Caçada Semanal#59

As férias de Natal e Ano Novo (para quem as tirou) já são uma memória longínqua, com o segundo dia de 2017 a calhar numa segunda-feira e a abrir as hostilidades para mais uma semana e mais um ano de trabalho.

Regressados do exílio auto-imposto, e nesta que é a sobre-compensação de Caçadas Semanais depois de um par de semanas sem nenhuma, abrimos assim as portas à segunda desta semana (e do dia), e quase que arrumamos a casa em termos de indies pendentes (trocadilho não-intencional).

A guerra, nas suas muitas formas de expressão, é um ponto de inspiração para uma quantidade considerável de videojogos. O mercado indie, obviamente, não poderia ser excepção.

Shadow Tactics: Blades of the Shogun

Lembro-me perfeitamente do que senti quando joguei Commandos pela primeira vez. Esse jogo hiper-desafiante que andava na boca das pessoas que me rodeavam, numa época em que a definição de rede social era subentendida pelas pessoas que nos eram próximas no Secundário ou no nosso bairro, e cuja opinião ou validação eram bem mais importantes que todos os reviewers que nós obviamente nem conhecíamos. Uma época em que o teor das revistas era maioritariamente informar sobre lançamentos do que criar análises profundas a definir o status quo. Mas convenhamos: o que queríamos saber, única e exclusivamente, era se determinado jogo valia a pena de ser jogado.

Commandos (e as suas sequelas), assim como Desperados (um jogo posterior mas a beber da mesma influência) sobreviveram ao teste do tempo, e ainda hoje percebemos que estes jogos altamente cerebrais, em que observávamos os passos subsequentes que tínhamos de dar para concluir cada missão tinham o tom essencial do xadrez, em que com múltiplos caminhos possíveis o resultado só poderia ser o mesmo: vencer.

Percebemos que nos dias de hoje seria muito complicado o mercado mainstream debruçar-se sobre jogos de estratégia furtiva em tempo real isométricos, não só pela aura demodé da própria abordagem perspéctica (salvo Diablo e os MOBAs que continuam a apaixonar milhões) mas acima de tudo por este temor colectivo de frustrar os jogadores.

Shadow Tactics: Blades of the Shogun, lançado há pouquíssmo tempo pela Daedalic tem esse rigor, esse desafio, e todo o espírito retrospectivo e táctico de Commandos e congéneres.

Imaginemos a famosa série sobre a Segunda Guerra mas num setting do Japão feudal, com shoguns, samurais e ninjas, e onde cada nível, dentro das milhentas possibilidades de ser ultrapassado nos deixa apenas uma certeza: tudo tem que ser cuidado e a ideia de passar o jogo Commando-style é um erro (expressão quando ironicamente o próprio jogo Commandos nos obrigava a eliminar todos os inimigos de forma furtiva e a esconder os seus corpos para não denunciar a sua presença).

Shadow Tactics: Blades of the Shogun é em todos os aspectos o regresso a Commandos, em toda a sua complexidade, desafio e inteligência, mas aplicado a um cenário nipónico. Isto não é argumento de venda suficiente para qualquer um?

Drive on Moscow: War in the Snow

Como fãs e seguidores fiéis de jogos de estratégia, temos sido assíduos críticos de todos os lançamentos que a Slitherine tem feito nos últimos 12 meses. Com um catálogo quase inteiramente dedicado a jogos de estratégia (grande parte por turnos) e wargames, a probabilidade de encontrar jogos que ou são, ou poderiam ser de tabuleiro é grande. É o caso deste Drive on Moscow, lançado em 2013 para iPad mas a chegar há poucas semanas ao PC.

O género de wargames é extremamente difícil de entrar. Usualmente a dificuldade e a complexidade conduzem a uma curva de aprendizagem acentuada, à medida que vamos aprendendo e dominando as muitas características que compõem a gestão bélica do cenário de guerra das Estepes russas.

O enquadramento histórico da Segunda Guerra Mundial está tão fiel quanto outras adaptações (especialmente a sua prequela, Battle of the Bulges), e é em Drive on Moscow que lutamos os dois lados de um dos momentos-chave da Guerra: a ofensiva nazi em direcção a Moscovo, e a consequente batalha que determinou a derrota do exército germânico contra todas as expectativas.

O planeamento de cada turno tem que ser cuidadosamente estudado e reflectido sob pena de sofrermos com alguma das muitas variáveis que podem virar o “tabuleiro” a nossa desfavor. Com uma apresentação muito simples, são as mecânicas e a jogabilidade de Drive on Moscow que o tornam um excelente wargame abaixo dos 10€, que é um preço baixo tendo em conta o usual do género.