(quase rimou, se dissermos Sardé em vez de Sardê)

Não tenho rigorosamente nada contra o André Sardet. Se destilo um ódio musical visceral para muitos artistas, contra o André (chamemos-lhe assim, como se fossemos compinchas) não tenho nada. O pior é que também não tenho nada a favor. Ouvir qualquer música do André é para mim igual ao silêncio. Aliás, o silêncio consegue obter algum estímulo da minha parte, o André não. Costumo dizer que é igual à água da torneira, mas até essa tem sabor, e quem me tira a água canalizada dos Olivais tira-me quase tudo. Mas ouvir o André não, nem encontro qualquer estímulo a ouvi-lo. Se me pedirem para definir o que é “Meh” em duas palavras eu explico: André Sardet. Não é bom, não é mau, é meh. Ou André Sardet se preferirem.

Por isso convido-vos, e ao André, se ele puder, a acompanharem-me no apontar do dedo a dois jogos medianos, sensaborões, que nos passaram pelo computador recentemente.

Nice Slice é o primeiro. Um jogo casual notoriamente feito para mobile, mas que encontra no PC um caminho possível. A premissa? Simples como uma música do André Miraldo Sardet Pires: temos uma faca que está em constante movimento, e temos de ser precisos e desferir múltiplos cortes em um sem número de alimentos.

À primeira vista divertimo-nos, mas passados alguns segundos a casualidade do jogo vem ao de cima, e ainda que necessitemos de alguma mestria para dominar os combos e os high scores (para desbloquear as humorísticas facas aqui presentes), a ideia e o sentido de diversão de Nice Slice esfumam-se bem de fininho, tão fininho quanto uma fatia de fiambre cortada com aquelas facas anunciadas na TVShop.

Entre passar tempo com Nice Slice e levantar os meus glúteos da cadeira e ir até à cozinha cortar pão, acho que prefiro a segunda. E entra o som da faca do pão a serrilhar uma fatia e ouvir o André Sardet, prefiro a primeira hipótese.

Andamos todos de olhos em Marte, possivelmente porque as coisas aqui na Terra não estejam assim tão famosas. Cada vez mais me lembro das palavras do Gabriel O Pensador no seu brilhante dueto com o Lulu Santos no “Astronauta”. Há uma sensação de escapismo quando olhamos para o céu e vemos a Lua, ou quando projectamos na Mars Rover todas as todas ânsias sobre a incerteza do mundo em que vivemos.

Take on Mars, que esteve em desenvolvimento desde 2013, vem buscar esse espírito extra-terreno, levado-nos para o cenário desértico de Marte numa história que pouco tem para dar sem ser puxar as linhas todas que conduziram ao sucesso crítico e comercial do filme The Martian. Tanto é que há uma alteração de tom brutal entre o que o jogo era inicialmente e o que se tornou nos últimos anos de desenvolvimento.

Para a História vai ficar apenas uma tentativa de simulador e survival game de um colonizador em Marte tão inócuo para o mercado dos videojogos que muitas vezes se ficarem simplesmente parados em Take on Mars durante um tempo, quase que conseguirão ouvir o vento solar a trazer aquela música aborrecida do André Sardet que a malta insistia em ir cantar a karaokes na década passada.

O André prepara-se, ajeita-se no seu banco de madeira e coloca a guitarra a jeito. Dedilha um acorde daquela tal música, e lentamente vemos tanto Nice Slice como Take on Mars lentamente a desintegrarem-se. Cada palavra do André desfaz a programação destes jogos, ocorrendo aquilo que os fãs da magnum opus de Otomo apelidam como uma espécie de evento de Akira, mas aqui é só o alinhamento cósmico de três entidades verdadeiramente meh: Sardet-Slice-Mars a anularem-se e a reequilibrarem as ondas cósmicas do Universo.