Muito poderíamos debater se a Corona e a restante Eurodance que povoou os tops musicais portugueses na primeira metade dos 1990s merecem um artigo algum dia, ou se deverão ficar naquele paraíso onde muitos one-hit-wonders habitam, felizes na ingenuidade de nunca terem sido artistas para além dos seus únicos temas de sucesso. E é provável que para além de ser uma palavra que significa coroa em latim e também uma famosa marca de cerveja, que a banda italiana com o mesmo nome seja pouco mais do que uma memória distante para muitos de nós.

Admito que esta minha segunda participação nesta rubrica que nos é tão querida (a mim e ao João, entenda-se) tenha sido aquela com o qual eu queria abrir a minha entrada como reconhecido Rapaz-Ventoinha, mas o lançamento de mais um maravilhoso Phoenix Wright veio adiar por 2 semanas um artigo dedicado a um grande jogo daquela que considero, e repito, ser a consola com o melhor catálogo e mais vasto de todos os tempos. Falo então de Elite Beat Agents para a Nintendo DS.

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Descobri Elite Beat Agents completamente por acaso. Um jogo do qual nunca tinha ouvido falar mas que me captou rapidamente o olhar pela atitude meio-over-the-top meio-classy dos personagens na capa, e quando percebi que se tratava de um rhythm game a recente febre (à época) que eu estava a passar com Guitar Hero fez-me querer jogá-lo de imediato.

Longe estaria eu de saber que nunca tinha jogado e que até hoje nunca joguei um jogo do género com a qualidade deste Elite Beat Agents. E já que nenhuma sequela foi lançada para a 3DS, acredito que será um factor que permanecerá inalterado nos próximos anos.

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Este jogo tem um conceito simples e curioso e que funciona na perfeição: os protagonistas são agentes secretos de uma organização governamental que ajudam pessoas em situação de dificuldade através de motivação, permitindo que as pessoas ultrapassem os seus problemas ao sentirem-se confiantes.

É claro que na prática o que temos são videoclips animados extremamente divertidos, em que a nossa prestação na parte mecânica de rhythm game define se a pessoa alvo do nosso cheering se consegue ou não ter sucesso no seu problema. Cada música está dividida em três momentos, que não só servem de pausa de interacção, como são uma espécie de interlúdios que mostram o sucesso ou o insucesso da “missão” através de animações.

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Há um reflexo quase pavloviano quando ouço algumas das músicas covered para o jogo. Sempre que ouço Canned Heat de Jamiroquai lembro-me da missão do filho do empresário que tem de se vestir de ninja e invadir a sede da companhia adversária de forma desajeitada, ou Sk8ter Boy de Avril Lavigne e o taxista que tem de incorporar o espírito de Crazy Taxi para levar uma senhora em trabalho d parto ao hospital.

Mas sem dúvida que a minha memória mais marcante é a cover de You’re the Inspiration dos Chicago, em que uma menina tenta ultrapassar a dor das saudades do seu falecido pai durante a véspera de Natal e que é um dos pontos mais sérios em toda a salutar loucura e humor de todas as outras missões. Triste, mas um bom interlúdio mais sóbrio em todo o agradável exagero que oconstitui.

Elite Beat Agents é uma espécie de sucessor espiritual da série Osu! Tatakae! Ouendan, dois jogos de ritmo apenas lançados no Japão e que partem de uma premissa semelhante, mas em que os protagonistas são male-cheerleaders ao invés de agentes secretos. O conceito de cheer squad (Ouendan em japonês) faz sentido dentro da cultura japonesa e é ligeiramente diferente do conceito ocidental que temos que em muito é herdado e inspirado pelo modelo norte-americano, daí a alteração dos sujeitos entre jogos. Osu! Tatakae! Ouendan (o primeiro e a sequela) têm o benefício de serem mecânica e conceptualmente idênticos a Elite Beat Agents, o que significa que conseguimos perceber perfeitamente a narrativa apesar de toda a banda-sonora ser constituída por músicas japonesas aos quais a grande maioria dos ocidentais não terá qualquer tipo de ligação.

Elite Beat Agents, que facilmente conseguem encontrar à venda em 2a mão é sem sombra de dúvidas um dos melhores, senão o melhor jogo musical da NDS. O desafio das músicas (lembro o facto da música do Jamiroquai ser uma das maiores dores de cabeça mesmo em dificuldades mais baixas) e os sucessivos modos de dificuldade tornam-no um jogo obrigatório para todos aqueles que gostam de jogos de ritmo e que já têm calos nos dedos de tentar ultrapassar o Guitar Hero e o Rock Band em Expert. Mas o grande ensinamento deste jogo (e da série Ouendan) criado por Keiichi Yano é que é possível criar um jogo diferente e memorável a partir do esqueleto aparentemente simples de um jogo de ritmo. É que à dimensão mecânica Yano conseguiu atribuir a carga narrativa sem precisar de recorrer a muito mais do que vinhetas de uma prancha de BD, perfeitamente em sintonia com o nosso desempenho mecânico e rítmico.

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Fica a sugestão esta semana. Depois de ter acabado os 3 jogos da “série” três vezes nos últimos anos, a vontade que tenho de os voltar a jogar depois de escrever este artigo renasceu. E parece que ouço os agentes a cantarem-me ao ouvido (Go! Go! Go!) a motivarem-me a ir rejogá-lo.