Acabei de editar o artigo do João sobre Forza Motorsport 7 para o Observador e só conseguia pensar: “parece que nesta avaliação estamos a falar do mesmo jogo”. Com uma diferença tremenda nos nossos dois casos: ainda que eu afirmemos que conseguimos avaliar com a mesma isenção qualquer género, admito que simuladores de automóveis, por muito bem-executados que sejam (como é o caso de Project CARS 2, e, segundo a opinião que eu tanto respeito como a do João, Forza Motorsport 7), não são um género que eu vá seguir.

A outra surpresa que podemos sentir é a quantidade de high profile racing games, sejam eles simuladores ou como um feel mais arcada, que vão sair nos próximos meses, a provar que se o género passou momentos de menor carinho por parte do mercado, media e jogadores, as potencialidades técnicas actuais parecem ter dado um segundo fôlego aos “jogos de carros”, cujos motores roncam hoje com maior presença.

Project CARS 2 não é certamente para todos, como referi. O seu nível de precisão e atenção ao detalhe colocam-no bem distante da abordagem “entrar e jogar” de jogos (e jogadores) mais próximos das arcadas.

Ainda há dias, em referência a um pequeno celeuma em torno da inabilidade de um jornalista de videojogos internacional em jogar Cuphead, discutia-se nas redes sociais se a qualidade de um crítico a jogar determinado jogo se o tornaria inapto a avaliá-lo. Obviamente que discordo da afirmação. Uma crítica honesta, isenta e de qualidade é indistinguível da habilidade do crítico para o jogar. A minha grande dificuldade em controlar os carros em Project CARS 2 de forma alguma toldou a consciência de que o resultado atingido pelos developers dos Slightly Mad Studios é verdadeiramente soberbo.

Há uma notória barreira de entrada em Project CARS 2, assumida a priori pelo próprio sub-género, mas evidentemente difícil neste caso. Não digo apenas pela quase extrema necessidade de possuir um volante para o jogar (coisa que não tenho) e o quão difícil é controlar os carros ora com o teclado ora com o meu fiel comando de Xbox 360, mas também porque há diversas camadas de profundo detalhe que não são apreensíveis aos primeiros contactos.

Há uma profundidade tremenda em termos de afinações aos veículos e à própria condução que o define como um extremo caso de simulador de condução levado a sério. É um nível de atenção ao detalhe que os puristas da condução e do automobilismo encontrarão como uma deliciosa prenda de Natal fora de tempo, e que demonstra a entrega e a paixão da equipa que o desenvolveu.

Visualmente o jogo é surpreendente, mas depois de ter jogado este ano as antevisões de GT Sport fico com dificuldade em definir Project CARS 2 como o vencedor desta inócua comparação feita por mim. As modelações dos veículos são boas, com boas simulações de acidentes e de colisões, com uma interessante simulação de danos causados aos carros (que necessitam de intervenção mecânica para serem reparados), mas parecem-me estar num patamar do novo jogo de Kazunori Yamauchi e mesmo do acima citado Forza.

Mas o ponto alto de Project CARS 2 é a sua simulação de clima, tanto em termos visuais como mecânicos. Os efeitos visuais das diferenças de clima vão muito além da mera decoração, reproduzindo um dos mais fidedignos efeitos atmosféricos em qualquer jogo do género. Com a alternância de climas na mesma corrida (elemento que se começa a tornar o standard dos jogos de simulação) a nossa necessidade de nos adaptarmos ao piso e às condições climatéricas, passando até pela preparação de afinação do carro, e que tornam o acto de correr num dinamismo surpreendente, mas nada casual-friendly.

Percebe-se que a criação de Project CARS 2 é um objecto de paixão, assim como jogá-lo também o é. Por vezes é mais difícil avaliarmos aquilo que nos é próximo do que reconhecer a boa execução de algo que não tem um discurso que nos é próximo. Este é um desses casos. A minha dificuldade em conseguir mergulhar dentro de todos os ínfimos pormenores de Project CARS 2 são trazidos da minha vida (real) para dentro do jogo e do meu desconhecimento com carros, mas não impedem de reconhecer tudo de bom que o jogo faz. Assim como, ultrapassados os despistes e a minha óbvia inépcia num simulador automóvel, identificar as falhas que o jogo demonstra, nomeadamente o quão absurdamente é o comportamento dos carros controlados pela IA, que mesmo, que passei grande parte da minha vida atrás do volante nas ruas dos Olivais, Chelas, Odivelas e Loures, continuo a ficar surpreendido.

Project CARS 2 é um bom jogo e certamente tem um público apaixonado pela simulação que conseguirá usufruir ao máximo de todos os muitos detalhes que por aqui existem, mas depois de ler o artigo do João sobre Forza Motorsport 7 sou inconscientemente compelido a imaginar a diferença de experiências entre os 2, e à falta da possibilidade de comparar ambos (para já), resta-me uma viagem a casa dele para perceber se a minha inépcia em driving sims é melhor ou pior num ou outro jogo.