O mundo dos eSports tem muita coisa de peculiar. Há jogos talhados para o sucesso que são autênticos flops, há jogos por quem ninguém dá um chavelho amassado que se revelam sucessos esmagadores. Há competições históricas que se afundam, novas competições a brilhar e a conquistar um espaço muito seu no panorama internacional. Há jogadores lendários que desvanecem aos poucos e há rookies que brilham e atingem o estrelato com uma aparente facilidade desarmante.

2017 já nos trouxe mais de 3000 torneios, distribuindo, até à data, 99 milhões de dólares pelos seus participantes. Mais de metade, 63 milhões, fica a cargo dos três gigantes no mundo dos eSports: Dota 2 com 36 milhões, Counter-Strike: Global Offensive com 16 milhões e League of Legends com 11 milhões. Em todo caso, 2017 não atingirá o número de eventos de 2016. E 2016 não atingira o número de eventos de 2015. Embora o valor envolvido tenha vindo a aumentar gradualmente, o número de eventos tem vindo a diminuir. Claro que isso significa também que muitos dos pequenos torneios vão desaparecendo, dando lugar a investimentos mais conglomerados em eventos maiores, para um público maior.

Torna-se, então, difícil criar um novo evento e ter sucesso, num mundo competitivo, com datas apertadas em termos de eventos grandes para o público. Assim é, muito vincadamente, no Dota 2, com os 11 minors e 11 majors a decorrerem no espaço de um ano a deixarem pouca margem de manobra para eventos que agarrem as principais equipas e, assim, consigam justificar investimentos com público.

Mas eis que a amálgama de talento de casters, analistas e comentadores de Dota 2 em jeito de estúdio informal de nome Moonduck (cujo logótipo é, como não poderia deixar de ser, um… hipopótamo em cima do planeta Terra) decide pisar terrenos nunca dantes navegados. Inspirados no sucesso de Captain’s Draft, um torneio com um formato a sair do convencional Captain’s Mode, usado nos torneios oficiais, ou no seu evento Elimination Mode, em que os heróis banidos ou utilizados num jogo não poderiam ser utilizados nos subsequentes jogos dessa série, os Moonduck decidiram criar um evento que fizesse as grandes equipas profissionais sair cada vez mais da sua zona de conforto, jogando com e contra heróis que, de outra forma, não utilizariam normalmente num ambiente competitivo (o que nem sequer é particularmente fácil no Dota 2, uma vez que no The International 2017, o maior evento do ano, apenas 4 dos 120 heróis não foram utilizados).

Em entrevista à Forbes, Jake “SirActionSlacks” Kanner e Alan “Nahaz” Bester, dois dos criadores do Midas Mode (vale a pena ler as regras!), contam que a ideia era criar um ecossistema próprio que forçasse os jogadores a improvisarem e a adaptarem as suas estratégias a uma corrida de fundo. A economia subjacente foi criada por Alan – economista de profissão – e anda em torno de custos. Cada equipa começa com determinado valor em dinheiro (Moonbucks!) e tudo, absolutamente tudo no jogo custa dinheiro. Banir um herói custa dinheiro, pedir uma pausa custa dinheiro, escolher o lado custa dinheiro, escolher um herói custa dinheiro… e aqui a porca torce o rabo, porque, com base nas utilizações recentes, foi criada uma “bolsa de valores” para os heróis. Ora um herói muito requisitado pode custar 500 Moonbucks, e, no outro extremo, heróis votados ao esquecimento podem ser escolhidos por valores abaixo dos 100 Moonbucks. Ou seja, em última análise, a equipa A pode ter todo um draft feito com o custo de apenas uma escolha da equipa B. Essa aposta, esse investimento num draft precisa, depois, de ter retorno no terreno de jogo. Perder um jogo em que se investe fortemente no draft pode ser o fim da macacada.

Mas há mais. Para procurar envolver mais o público e criar conteúdo mais interessante, há um conjunto de Tarefas que as equipas podem executar que são premiadas com Moonbucks. Coisas como escolher um draft pré-definido, deixar a equipa adversária escolher o herói que será a primeira escolha da nossa equipa (votando-o ao mais ridículo counter-pick de sempre), oferecer itens à equipa adversária durante um jogo, jogar às escondidas com um herói em contra-relógio, deixar o Roshan para a outra equipa terminar, começar o jogo com determinados items, etc. A lista dos nove dias de bounties pode ser consultada aqui e é absolutamente hilariante e a coisa piora ainda mais porque parte dessas bounties inclui um derradeiro e brilhante estímulo ao flame. Alguns bounties exigem que o jogador provoque o adversário com determinadas frases como “get out of my game!” depois de se matar o mesmo adversário 3 vezes antes dos 6 minutos. A melhor parte? Os jogadores aderiram em peso! E não eram jogadores quaisquer… Aos Immortals, VGL, Optic Gaming e MidOrFeed juntaram-se os vencedores de TI como os Evil Geniuses, Team Liquid ou Na’Vi, além dos reis dos Majors, team OG.

O resultado foram dias de um torneio que arrebatou completamente os seguidores. Note-se que se trata de um torneio de “apenas” 60.000 dólares em prémios num jogo em que o The International atingiu os 24 milhões. E, mais interessante ainda, os prémios eram para reverter para instituições de caridade! Assim, com jogos – e apresentação – ao jeito dos Monty Python, a verdade é que conseguiram captar mais de 4 milhões de visualizações para os 42 jogos de um torneio em “época baixa”, com um formato absurdo mas que se revelou extremamente cativante, para jogadores e público, e que vêm mostrar que continua a ser possível inovar em termos de formatos de eventos de eSports e ter, com isso, sucesso!