Todos nós temos aquele jogo que vamos revisitando com o tempo seja por nostalgia ou porque nos lembramos dele e nos dá aquela vontade de experimentar um novo playthrough, ou simplesmente porque temos tempo para matar e queremos fazê-lo de forma confortável. Para mim Arx Fatalis é um desses jogos.

Arx Fatalis é um first person RPG que saiu em 2002 para PC e XBOX pelas mãos da Arkane Studios (Dark Messiah of Might and Magic, Dishonored, Dishonored 2, Prey). Conta-nos a história de um mundo onde o Sol se extinguiu deixando o exterior inabitável dadas as suas temperaturas negativas, forçando os vários habitantes de várias raças (humanos, goblins, trolls, etc.) a mudarem-se para cavernas no subsolo. Neste contexto, no início da nossa aventura acordamos numa cela. Não fazemos ideia de quem somos, de onde estamos nem do que estamos ali a fazer, e literalmente com nada nas mãos, é aqui que damos os nossos primeiros passos numa aventura que tem de tudo, NPCs interessantes, uma narrativa apelativa, um mundo que favorece a exploração e uma personagem que pode assumir o papel que quisermos.

Começando pelo último tópico, quando o jogo nos pede para criar a nossa personagem, não temos propriamente muitas escolhas, principalmente de um ponto de vista visual. Temos uma série de pontos que devemos atribuir aos nossos atributos e habilidades e logo a partir daqui podemos reflectir sobre o tipo de personagem que queremos ter neste nosso longo percurso. Um guerreiro com altos níveis de Força e que usa pesadas espadas e armaduras? Um feiticeiro com elevada Inteligência e que executa com mestria uma série de poderosos feitiços? Um ladrão discreto de mãos leves e armado com punhais afiados? E porque não todas as opções? Não existe nenhuma classe pré-determinada no menu de criação. Está tudo ao nosso critério e à medida que vamos evoluindo podemos fazer as alterações que acharmos por bem.

De um ponto de vista narrativo, o jogo é bastante interessante e imersivo, principalmente quando nos vamos apercebendo do que realmente se está a passar à nossa volta. Aqui também requer muita atenção, principalmente no que toca a saber o que temos de fazer e onde temos de ir. Como muitos outros jogos do género, as nossas quests são-nos dadas por vários NPCs, algo que depois fica guardado no nosso diário, mas o tópico em questão pode não ser propriamente claro quanto ao passo seguinte e isto é algo que acontece com alguma frequência. Deve prestar-se atenção às conversas que se têm com os NPCs e que eles têm entre eles de forma a saber os vários detalhes associados ao próximo objectivo. Caso tudo falhe, podemos sempre recorrer à exploração e esta é sempre uma excelente solução. Várias foram as vezes em que dei por mim a tropeçar no próximo passo da quest que estava a tentar levar a bom porto. Há muito para descobrir, principalmente fora da linha narrativa principal, e o jogo certifica-se sempre que explorar aquele pedaço de desconhecido vale a pena.

Quanto à jogabilidade, está longe de ser algo de novo. Muitos jogos na altura usavam mecânicas semelhantes. Temos um inventário onde vamos depositando todos os nossos achados, podemos equipar várias armaduras, anéis, e usar todas as armas desde que tenhamos os requisitos mínimos. No que toca ao combate, se estivermos a usar algo como uma espada, basta mantermos premido o botão de ataque para dar mais dano ao mesmo, e dependendo da direcção do nosso movimento, vamos executar um golpe diferente. Com arco e flecha é mais simples, bastando simplesmente apontar e disparar. Já com magia, a coisa torna-se mais interessante. Arx Fatalis usa um sistema de runas que, quando usadas numa determinada ordem, permitem a criação de um determinado feitiço. Estas runas são desenhadas em tempo real pelo jogador. Às vezes é difícil desenhá-las como deve de ser, principalmente durante o combate, mas existe uma forma de remediar isso. Os feitiços podem ser memorizados, ficando assim prontos a usar em qualquer altura. Contudo, só podem ser memorizados até um máximo de três feitiços, o que pode implicar alguma ponderação.

Ainda dentro da jogabilidade, podemos também cozinhar as nossas próprias refeições, desde preparar pão e tartes a assar umas costeletas, e também, se o nosso nível de Alquimia o permitir, confeccionar as nossas próprias poções. Também, se tivermos certos objectos connosco, podemos aprimorar as nossas armas, dando-lhes algumas buffs extra para nos ajudar nos nossos momentos de necessidade. De relembrar que praticamente todas as armas têm um limite de durabilidade, pelo que é uma boa ideia repará-las sempre que possível ou ter uma suplente à mão.

Visualmente, pode não agradar a todos. É verdade que os gráficos estão mais que desactualizados quando sob os padrões actuais, mas se olharmos para além deles, conseguimos observar algo novo e diferente. Apesar desta condição, existe uma clara atenção ao detalhe em cada nível do jogo, e uma vez que estamos no subsolo, o jogo certifica-se que aquele pedaço de claustrofobia está sempre presente.

Obviamente que é um jogo que não é para todos. Seja pelos gráficos ou pela jogabilidade haverá sempre algo que não irá agradar a alguém, mas se forem como eu e apreciam uma boa aventura onde a liberdade é praticamente absoluta, diria que estamos perante uma pérola que envelheceu bem com o tempo e que deve estar em exibição em qualquer colecção.

Isto é o que tenho a dizer sobre este grande jogo, e como não vos quero deixar só com água na boca, vou complementar tudo com algumas dicas que me teriam ajudado imenso quando peguei nele pela primeira vez:

1 – Ponham no inventário tudo o que não estiver preso ao chão (a não ser que estejam numa loja ou na casa de alguém… mas se não se importarem com as consequências, força nisso);

2 – Os feitiços podem ser memorizados, bastando premir ctrl+shift e depois desenhar as respectivas runas;

3 – Este é mais uma preferência pessoal que outra coisa, mas tenho tido melhores resultados usando personagens com Inteligência alta e consequentemente feitiços mais poderosos. Fireball, nothing beats a classic;

4 – O jogo não deixa claro tudo o que pode ou não ser feito. Nesse sentido, a experimentação é sempre algo a considerar (gravar o jogo antes é recomendado).

Pois bem, falei-vos do jogo e armei-vos com alguns pontos-chave que vos serão certamente úteis. Está agora nas vossas mãos decidir se estão prontos para explorar o mundo de Arx Fatalis.