Tenho as vacinas em dia. Uma delas, de agulha romba e fora do plano nacional de vacinação, previne a permeabilidade a hypes e modinhas. Mas este foi um caso especial. Fight of Gods foi o jogo que levou um país a banir toda a plataforma Steam. Ora uma coisa que mexe com a multimilionária e quase omnipotente (pun intended) Valve é, certamente, digna de registo, daí que a curiosidade já existisse.

Assim, Fight of Gods chegou-me às mãos, por obra e graça do Espírito Santo, que não o Banco, uma vez que aos responsáveis desse, nem os Deuses lhes tocam. E que dizer de Fight of Gods? Há opiniões díspares a bailar na minha mente. Por um lado, a ideia enraizada, firme e hirta de que nem com todo o panteão de deuses juntos se conseguiria o milagre de considerar este jogo minimamente aceitável. Por outro, um punho levantado, de respeito, pelo que ele representa. Por outro, ainda, um misto de admiração/desprezo pela cobarde coragem, ou coragem cobardolas, de incluir no seu menu certas deidades, ignorando ou temendo ostensivamente tocar ou sequer sugerir outras.

Façamos portanto o milagre da extrapolação para expurgar daqui todos os dinossauros e passar para o jogo seguinte.

300 fps a 4K

O jogo é mau. Não, não é mauzinho. Não é só porque não me agrada, ou não é o meu género. É mau. É péssimo. Se este jogo fosse Adão, Deus teria pegado numa costela disto, grelhado a dita na brasa e dado a mesma aos cães, a ver se a raça terminava logo ali. O grafismo a roçar a mediania de um longínquo ano de 1996 é só o mote para uma desinspiração total que nem as mais fervorosas rezas conseguem disfarçar. A jogabilidade está uns furos abaixo do que se fazia, há tantos anos atrás, para um Commodore Amiga.

O jogo vale, única e exclusivamente, pela selecção de personagens, marcadamente provocantes, puerilmente desafiantes. Assim, de queixo erguido e lábio contraído. Toma lá! É ver Jesus, Moisés, Odin, Zeus e outros à chapada usando dos poderes que as nossas crenças lhes atribuem. Uns mais conhecidos, outros menos, na nossa cultura. Uns deuses de pleno direito, outros, como Moisés, ali em jeito de arrumador a dizer “Pode meter aqui o carro, se faz favor. Dê-me uma pedrinha com coisas escritas!”. A selecção de personagens é onde reside o seu apelo (embora até aí haja máculas), mas, fossem isto umas lustrosas peças de fruta, a ideia é a de estarmos perante um belo arranjo de fruta de plástico. Nada se come. Nada ali é bom. Os movimentos são pouco fluidos, a detecção de colisões ou de socos bem dados está longe de perfeita e a pergunta que mais vezes me coloquei ao jogá-lo é “quando é que isto acaba?”. E isso diz muito da experiência do jogo.

Chamo a isto um soco-cruz. Em que me ponho assim de perfil e estico os braços enquanto tu, impávido e sereno, apanhas o meu punho invisível na tua face.

Para piorar, dá a ideia de uma suposta rebeldia. Imagino uns adolescentes a mascar ostensivamente pastilha elástica de canela (não há milagre que a erradique de vez) e a dizer que era fixe era ter Jesus a mandar uns tabefes no Buda. Mas, nisto de brincar com as religiões, aparentemente ter-se-ão esquecido de brincar com a Muçulmana, não vá o Diabo tecê-las (ele que até poderia figurar aqui como personagem), só uma das maiores religiões do mundo. O que denota talvez uma falsa coragem. “Oh sim, vamos brincar com os cristãos, com as divindades nórdicas e gregas, mas nesses aí não convém tocar por causa de razões”. Soa falso. Soa a irreverência bacoca. Soa a gozar com alguns porque tudo pode ser alvo de humor, e a ignorar outros porque nem com tudo se pode gozar. E é essa a gota de água que faz transbordar o copo de um jogo que nem de borla eu aconselharia a alguém mas que, com tanto apoio divino, conseguiu vender mais de 25 mil cópias, a fiar-nos nos números do Steamspy. E porque é que esta péssima desculpa para videojogo vendeu mais, a 7,99€ do que muitos jogos incomparavelmente melhores que isto e a preços mais baratos?

Podemos apenas conjecturar e, quem sabe, escrever um texto sagrado. Há aqui laivos divinos de The Room, um filme tão mau que poderia perfeitamente estar incluído numa das 7 pragas com que Deus, Allah ou Yawhew brindou a humanidade há uns milhares de anos atrás. Tudo no filme é mau. Os diálogos, os actores, as luzes, tudo. Tudinho é mau. E, no entanto, The Room cavou para si um lugar seguro na história do cinema, com determinado grupo de pessoas a terem o filme como objecto de culto.

A questão é que Fight of Gods anda por aí. É péssimo. Basta olhar para um deformado Zeus ou uma bamboleante Sif para perceber que a direcção artística daquilo deve ter estado a cargo de alguém incapaz de distinguir um cu de um camião. E, sendo péssimo, pode, numa injusta manifestação de mau gosto, quando há tanto bom indie developer a contar tostões e a fechar portas, granjear alguns seguidores. Mas a principal razão, essa, é boa. Genuinamente boa. E aqui sim, tiro o meu chapéu. Não ao jogo, mas à comunidade de jogadores.

Devido ao seu teor religioso, Fight of Gods foi, como disse, muito mal recebido em alguns países. Isso levou esses países a bloquear todo o Steam da Internet. Ora, a a comunidade de jogadores decidiu manifestar-se contra a censura, contra a limitação à liberdade de navegação. E isso é coisa de que poucos jogos conseguem orgulhar-se. Não será intencional. Mas é uma medalha que ninguém tira a este abjecto Fight of Gods. São inúmeras as compras e os comentários positivos na Steam. Recomendações positivas como “pior jogo que alguma vez joguei, 10/10” resumem em poucas palavras a posição de toda uma comunidade face à liberdade. Como reza a citação, erradamente atribuída a Voltaire, “Je ne suis pas d’accord avec ce que vous dites, mais je me battrai jusqu’à la mort pour que vous ayez le droit de le dire”.

Olá, sou o Zeus. Os meus pés são maiores do que um Fiat Punto, mas as minhas mãos, essas, são bem maiores que um Toyota Avensis.

Irónico que uma comunidade que se una sob este tema esteja tão marcadamente dividida em relação a Maomé constar no jogo. Uns acham bem porque nunca se sabe que retaliações isso poderia trazer. Outros acham que deixá-lo de fora é tão ou mais insultuoso que lá estar. Outros ainda entendem que deveria lá estar, por inúmeras razões. As discussões são muitas e as opiniões são mais ainda.

De qualquer forma, se um assomo de solidariedade para com o princípio de liberdade de expressão vos levar a tal, comprem-no. Apoiem-no. Mas, por amor de todos os deuses e mais alguns, escusem-se a jogá-lo. Palavra do Senhor.