Mass Effect: Andromeda já tem feito correr muita tinta. A mega produção, orçada em 40 milhões de dólares e na senda da bem sucedida primeira trilogia, tem sido notícia por todos os maus motivos, deixando um rasto de escárnio e desilusão que vai sendo razoavelmente comum na actualidade dos jogos AAA. Não é que os erros e as falhas detectadas sejam impeditivos do usufruto do jogo. Este encontra-se estável, bem optimizado e sem falhas críticas que, por aqui, tenhamos detectado. Não, os problemas de Mass Effect: Andromeda prendem-se, sobretudo, com as expectativas – esperando ver Ecce Homo de Elías García Martínez e ser brindado com a garatuja de Cecilia Giménez – e, lá está, com o facto de estarmos em 2017 e termos para trás todo um historial de crescimento e evolução da indústria de videojogos que definiu um conjunto de standards que se espera que todos, de uma forma ou de outra, cumpram.

 Agora que a poeira assentou e que já tivemos tempo para brincar com o primeiro grande patchMass Effect: Andromeda não é um mau jogo. Mas é uma espécie de corolário para a ideia de “para quem é, bacalhau basta” que parece reger grande parte das editoras das actualidade. Como se atrevem? Como se atrevem a lançar um jogo sem que este seja considerado o melhor que conseguem fazer? Como passam certos óbvios erros pelo crivo do controlo de qualidade de um dos maiores Publishers dos dias que correm? Não contemplando sequer a hipótese de não terem visto determinadas coisas que saltam à vista, resta-nos a triste constatação: as coisas foram vistas, detectadas e assinaladas com o devido encolher de ombros, como se um “caga nisso” fosse um selo de qualidade.

Mas isto não é um jogo da loja dos 300. Isto não é uma coisinha que se possa enxotar com um agitar de mão. Isto é um dos grandes ícones do mercado, uma das séries mais emblemáticas da história dos videojogos e uma das maiores produções de sempre. Não é, não deveria, não PODE ser tratado de forma leviana. Há pouco tempo, a PC Gamer fez algo que eu próprio tinha feito, em conversa informal. Comparou Mass Effect: Andromeda com Witcher 3. Revisitei Witcher 3 há pouco tempo, com a desculpa de jogar as (fenomenais) expansões, e o salto lógico é fácil de fazer. Afinal, Witcher 3 acerta em praticamente tudo aquilo que poderíamos pedir – ou não sabíamos ainda que íamos querer – num RPG do género. O núcleo dos dois jogos é semelhante. Um arco central da história, várias histórias paralelas, vários pontos de interesse , diversas melhorias que podemos implementar na nossa personagem… E, ponto prévio, eu adorei a trilogia original de Mass Effect e torci o nariz ao Witcher 1, por isso não há aqui nada mais além desta fria análise à coisa. A questão é que, depois de uma experiência decepcionante em Witcher 1, que me levou a ignorar quase por completo Witcher 2, quando Witcher 3 me caiu nas mãos (adquirira uma placa gráfica nova e o jogo foi-me oferecido como estando incluído) a surpresa foi deliciosamente boa. Por outro lado, tendo adorado todo o historial de Mass Effect, a verdade é que ao embrenhar-me pelos planetas de Andromeda, o jogo não consegue agarrar-me com aqueles hipnotizantes tentáculos que nos puxam de volta sempre que nos afastamos do jogo por um bocado.

Por estranho que possa parecer, não são os pormenores repetidos ad nauseam sobre as animações, o lip-syncing ou os movimentos ridículos que me afastam do jogo. São só isso, pormenores que têm influência no usufruto do jogo, mas que não o definem. Problemas que advêm da dimensão do jogo e da gigantesca tarefa que é criar, animar e sincronizar todo um gigantesco mundo aberto e que se pretende sem guiões definidos.

O problema está mesmo na estratificação das Quests. Em Witcher 3 a acção decorre de uma forma quase orgânica. As quests sucedem-se mas são, de certa forma, enquadradas pela personagem que encarnamos. Afinal, é essa a nossa profissão. E somos pagos para resolver determinados problemas. Se a nossa especialidade é lidar com monstros e limpar áreas perigosas, somos abordados para fazer precisamente isso. E faz sentido. Em Mass Effect somos um Pathfinder… um “encontrador de caminhos”, vá. Alguém com a suprema responsabilidade de encontrar um planeta habitável para uma horda de migrantes que fizeram uma viagem a uma escala inimaginável até à altura… E andam a pedir-nos para, se faz favor, já que andamos “por aí”, falar com o Tadeu por causa de uns copos que ele prometeu, ou convencer a Jacinta a voltar para casa. Seriously? Amigos, não é que eu esteja de peito inchado a fazer-me importante, mas a minha primeira responsabilidade deveria ir para com as pessoas congeladas e desesperadas à espera de encontrar uma casa, não para resolver o problema da Cláudia que perdeu um telescópio. Ai o teu irmão faleceu no meio de um monte e achas que era bonito depositar um colar na sua campa? Vou dar-te uma sugestão: larga o comando da televisão, deixa as Tardes da Júlia, tira o cu do sofá e vai lá tu homenagear o teu irmão, porque ir lá eu tratar disso enquanto tu fazes olhinhos de peixe mal morto àquela… coisa que parece um peixe mal morto da galáxia Andrómeda é tão vazio de sentido como são vazios os mapas de Mass Effect.

Mas isto são limitações que a própria concepção da personagem nos impõe, acentuadas por alguma infantilidade e linearidade na forma como as coisas nos são apresentadas. Em Witcher 3, cada nova Quest, cada nova personagem trazia algo incerto. Podia ser uma coisa pequena, podia ser a ponta inicial de um longo desenrolar de um novelo de Quests com histórias subjacentes. Em Mass Effect, a coisa é dividida em Tupperwares devidamente rotulados e acondicionados. “Para o coiso ser meu amiguinho, tenho que fazer as suas missões de amizade”. E isto não é explorar um mundo. Isto não é deixar o jogador investigar, descobrir e readaptar os seus desejos e projecções àquilo que o jogo lhe proporciona… isto é ter um conjunto bem definido de trilhos de migalhas de pão e forçar o jogador a segui-los. Ainda não me senti, verdadeiramente, um explorador, embora o jogo me vá sobrecarregando com camadas e camadas de t-shirts a dizer que sou uma espécie de novo Messias. E quanto a isso de não nos sentirmos um explorador… Bem, na verdade, o que se sente é que há todo um vazio nos ambientes a explorar. Não é preciso que o jogo transpire um No Man’s Sky em que toda a planta e insecto deva ser catalogado mas, apesar de haver vida, a generalidade dos planetas são virtualmente desprovidos de interesse à excepção dos inimigos em causa e dos Vaults. Não há, portanto, o estímulo à exploração, nem esta se torna, de forma alguma, gratificante.

Mass Effet: Andromeda cai assim numa espécie de marasmo em que as decisões se resumem a qual a próxima quest inócua que procuraremos abordar. E, se em Witcher 3 deambular pelo mapa apresentava algum risco envolvido – porque nunca se sabia bem que tipo ou que nível de inimigos iríamos enfrentar – em Mass Effect os random encounters são bastante insípidos. Toma lá um punhado de inimigos. Despacha-os daquela forma que tu sabes. A dada altura, a coisa aproxima-se de um rythm game e cada confronto não passa de uma sequência de teclas. Charge, Pulse Nova, click, click, Shockwave. Charge, click, click. Não é desafiante, não obriga a lutar. Não força readaptações… Perdi a conta às vezes em que, em Witcher 3, me vi forçado a recuar ou a fugir de uma matilha de lobos, de um grupo de piratas ou de um ninho de aranhas. O mundo de Witcher é vivo e nunca sabemos o que encontraremos 200 metros adiante. Mass Effect falha redondamente nesse capítulo. Tudo se torna previsível, expectável. E todos os confrontos são exercícios de sincronismo. Rinse and repeat. Rinse and repeat.

E vou dizê-lo de novo: Mass Effect Andromeda não é um mau jogo. Continua a ser um Mass Effect. Mas, em 2017 e com o historial que o universo Mass Effect detém, seria de esperar algo mais. Seria de esperar uma evolução, mesmo sem apresentar um jogo arrebatador, seria de esperar algo que fosse melhor que a trilogia anterior. Ou que estivesse, pelo menos, ao mesmo nível. Bem, não está. Na altura, agarrei-me a Mass Effect 1. Mais tarde, fui relegando esse para o fundo da tabela. Considero o 3 melhor que o 1 e o 2 o melhor da série. E não consigo encaixar Andromeda noutro lugar que não o último. E não é pelas animações, pelos olhos mortiços, pelo lip-syncing péssimo. Nada disso, porque outros jogos, de outros tempos, tinham isso bem pior e mantinham-me agarrado a eles como uma carraça agarrada a um cão. O que não funciona é a vacuidade das personagens, a linearidade da estrutura de missões e de relações e a tremenda previsibilidade e insipiência de tudo. Custa dizê-lo, como custou assumi-lo, ou não fosse eu um fã da série. Mas este não é o jogo que eu esperava. Não é uma evolução. É uma pastilha elástica previamente mastigada que nos é oferecida num invólucro bonito e arranjado. Mass Effect é o que acontece na cozinha quando há bons ingredientes e boas receitas mas o cozinheiro é, na verdade, um polícia de trânsito. As coisas estão lá e há uma ordem nelas. Come-se. Mas está longe de ser um grande prato.

[Todas as imagens aqui presentes, bem como todos os testes realizados com Mass Effect: Andromeda  foram realizados na máquina fornecida pela Alientech, a ALIENTECH RUBBERCHICKEN, cujos specs podem verificar aqui.]