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Sofro de esquizofrenia desportiva. Um contra-senso ideológico. Amo duas modalidades que disputam o mesmo nome: Football. No meio da relativa homogeneidade cultural do eixo ocidental o desporto é a trincheira das incompreensões. Todos se obstinam na sua apreciação das modalidades. Os Americanos gozam com a falta de golos, contacto e dinamismo do cognominado soccer. Os Europeus não entendem como se pode apreciar uma modalidade cheia de paragens e reduzida a mecanismos tão simples como um tipo lançar uma bola para outro a apanhar. Aliás, porque raio chamar isso bola pé quando a bola não é redonda e o pé raramente nela toca.

Amamos os desportos com convicções da sua superioridade e pouco ou nada interessa para além da modalidade da norma.

Conheci o futebol americano através da serie Madden. Mais precisamente Madden 92 da Megadrive após a aquisição de um conjunto de jogos “retro” numa feira da ladra. Como qualquer Europeu o meu conhecimento da modalidade limitava-se ao pano de fundo de inúmeras produções televisivas americanas. Para além de ser violento e o quarterback ter uma posição social privilegiada no contexto escolar pouco ou nada sabia.

Não percebia nada de Madden 92 mas não desisti. Com os primeiros episódios de Eyeshield 21, o manga dedicado a modalidade, e os jogos da NFL partilhados nos fóruns fui recompondo as peças do puzzle para finalmente descobrir de que maneira se joga.

O Futebol Americano é essencialmente um RPG por turnos praticado por um conjunto diversificado de anatomias invulgares. A força bruta é colocada ao serviço de uma planificação estratégica que transformam o terreno de jogo num campo de batalha onde cada um segue o seu guião.

Poderia dizer muito mais sobre esta modalidade. Limitarei-me a dizer o seguinte. O Futebol Americano, não sendo necessariamente para todos, merece a consideração de muitos que por preconceito persistem em não querer entender-lo.

O meu percurso atípico é na verdade mais comum do que aparenta. Com cerca de 11 equipas na nossa liga e uma seleção nacional em construção, o futebol americano pratica-se e é visto por um número crescentes de espectadores com as transmissões da Sport TV. Longe vão os tempos do racionamento online. Hoje em dia, o futebol americano em Portugal é um fenómeno silenciado mas em expansão. É no seguimento deste crescimento que surge nas lojas portuguesas este Madden 17 após anos fora do nosso eixo de distribuição.

Tempo de perguntar, afinal vale a pena comprar este Madden?

Existem duas reviews possíveis. Uma para os principiantes que pouco ou nada percebem e uma para os veteranos desta excentricidade. Vejamos.

O Principiante 

O Futebol americano é um desporto de 11 contra 11. Durante 90 minutos de jogo efetivo – o tempo real com as paragens é obviamente maior- equipas defensivas e ofensivas de ambas as partes disputam o seu posicionamento no terreno. O ataque tem cerca de quatro tentativas para percorrer 10 jardas (pouco mais de 9 metros). Se conseguir, volta a ter mais quatro tentativas. Se falhar terá de devolver a bola ao adversário. O objetivo é conseguir chegar ao fim do terreno, a end zone, para marcar o touchdown e conseguir pontuar. Se perceber esta ideia base o skills trainer do Madden 17 tratará de explicar todo o resto. Este mode compila horas de explicações particularmente lúdicas que vão desde as posições até complexidades de leitura de zonas defensivas. A EA aperfeiçoou essa aprendizagem interativa já presente em Madden 16 para um nível que supera as capacidades pedagógicas de muitos livros dedicados a modalidade: Quem quiser entender entenderá de certeza.

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Resta saber se, passado a aprendizagem, tudo isto é divertido. Madden 17 segue o molde convencional das produções da EA Sports. Simples versus, modo carreira, Ultimate team… Quem já jogou um FIFA estará familiarizado com o que é aqui apresentado.

Madden 17 é graficamente superior a FIFA 17. Os comentários são mais personalizados (quando só se cobre uma liga a coisa é mais fácil) e o valor “espectáculo” é superior (algo que acontece também na realidade).

O controlo de um jogo como Madden não corresponde ao que nos habituou tanto o futebol como o basquetebol ou até o hóquei no gelo. Como referi anteriormente, estamos perante ao que equivale a um RPG por turnos. Escolhemos a nossa jogada antecipando a escolha do adversário. Faz mais sentido nesta altura do jogo ele pensar que vou correr? Fazer passe? Para longe? Para perto? O que tem sido a sua tendência? Para que lado? Que jogador? Temos poucos segundos para escolher dentro do nosso vasto livro de jogadas a estratégia certa. Se tiver dificuldade em escolher, o que é natural, o Madden sugere sempre um conjunto de jogadas adequadas para a situação. As sugestões não são sempre pertinentes mas permitem jogar o jogo sem complicações para os menos entendidos. Uma vez em campo podemos escolher todos os jogadores disponíveis sendo que, ao contrário do que acontece no futebol, todos possuem funções muito distintas.

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É o principal desafio de qualquer abordagem à modalidade: Conseguir construir um gameplay plural, fiel à experiência de cada posição. Tradicionalmente uma jogada de ataque passa por controlar o Quarterback, escolher o nosso alvo, e, caso um dos jogadores da nossa equipa apanhar a bola, controlar esse jogador até ao fim da jogada. Essa transição rápida pode parecer desconcertante ao principio mas torna-se rapidamente viciante. A decomposição da acção permite digerir os acontecimentos e criar um nível de adrenalina semelhante ao que acontece numa sessão de penalties do nosso soccer: Todas as jogadas contam.

Madden 17 é neste momento o único jogo dedicado ao  futebol americano. Após anos de luta a franquia da EA atingiu o estatuto de monopólio pelo que é um incontornável para quem quiser experimentar a modalidade de comando na mão. O principal factor que me leva a recomendar esta edição aos principiantes reside no seu valor pedagógico inédito associado a um produto final seguro fruto de anos de experiência na matéria.

Desde o tutorial exaustivo até as ajudas e recomendações durante a experiência de gameplay este Madden 17 é uma excelente primeira abordagem. Se abrir a sua mente e carteira para a possibilidade o Futebol Americano pode ser um bom complemento para o seu novo lifestyle de Gin Tonics e quinoa.

O Iniciado 

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Agora que os putos estão na cama. Tempo de conversar entre adultos: Madden 17 não vem revolucionar o episódio anterior.

Enquanto Madden 16 introduzia novos conceitos na abordagem à transição entre QB e receivers e uma gestão mais “divertida” da parte defensiva, este 17 procura expandir estas ambições aperfeiçoando-as. É nesse sentido um episódio de consolidação mais do que um novo marco na série. Nada que os jogos de desporto não nos tenham habituado através da sua sazonalidade.

Os gráficos mantêm-se iguais à versão anterior. Nota-se um ligeiro aperfeiçoamento dos rostos mas globalmente nada mudou. O contacto continua muito irregular e embora se tenha progredido muito nesse aspeto os jogadores parecem demasiadas vezes derreterem após o toque como se o tackle os tivesse projectado para fora das leis da física.

Os principais modos mantêm-se inalterados. O multijogador e o Franchise mode continuam prioritários e o tempo disponível para as excentricidades passageiras do Draft Champions ou jogadas a solo é pouco.

Falando em Franchise mode, o mesmo mantém-se praticamente igual tendo como principal novidades uns pormenores que trazem mais imersão especialmente nas carreiras de coach e dono de franquia. Quando não estamos em campo, a transcrição dos jogos é mais pormenorizada e segue o tipo de representação visual semelhante ao utilizado pelo nfl.com. A comunicação social reage aos acontecimentos da season através de um leque mais diversificado de plataformas tais como as rede sociais.

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Para os menos dedicados, a nova opção “play the moment” permite limitar a nossa intervenção aos momentos chaves da partida e poderá gratificar os que não querem dedicar muito tempo ao modo carreira… Confesso que não é o meu caso.

O principal problema continua a ser a falta de imersão nas carreiras de jogador. Quando sabemos que Madden 2008 permitia até passar o teste do combine, criar um jogador para não ser sujeito a qualquer draft ou pre-season é particularmente frustrante. Após personalizar o nosso atleta através de um leque incrivelmente limitado de fisionomias, é-nos pedido para escolhermos a nossa equipa sem qualquer compromisso com a realidade. A título de exemplo, um undrafted QB pode ficar jogador titular dos Packers logo no primeiro jogo da season colocando o Rodgers no banco. Estamos a anos luz das narrativas de carreira de FIFA 17 ou de NBA2k… A cada iteração que passa a coisa torna-se cada vez menos tolerável.

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Esse tópico é infelizmente esquecido devido aos novos hábitos de consumo que privilegiam a competição multijogador. Nessa matéria o Ultimate team continua a ser o modo mais gratificante. Poder colecionar trading cards para compor a nossa equipa junta o espírito de competição ao coleccionismo num cocktail particularmente viciante. No entanto, mais uma vez, poucas novidades para além do novo fator “química” que avalia a compatibilidade entre jogadores pelos seus atributos. Criar um roster harmonioso traz implicações em campo e é um fator a ter em conta na composição da sua equipa.

Mas afinal o que há de bom neste Madden 17? Pois bem, a versão deste ano é um produto muito mais acabado do que a versão anterior e que poderá ter uma vida útil um pouco maior do que o habitual devido ao seu equilíbrio.

A principal aposta deste ano vai para o “ground game”. Enquanto Madden 16 introduzia a possibilidade de antecipar a receção dos nossos receivers, Madden 17 procura estender esse conceito para o jogo corrido ou o run after catch. O jogo corrido em Madden sempre me pareceu bastante pesado e pouco fluído tornando aquilo que deveria ser um running back flexível numa espécie de veículo pesado e desajeitado. Os finesse moves melhoraram significativamente e são agora acompanhados por uma espécie de lógica QTE que sugerem uma serie de acções capazes de prolongar a jogada e que aumentam o realismo. Fintar, stiff hands, fazer força para se manter em pé… Tudo está agora ao alcance dos nossos reflexos.

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O Jogo defensivo também foi melhorado. Mais uma vez, enquanto Madden 16 introduz a ambição de tornar divertido o jogo defensivo este 17 solidifica essa pretensão.

O backfield beneficia de um leque mais diversificado de opções na sua aproximação à bola à semelhança do que acontece com os receivers. Focar-se no jogador atacante, tentar a intercepção, tentar desviar a bola… Estas são algumas das opções que vêm trazer pluralidade à experiência.

Procurar tirar a bola das mãos do adversário é também agora mais fácil por ter um leque de controles que o permite fazer de forma voluntária. Os jogadores defensivos controlados pela IA são muito mais pró-ativos e adaptam a sua cobertura às mudanças do adversário, respeitando de forma mais fidedigna as instrução do playcall. Nas special teams, o lado defensivo beneficia agora de um mecanismo que permite bloquear punts e field goals. Essa opção é no obstante extremamente difícil de executar e responde a regras que após horas de gameplay ainda me parecem muito pouco claras.

O outro ponto positivo deste Madden 17 reside na sua ligação aos acontecimentos semanais da NFL. Os comentários, bastante melhorados, são atualizados semanalmente para corresponder ao que acontece no mundo real. Certas redundâncias perduram como a tradicional crítica aos DB que, após uma interception falhada, levam sempre com a boca de que se jogassem melhor seriam receivers (mas esta gente percebe mesmo deste desporto?). Globalmente, a sensação de estar a ver uma transmissão televisiva ultrapassa em muito o que é habitual nos jogos de Soccer.

O que falta a este Madden 17? Para além de uma verdadeira gestão dos corpos digna dos pretensões deste nova geração, a lógica da IA continua a falhar na gestão do relógio, nos receivers que não bloqueiam em circunstancia alguma, ficando espetados como o Jimmy Graham à espera do cheque e numa taxa de incompletention demasiado elevada. Não é normal um jogador vedeta não conseguir segurar um passe de um QB de elite só porque um DB qualquer lhe fazia man-coverage. Quem assiste à NFL sabe que grande parte das completions não são feitas por tipos isolados prontos para receber a bola sem contrariedade mas de grandes superações físicas que tornam o incrivelmente difícil em possível. Falta ao jogo saber avaliar esse fator de forma a recriar a magia das completions improváveis.

Madden 17 é de recomendar para todos os fãs que ainda não adquiriram um jogo de futebol americano nesta geração. É um jogo que nos faz arrepender ter comprado os anteriores por conseguir um equilíbrio inédito até agora nesta geração de consolas. Para os irredutíveis é naturalmente um indispensável. Os que já possuem Madden 16 poderão eventualmente especular sobre o futuro e o que poderá reservar um Madden desenvolvido sem o constrangimento de uma versão PS3. A menos que o orçamento não o permita, vale a pena considerar a sua aquisição. Isto claro se lhe sobrar tempo para escapar ao imperativo social do FIFA entre amigos. Vida difícil a nossa.