Caçada semanal #102

Admito desde já que percebo muito pouco de fungos, e nem a onicomicose que ganhei depois de uma cirurgia para remover uma unha encravada, nem as centenas de horas de contacto com o Mario me tornaram especialista nesse ramo da biologia.

No entanto é impossível de tapar os olhos às evidências: todos os géneros estão saturados de videojogos, mas a (putativa) facilidade de desenvolvimento de roguelikes e RPGs retro parece polvilhar o mercado como uma verdadeira infestação fúngica.

É sobre isso que vamos falar esta semana: sobre retro RPGs e roguelikes do Steam e tentar perceber se algum deles se destaca ou se são tão semelhantes como cogumelos de lata. Daqueles da Ferbar por exemplo.

Hate Free Heroes RPG

O maior contribuidor para retro RPGs à la SNES que existem no mercado é o RPG Maker, e acredito que com a massificação da aplicação com a sua presença em muitos bundles por tuta e meia que num futuro muito próximo esse número aumentará ainda mais.

Entre as centenas de jogos feitos com este motor tão “caseiro”, a dificuldade de distinção é ainda maior quando quase todos os jogos parecem seguir uma lógica excessivamente colada visualmente ao que de melhor a SNES recebeu, e em especial os tempos e catálogo da Squaresoft.

Hate Free Heroes RPG fá-lo duplamente, primeiro por trazer o setting para um mundo de fantasia contemporâneo, abandonando os chavões do ambiente medieval herdado de Final Fantasy e trocando-o por uma experiência metafísica nos dias de hoje.

Num mundo em que umas criaturas intituladas Aggromites estimulam os níveis de agressividade dos humanos comuns em planos de consciência oníricos, e onde se torna a nossa missão conseguir libertar a população do jugo destas entidades, não só através do combate mas através de opções pacíficas e o diálogo.

Só é pena que uma premissa boa e bastante diferente esteja escondida com aquilo que à primeira vista é o mais genérico dos retro JRPGs.

Next Up Hero

A primeira grande certeza que Next Up Hero tem é que vamos morrer. E a saber isso decide incorporar essa constante omnipresente nos videojogos (e na própria vida real) e transformá-la na base de todo o jogo.

Numa mistura de RPG e twin stick shooter, Next Up Hero é um jogo que necessita de cooperação mesmo de quem nunca iremos conhecer. Ou seja, cada jogador pode criar uma instância de um nível onde o único objectivo e fazer um cruzamento entre dungeon crawling e uma limpeza de monstros, onde podemos trazer os despojos de guerra encontrados quando finalizamos o nível.

O pior, como dissemos logo no início, é que a morte é muito frequente, o que significa que essa instância fica a funcionar durante um período limite com o nosso cadáver lá estendido, à espera que algum jogador se aventure no mundo particular que criámos, que nos ajude a terminá-lo e ao mesmo tempo que nos ressuscite.

O multiplayer assíncrono de Next Up Hero é uma experiência curiosa, ainda que este método de ir entrando em instâncias (nossas ou de outros jogadores) sucessivas e avançando o mais possível possa tornar-se algo limitado, fica aqui uma excelente experiência para jogos que no futuro possam incorporar este mindset de colaboração online.

Tangledeep

Tangledeep é outro exemplo curioso. À superfície, tal como Hate Free Heroes é um retro RPG 16 bits ao estilo da SNES, mas neste caso em constante turn-base no seu dungeon crawling.

Com geração procedimental de dungeons, Tangledeep traz-nos a jogabilidade de um dos nossos indies favoritos do ano, Loot Rascals, no qual o aparente tempo real é uma forma de mascarar que cada turno de todos os elementos em jogo, sejamos nós, os inimigos ou as armadilhas, ocorrem em simultâneo, o que significa que se nos mantivermos parados, podemos tentar estudar ou medir os nosso próximos movimentos.

Um roguelike interessante com banda-sonora ao cargo de veteranos da indústria como Andrew Aversa, Hiroki Kikuta, e Grant Kirkhope, e que foi lançado recentemente em Early Access com o objectivo de agradar ao máximo número de público apaixonado pelo género.

São 9 difíceis níveis que temos de percorrer, caminhando desde o subterrâneo numa busca pela superfície, com alguma simpatia dos developers que nos permitem explorar o jogo de forma opcional sem permadeath e podendo ao mesmo tempo partilhar o nosso avanço pelos diversos personagens que criemos dentro das 9 classes disponíveis.

Tangledeep possui uma das melhores e mais cuidadas direcções artísticas que podemos encontrar dentro do saco de jogos que emulam a experiência visual dos JRPGs da SNES.