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Ao contrário dos meus colegas de capoeira, eu não vou escrever sobre a LGW. Até porque não conseguiria acrescentar seja o que for ao que todos já disseram. E também porque, como no ano passado já referi, este não é um evento para mim. Não me relaciono com ele e por isso, para escrever algo sobre o que não é direccionado a mim… não faz muito sentido. Seria como ser crítico de comida e querer analisar mousse de chocolate sendo alérgica ao componente principal… A minha opinião torna-se simplesmente irrelevante.

Prefiro falar de algo que Amo, e embora a minha opinião possa ser igualmente irrelevante, pelo menos sei que não estou a opinar fundamentada pelo afastamento afectivo e até alguma rejeição. Hoje em dia valoriza-se em demasia o afastamento emocional na formulação de uma critica – é o cérebro sem coração. Como não sou mulher de separações, prefiro falar com o coração usando o cérebro.

Este fim de semana foi também a data de um evento que há muito desejava em Portugal: o Video Games Live – um concerto ao vivo onde se celebra e homenageia a banda sonora dos videojogos. Um evento que mostra como a Música pode elevar ou destruir um jogo (ou um filme…). Infelizmente, porque a realidade teima em existir, não pude ir ao concerto. Resta-me apenas a consolação de esperar que regresse e, entretanto que isso não acontece, escrever sobre a música nos videojogos.

Se há coisas que são Universais, transversais a qualquer cultura ou civilização ao longo da história, é a capacidade do Ser-Humano transmitir as suas emoções através de um conjunto ritmado de sons que o nosso cérebro interpreta como música. Em muitos aspectos, a música é mais poderosa e eficaz na transposição de emoções do que propriamente a linguagem. E porquê?

Nada melhor que a ciência da medicina, neste caso, a neurologia, para explicar, de forma simples, o que acontece no nosso cérebro quando este ouve Música. Segundo os estudiosos desta área, a música pode ser vista, em última análise, como uma ilusão de percepção – tal como um quadro que contem uma imagem 3D. Ao ouvir os sons que compõem a estrutura musical, o nosso cérebro tenta organizar e impor uma estrutura e ordem, criando um sistema organizado e melódico com um significado definido. O aparente caos de sons é organizado. Desta forma, a capacidade de cada um de nós apreciar música (e diferentes estilos), está directamente relacionada com a nossa capacidade a sua estrutura subjacente – a capacidade de “prever”, de certa maneira, que ritmo irá ocorrer a seguir numa composição musical. Mas porque o nosso cérebro se cansa rapidamente da rotina, esta melodia terá que ter também alguma imprevisibilidade e poder surpreender, caso contrário o nosso cérebro cansar-se-á e distanciar-se-á emocionalmente do que está a ouvir. Perde o Interesse e procura algo novo. Esta manipulação do ritmo, previsibilidade e imprevisibilidade, é o que permite a reacção emocional do ouvinte – aqueles arrepios na pele que sentimos com uma música, só pelo simples acorde da sua melodia.

Ao contrário do que à partida se poderia pensar, a música está intrinsecamente ligada à parte do nosso cérebro primário – aquele que vem dos nossos antepassados e que muitos cientistas tão ternamente lhe chamam: Lizard Brain. É a parte do cérebro que controla funções tão essenciais como: Motivação, Recompensa e todo o infinito espectro de Emoção. Quando ouvimos os primeiros acordes de uma música, o cérebro sincroniza os seus neuro-receptores de forma a prever “para onde vai” o ritmo e começa a sincronizar com o mesmo. Se a música não sincroniza com a nossa estrutura emocional – não a apreciamos.

Mais do que qualquer outro estímulo, somente comparável ao fenómeno do cheiro, a música tem a habilidade de evocar imagens e sentimentos que não estão necessariamente reflectidos na nossa memória. Ouvir uma música que me relaxe e imediatamente ser transportada para uma selva imaginária na qual nunca estive, é um exemplo disso. Este fenómeno absolutamente fascinante, está relacionado com o fenómeno de Sinestesia: quando o estímulo de uma área do cérebro leva a experiências involuntárias e automáticas de outra parte do cérebro. Chorar com um som de um instrumento… arrepiar a pele… abanar o corpo… gritar…

Desculpem esta dissertação teórica dos estudos que encontrei na minha pesquisa, mas estes fenómenos são absolutamente hipnóticos para mim. De certa forma, entendendo o cérebro, sinto uma magia de reconhecimento cada vez que experiencio uma destas maravilhas da emoção.

Esta sinestesia que sentimos com a música, este “chamar de emoções”, quando bem utilizada num videojogo, pode elevar a experiência a algo completo e, momentaneamente, vivido como sublime. Algo que conta a história para além do que estamos a experienciar com o comando. Algo que, ainda que inconscientemente e sem nos darmos conta, consegue tornar-nos mais corajosos na batalha com um Boss, fazer-nos sentir que fazemos parte de algo grandioso, transportar-nos no tempo, amedrontar-nos como uma criança debaixo do seu cobertor.

Pessoalmente, enquanto jogadora, não consigo dissociar um videojogo da sua banda sonora. Não consigo apreciar completamente uma experiência se a música que a acompanha não for totalmente simbiótica com ela. Sou uma mulher de emoções, e o que o meu “coração” não reage, o meu cérebro não “sente” – apenas observa.

Já aqui falei do que senti a primeira vez que pus God of War na minha consola e “Vengeful Spartan” começa a tocar no ecrã.

O choque eléctrico que literalmente percorreu o meu corpo. Senti que estava a preparar-me para uma batalha – algo que seria tão inevitável como a morte.

E em Shadow of the Colossus? Lembram-se da música que toca enquanto lutamos com um dos 16 geniais colossus que encontramos?

Lembram-se o quão épicos se sentem e como a música eleva o vosso esforço enquanto digladiam aquele gigante? Faz-nos sentir como se o Colosso fosse um inimigo do nosso tamanho. E quando o matamos? A música transforma-se num requiem… a nós… ao colosso. O sentimento de grandiosidade que há minutos é transformado em desolação. Sentimos que algo está errado – um pecado grande foi cometido.

Lembram-se da primeira música de The Last of Us? A música que toca na Intro?

A perda de Joel, a solidão, o desespero, a desumanidade para a qual vamos entrar quando começarmos a jogar, é transmitida naquelas notas mágicas de guitarra de Gustavo Santaolalla. E a música que se chama: “All Gone”? Aquela que nos acompanha quando corremos com Ellie nos braços pelo hospital no derradeiro capítulo do jogo.

Confesso-vos: não vos consigo dizer quantas vezes morri naqueles minutos, cuja dificuldade de jogo é quase nula. Apenas temos que encontrar a saída e continuar a correr. E ainda assim, morri mais vezes do que queira admitir. Tudo porque estava a tremer e as lágrimas a correrem. A música transportou-me para um sentimento de perca que não queria sentir.

A banda sonora de Journey é ela mesma uma Viagem. Uma viagem de emoções e sentidos, que nos estimula tanto quanto os caminhos que percorremos.

Quanto o tema de Uncharted arranca, sentimos o espírito aventureiro de Indiana Jones. É altura de explorar. Um tema ligeiro, cheio de curvas, como o próprio jogo.

Quando em World of Warcraft entramos em Stormwind, a música tem reverência. Eleva – é majestosa. É a cidade do Rei, e não precisamos de o ver para, através destas notas musicais, sentirmos a sua presença. Quantas e quantas vezes desejo voltar a Stormwind apenas para ouvir a música.

Em Skyrim, Dovahkiin transporta-nos no tempo. Somos momentaneamente guerreiros vikings – nada tememos e nada nos poderá parar.

E a música de Cleric Beast em Bloodborne, o primeiro Boss que encontramos?

A força daquela música cai em nós com tanta surpresa e “estrondo” emocional como o próprio Beast. À medida que a luta decorre, também a música acelera vertiginosamente, acompanhando o ritmo de ataque e evasão que o nosso caçador terá que dominar para sobreviver a esta noite de pesadelos. Quando acabei esta batalha a primeira vez – senti-me fisicamente cansada. Aquele cansaço que sentimos quando finalmente conseguimos algo que custou muito. E esse cansaço deveu-se tanto à adrenalina da batalha como ao frenetismo da música que me fez sentir uma imprevisibilidade que poucas vezes se experiencia. E quando, perto de terminar o jogo, lutamos com aquele que foi, de certa forma, o nosso mentor: Gherman, the First Hunter, e a música que toca, no meio de uma batalha de igual para igual que desafia todas as nossas capacidades, bailamos a dança da guerra ao som da mais suave ode de despedida? Como se o jogo nos retirasse o sentimento de batalha épica e, em troca, nos presenteasse com a despedida daquele primeiro caçador, que tanto tempo esperou pela sua liberdade de um pesadelo e caça sem fim. A canção de desespero de quem viveu em solidão.

Poderia passar horas a falar dos momentos em que a música fez algo mais pela minha experiência de jogo do que qualquer gráfico ou jogabilidade.

Mas este artigo já vai longo e sinto que por mais que diga, nunca conseguirei fazer justiça ao poder da música. Deixo-vos com uma experiência à qual sujeitei o meu amigo Pedro Guerra, compositor e músico, e que tanto me ajudou a escrever este artigo. Mais do que qualquer coisa que posso dizer, e tal como a música, a experiência mostra-nos a importância do ritmo da nossa Emoção.

Desafio – Fiz a minha cobaia ouvir algumas músicas de jogos que ele nunca jogou e pedi-lhe para me dizer o que sentia. Eis as suas respostas em algumas músicas que referi aqui:

BloodborneCleric Beast Theme: “Sombrio, obscuro, assustador, mas por outro lado, tentação de avançar para a descoberta, mesmo que o sentimento mais primário, seja o medo do que estará à tua espera. acima de tudo, medo do desconhecido. Fear the Unlnown. Ao mesmo tempo de sentires tentação em avançar, por outro lado, algo te diz que se calhar não é muito boa ideia.

 God of War – Vengeful Spartan: “Algo Grandioso/Épico até. Aventureiro Descoberta de algo estrondoso Uma espécie de história do desenrolar de algo grandioso.”

The Last of Us – The Last of Us Theme: “Sinto-me Só. Desespero e solidão. Perca. No final da música, o tom fortalece e sinto esperança e força”

Nota: Estudo – Dr. Daniel Levitin (neuropsicólogo), Dra. Malini Mohana (Neuropsicóloga)