mostrado nos primeiros minutos com os primeiros sintomas de abstinência do nosso protagonista, o censor Arthur Hastings. Enquanto uma série de habitantes da cidade destroem uma piñata colocada em cima de uma mesa, comendo os doces que de lá conseguem retirar, nós, através da perda do efeito de Joy percebemos a verdade: a inocente piñata é afinal uma ratazana e os doces que os whelies alegremente comem são… as suas entranhas.

Quando a brilhante sequência inicial termina damos de caras com a real Wellington Wells, longe da mascarada ilusão provocada pelo consumo de Joy, onde a luminosa e esplendorosa cidade com um visual de metrópole dos anos 1950 é na realidade um gueto, com casas partidas, e onde o lixo e a sujeira coabitam com a euforia farmacológica dos seus habitantes, que a vêem como a mais radiante das cidades.

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É no final da sequência inicial que We Happy Few denotou de imediato o maior problema que eu tenho com o jogo, e que é, admito, fruto de uma gigantesca torre de expectativas que fui construindo sobre a maravilha do trailer inicial. Se os primeiros minutos nos deixam antever um FPS fortemente narrativo, com um setting e uma tónica a beberem de Bioshock Infinite, com um ritmo que nos lembra dele, é o nosso primeiro momento de liberdade que revela as verdadeiras cores de We Happy Few. Este é um survival game.

Não sou o maior fã do género, e até tenho em Don’t Starve e em The Flame and The Flood os exemplos de maior originalidade de um género que estão tão sobre-explorado quanto o My Heart Will Go On em 1997. E admito que perceber que toda a genial construção de distopia política de We Happy Few, com a dicotomia entre depressão/resistência e droga/controlo cair subitamente em mais um survival game com um mundo processualmente gerado é, no mínimo, uma tremenda desilusão.

Recuperado da consciência de que We Happy Few acaba por deitar pela janela toda a construção narrativa que prometeu e que iniciou nos seus minutos iniciais, tenho de admitir que as componentes de survival não são nem melhores, nem piores do que muitos congéneres. O que também não é dizer muito mais do que nesta fase Early Access se sente que We Happy Few muitas vezes é pouco mais do que o genérico survival game na primeira pessoa com uma skin de cidade britânica dos anos 50.

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Este desajuste entre o mergulho/enquadramento inicial e o resto do curto jogo que se encontra agora em alpha denota, diria eu, uma falta de direccionamento criativo da Compulsion Games e até alguma esquizofrenia. We Happy Few revelar-se um survival game após aquele início quase que nos deixa a dúvida se terá existido, a meio do percurso, uma mudança drástica de direcção que os seus criadores queriam dar ao jogo. Fruto da percepção de que não teriam capacidade para criar um universo e um ritmo narrativos a par de Bioshock Infinite, acabando por dar-nos apenas esse vislumbre como um aperitivo para um prato principal constituído por um survival game sensaborão.

Resta-nos esperar pelo lançamento final do jogo para perceber se em algum momento os seus autores voltam a pegar condignamente no filão de abertura do jogo ou se o abandonam por completo, fruto, quem sabe, de alguma compulsão criativa?