Cada ano que passa há uma série de certezas que temos. A entrega anual do IRS, o lançamento de mais um FIFA, as cheias quando a chuva cai “de surpresa” e a chegada ao mercado de pelo menos mais de 2 jogos da LEGO. Este ano já fomos agraciados com Lego Ninjago, a adaptação do filme e que constituiu muitas mudanças na fórmula habitual dos jogos desenvolvidos pela TT Games para a Warner Bros./LEGO, e com o fechar do pano de 2017 chega ao mercado LEGO Marvel Super Heroes 2.

Depois de todos os progressos que LEGO Ninjago the Video Game fez, tanto em sistema de combate como na forma de coleccionar as dezenas de personagens disponíveis, esta sequela do Marvel Super Heroes tem-me um sabor agridoce, entre as tantas coisas que adorei e aquelas que já começam a revelar algum cansaço.

O primeiro ponto que urge esclarecer para algum do público que desconheça o facto, é que muitas das ausências nesta sequela têm uma explicação comercial e corporativa. É sabido que num período muito negro da Marvel (anterior à aquisição feita pela Disney) a histórica editora de banda-desenhada teve de vender os direitos cinematográficos dos seus grandes títulos, e foi dessa forma que Spider-Man, X-Men (e tudo o que está relacionado com mutantes), Fantastic Four e Hulk foram parar às mãos de companhias terceiras.

Ora, todos percebemos a aposta que a Disney/Marvel tem no Marvel Cinematic Universe, e o quão rentáveis estes filmes de super-heróis têm sido, o que significa que as baterias apontadas limitam-se quase exclusivamente aos heróis cuja propriedade inter-media a Marvel ainda tem.

O resultado disto sentiu-se inclusivamente dentro das bandas-desenhadas. Se alguém dissesse há 10 anos que a Marvel não teria uma série regular de Fantastic Four apenas porque não quer o devido destaque a personagens que não conseguem rentabilizar em cinema, ninguém acreditaria. A Era Prateada surgiu, precisamente, com esse quarteto, e é inimaginável que eles sejam quase inexistentes da banda-desenhada actual. Esta intromissão do universo cinemático estendeu-se de tal forma que é a própria BD a vergar-se perante si, e obviamente que a adaptação de um videojogo da LEGO não passaria impune.

Wolverine, Magneto, Storm, Cyclops, Mister Fantastic, Human Torch, nem cheirá-los. E quem fala deles fala também de todo o tremendo panteão de personagens que nos deleitou durante décadas. E todos eles foram vítimas da orientação da 7a Arte que a 9a tem sofrido.

Como tudo o que se relaciona com Marvel, este LEGO Marvel Super Heroes 2 é quase refém dos filmes e séries e do seu sucesso. Ainda que não existam protagonistas claros, e esse papel esteja bem espalhado pelas dezenas de personagens “principais”, o grande foco gira em torno de títulos tão famosos como os novos Guardians of the Galaxy ou mesmo os Inhumans (essas geniais criações que eram virtualmente desconhecidas do grande público até a Marvel usá-los como sucedâneos dos mutante e transportá-los para a ribalta com a malograda série de TV).

Há muitos pontos positivos neste novo jogo, que, apesar da fórmula repetida (e isto dito pela experiência cá em casa em que eu e o meu filho praticamente já fizemos completionist a todos os jogos da LEGO).

O primeiro é a gigantesca abertura do mundo, cumprindo com o enredo da unificação dos multiversos levados a cabo por Kang. Os diversos períodos históricos e universos paralelos estão todos interligados numa cidade só, Chronopolis, e funcionam quase como “bairros” onde podemos andar sem qualquer separação ou loading.

O outro ponto excelente é a dedicação a diversificar as animações e atitudes das quase 2 centenas de personagens. Longe está o tempo em que cada figura de LEGO só diversificava de outro pelas habilidades intrínsecas e pela “skin” que o boneco possuía. Neste Marvel Super Heroes 2 cada heróis tem animações de ataque e movimento distintas de outros, e isso torna a atenção ao detalhe verdadeiramente surpreendente.

Apesar destes passos em frente, este jogo acabou por dar passos atrás. A fórmula continua a ser repetida, ainda que, como disse, Lego Ninjago tenha conseguido “reinventar” o combate para um jogo LEGO. Neste Heroes 2 o combate e as boss fights são o usual button mashing aborrecido e pouco desafio trazem para nos manter agarrados.

O enredo é engraçado, mas excessivamente longo e quase sempre como uma mera desculpa para ir a universos diferentes e introduzir novos personagens. Esta foi das primeiras vezes em que ansiava que as missões de história terminassem o mais cedo possível para poder ir explorar e desbloquear à vontade. O interesse na narrativa era perto do zero, e até o humor começou a ser demasiado insípido para esboçar sequer um sorriso.

Mas talvez o pior problema desta sequela surja do ponto de vista visual. Se o detalhe é cada vez maior, parece que o pseudo-realismo dos cenários começa a retirar parte do brilho de LEGO do level design, tornando o jogo mais ameno e menos vibrante. A piorar surge um IU design que tenta ir buscar elementos aos comics e às tramas de impressão, mas que acaba por resultar como ruído adicional a todo o ruído visual que esta aproximação ao real constitui.

Tirando isso são largas dezenas de horas de conteúdo para explorar, com possivelmente o maior leque de personagens disponíveis de sempre num jogo da LEGO. Diria que está alguns furos abaixo de outros jogos da “série” e notoriamente inferior ao equilíbrio e vibrância que Ninjago constituiu. Mas é um jogo da LEGO, e tem um público-alvo específico familiar no qual eu e o meu filho nos incluímos, ao qual adicionamos o crescente público afecto à Marvel. E com todas as falhas que apresenta continua a ser tudo aquilo que queremos de um jogo da LEGO.