Trabalhar aqui há quase 5 anos tem sido uma troca constante de conhecimento, e dificilmente consigo medir o quanto já aprendi e já evoluí enquanto alguém que se debruça diariamente sobre videojogos, por ter colaborado na redacção ao longo destes anos com tanta gente com tanto para partilhar, e que ajudaram o Rubber Chicken a ser o que é hoje.

Uma dessas pessoas é o Leonel, cujo longo conhecimento sobre o mercado japonês trouxe-nos e ao público do Observador um dos nossos artigos mais lidos de sempre, sobre a (para mim desconhecida) série Uncharted Waters, que abordava os Descobrimentos e os Portugueses com um leve toque de JRPG.

Foi este conhecimento e a imensa vontade de jogar Uncharted Waters que me deixou entusiasmado por Neo Atlas 1469, um jogo da Arc System Works que chegou ao Steam há poucas semanas.

Neo Atlas causou-me algum choque ao primeiro impacto. Visualmente parecia estar no limbo entre um jogo do início do milénio com assets refeitos em HD, e uma linguagem nos personagens ligeiramente distinta do que esperaria de um jogo japonês. Esta estranha mistura deve-se ao facto de que Neo Atlas 1469 é uma versão remasterizada para Vita de Neo Atlas II de 1999, ficando artisticamente desequilibrado entre uma fase de tridimensionalidade datada e uma mistura de estéticas distintas que tornam o jogo visualmente pouco coeso.

É verdade que dentro do mercado actual de Steam, Neo Atlas 1469 não é o jogo artisticamente mais apelativo de sempre, mas se as mecânicas de exploração marítima e trocas comerciais forem interessantes penso que podemos perdoar tudo isso.

À semelhança do que os navegadores portugueses fizeram à época, o grande foco deste jogo é a exploração, e a definição daquilo que é o mapa navegável. O território visível e conhecido remete-se à Europa e à África Mediterrânica, estando todo o resto do globo envolto em neblina. Cabe-nos a tarefa de enviar os nossos capitães e respectivas frotas em trajectórias desenhadas em cima dessa neblina.

Ora, com o conhecimento que temos do mapa mundi, e tendo como referência os portos Portugueses como ponto de embarque, é fácil sabermos que para chegarmos à América só temos de atravessar o Oceano, e mesmo com a neblina a cobrir os mares desconhecidos, sabemos localizar exactamente onde fica o Brasil ou os EUA.

E é aqui o grande twist de Neo Atlas 1469. Para evitar este resultado, o mapa mundi vai sendo progressivamente “desenhado” a partir dos reports das viagens dos nossos almirantes, conclusões essas que podemos aceitar ou rejeitar. Se aceitarmos as informações que os almirantes nos dão, o mundo vai tomando forma com semelhanças à Terra real, mas com alterações quase aleatórias, fruto da definição cartográfica que vamos aceitando. Dando resultados tão estranhos e tão distintos quanto o seguinte.

A meio dessas viagens as nossas frotas correm o risco de verem a sua navegação interrompida por piratas, tempestades ou monstros marinhos, e apenas com os stats devidos (e alguma sorte) conseguirão ultrapassar essas provações.

À medida que vamos descobrindo o mundo, vamos revelando portos com os quais podemos criar rotas comerciais, no fundo, o cerne de todo o jogo, já que pertencemos a uma Companhia Marítima paga pelo Rei de Portugal para colocar Lisboa como um dos principais portos da Europa da época.

Com muitas mecânicas e ainda mais diálogos, que perfazem um tutorial que ultrapassa largamente a hora de jogo, este longuíssimo jogo deve a sua longevidade à caricata mas eficaz mistura entre géneros como visual novel (o enredo e o diálogo entre todos os personagens envolve grande parte do tempo) com um simulador marítimo, gestor comercial e aventura/navegação.

Ultrapassada a estranheza da indefinição artística de Neo Atlas 1469, descobrimos que há um simpático jogo sobre os Descobrimentos, muito mais leve do que qualquer jogo com esta temática, com personagens pejados de humor e com uma abordagem bizarra mas que facilmente justifica o seu curto preço 9,99€, com incontáveis horas de jogo.

Mas sobretudo Neo Atlas 1469 é uma curiosa visão ficcionada da História paralela, e uma divertida forma de olharmos para este período.