…do ano. A #55 por acaso.

É fácil dizermos que 2016 foi um mau ano se pensarmos no número excessivo de celebridades que idolatrávamos e que nos deixaram neste ano, mas seria injusto apenas vermos a parte negativa dos 12 meses deste ano que em tantos aspectos soa mais negro que muitos outros. No espectro geopolítico também uma série de acontecimentos ocorreram e que deixam o nosso futuro próximo como uma verdadeira e assustadora incógnita, mas invocando um optimismo que não me é natural, arriscaria a dizer que decerto qualquer um de nós consegue encontrar uma série de bons acontecimentos nas suas vidas pessoais para iluminar um ano que se vestiu de negro profundo. Seja o amor das pessoas que amamos, das nossas mulheres, maridos, namorados, namoradas, filhos, pais, amigos, e que servem sempre como farol na escuridão da tristeza, seja um evento profissional de relevo, ou um acontecimento pessoal e íntimo, por mais ínfimo que seja e que ajude a encontrar um ponto positivo em 2016 e a deixar antever um 2017 sorridente. Mais sorridente do que o ano que agora encerramos.

É uma tarefa que não é fácil, mas que é necessária. É pelo menos o meu desejo e o de toda a equipa do Rubber Chicken, agora que caçamos os 3 últimos indies de 2016, um ano que em termos de mercado independente foi sem dúvida um dos mais profícuos. E com eles brindamos a um ano melhor.

À vossa! Aos videojogos! Aos indies!

The Lion’s Song, de, por, para e sobre artistas

Após termos jogado o primeiro episódio que se encontra gratuito no Steam, cresceu-nos a vontade conhecer um pouco mais sobre The Lion’s Song, o curioso e cativante jogos episódico obra do estúdio Mi’pu’mi Games e cuja tónica narrativa circunda em torno da Arte, da sua criação e no sofrimento em torno da sua materialização.

Se no primeiro episódio (Silence) seguimos a vida de Wilma, uma brilhante compositora a viver em Viena e que se vê refém de um bloqueio criativo que a impede de terminar aquela que ela acredita vir a ser a sua magnum opus, no segundo episódio (Anthology) seguimos a vida de Franz, um pintor vienense cuja forma experimental de representação pictórica circunda em torno de expressar “camadas” da sua visão sobre os objectos retratados.

A capacidade narrativa destes dois primeiros episódios (e únicos lançados até agora) de uma tetralogia de conseguirem articular-se para a frente e para trás com as escolhas que fazemos, criando uma estrutura indivisível que terá a sua conclusão no próximo ano torna este The Lion’s Song como uma das grandes apostas literárias interactivas do mercado indie.

Já a sua linguagem estética única, que o torna distinguível de qualquer outro, demonstra a exímia qualidade de um dos indies que decerto voltaremos a jogar quando todo a história estiver “escrita” e publicada.

Filthy Lucre, o crime nas sombras

Jogos de acção furtiva já tiveram o seu apogeu na época em que Metal Gear Solid, Syphon Filter e Splinter Cell ocupavam os tops de vendas de forma quase monopolizadora. Neste sistema perfeitamente evolutivo que é o mercado dos videojogos e o quanto a “cena” de game dev, em especial os AAA, se adapta aos rigores destas mudanças constantes, há muitos géneros que vão ficando esquecido para trás, apenas para serem erguidos pela esfera indie onde os géneros estarem ou não em voga é a menor das preocupações.

Filthy Lucre é filho desse espírito aventureiro e descomprometido do mercado indie, onde os stealth action games podem brilhar numa época em que os shooters futuristas genéricos nos entram pelos olhos a dentro de assalto. Ao contrário da acção presente naquilo que os stealth games se transformaram, Filthy Lucre obriga-nos a apostar quase exclusivamente no cuidado e na furtividade, evitando confrontos directos com os muitos inimigos armados presentes nos muitos níveis que o constituem.

Filty Lucre foi uma boa surpresa a encerrar um ano, trazendo de regresso à memória um género e uma abordagem muito mais violenta e sangrenta mas que me relembra a minha última surpresa de jogos stealth indie: The Marvelous Miss Take.

Shuffle, as cartas dadas do mercado japonês

Este ano de 2016 foi sem sombra de dúvida aquele no qual eu mais contactei com visual novels, que passou de um género do qual apenas conhecia o fantástico Ace Attorney até uma fase em que consigo reconhecer as referências do nosso grande especialista, o Leonel.

Se a presença da NISA e de outras editoras mais pequenas no Ocidente têm feito maravilhas para conseguir trazer o que de melhor se faz neste género, a abertura do Steam e a notória percepção de que há negócio a ganhar aqui tem feito com que o PC seja também um parceiro privilegiado para as visual novels.

Shuffle, cuja existência desconhecia até então, é uma das visual novels de maior sucesso comercial, fruto da ligação com a série de anime que lhe deu origem. Ao contrário de outros congéneres que apostam em algumas mecânicas de interactividade como forma de conquistar jogadores fora da cultura otaku, Shuffle, dentro das suas cerca de 30 horas de jogo traz-nos uma visual novel clássica, essencialmente assente na força da sua narrativa e dos múltiplos caminhos que as nossas escolhas podem trazer.