Na ausência de uma experiência de jogo capaz de acompanhar o frenesim de lançamentos, venho aqui mais uma vez assumir o meu compromisso de escrita através de um TOP. Não vai haver narração e vídeo para acompanhar, mas, se fizerem um esforço, vão ver que isto é mesmo um TOP com classificação e tudo… Fixe?

Os meus artigos mais recentes têm sido reviews de adaptações de jogos e todas elas tem sido negativas. Todas com um traço comum sobre o qual já dissertei nessas mesmas análises: Fazer uma adaptação de um jogo inspirado num filme para filme é redundante. O Melhor Resident Evil? Todos os clássicos do Romero. O melhor Uncharted? A trilogia Indiana Jones

Bom, mas então é impossível adaptar um jogo para filmes e ser bem-sucedido? Nada disso, amigos, nada disso. O que acontece é que jogos com premissas verdadeiramente originais e com uma componente narrativa atrativa são raros. Felizmente, cambada de sortudos, o expulsar de fluidos corporais é suficientemente dissociado do processo cognitivo para me deixar com um tempinho livre para pensar nestas coisas. Aqui vão 10 jogos que davam bons filmes. Acho. Para mais ainda coloco um realizador que jamais aceitaria adaptar um jogo mas que acho ideal para o filme.

Red Faction 

Realizador: Bong Joon Ho

Um jogo que desapareceu da memória coletiva após o diluvio de FPS cinzentões da década de 2000. Red Faction tem a palavra vermelho no título não só pela expectável dose de hemoglobina, mas porque o que temos neste jogo é uma verdadeira revolução popular distópica em Marte. Um conjunto de mineiros explorados por uma grande corporação e a promessa de uma vingança social épica com muitas explosões à mistura.

Um Die Hard para projetar nos acampamentos de juventude politizada e sacar um “até gostei” à malta que não consegue conciliar Chomsky e pipocas. Para isso escolhi, claro, um realizador coreano, dos poucos que assumem mensagens complexas com ação incomplexa.

Probabilidade de acontecer: Quase impossível. O Canal Syfy adaptou o jogo num telefilme de qualidade… e isso terá certamente arrefecido qualquer entusiasmo por uma versão cinema.

WipeOut 

Realizador: Edgar Wright

Numa altura em que a série Fast & Furious acumula milhões a cada iteração é estranho verificar-se o que é, praticamente, um caso isolado: há poucos filmes de corrida. WipeOut foi outrora a janela tecnológica do seu tempo com um cunho visual particular e uma banda sonora com as melhores sonoridades eletrónicas da altura.

Para além de sabermos que relata as ultra-velozes corridas da liga de corrida anti-gravidade CF3600 do ano de 2052, não sabemos praticamente nada sobre o resto da história. No caso de F-0, por exemplo, sabemos quem são os excêntricos protagonistas. Parece-me mais seguro deixar o realizador preencher a história sem ter que respeitar uma longa lista de exigências tão nostálgicas como insensatas sobre o jogo de origem.

Edgar Wright sabe aproveitar conceitos fortes, transmitindo carisma e ação “over the top”. Se os Daft Punk ainda não estiverem completamente desapontados com o flop do Tron Legacy, seriam uma adição de peso para a banda sonora.

Probabilidade de acontecer: Nula. É um não tema até agora.

Legacy of Kain 

Realizador: Guillermo del Toro

O IP adormecido da Crystal Dynamics foi outrora uma das mascotes da galáxia ação plataforma. O lado negro da propriedade talvez seja demasiado 1990s para uma década onde tudo é pautado pela comédia. Não obstante, todas as tendências nascem de uma obra que se atreve a ser diferente e com um bom realizador no leme talvez possamos criar a faísca necessária.

Neste caso estou a pensar num dos mestres da zoologia gótica: Guillermo del Toro. Legacy of Kain, se nos focarmos no arco narrativo de Raziel, o vampiro caído em desgraça, poderia colmatar os danos causados pela saga Underworld e a sexualização teen do registo vampírico. Dark fantasy sem complexos, muita ação e drama shakespeariano, Legacy of Kain poderia contribuir positivamente a um registo mal-amado.

Probabilidade de acontecer: Talvez. Se a Crystal Dynamics voltar a pegar na franquia, o que é na ordem do possível, o filme poderá ter hipóteses de acontecer mediante o sucesso necessário.

Mass Effect

Realizador: Duncan Jones

Ao escolher World of Warcraft, Duncan Jones apostou no cavalo errado. Num mundo onde heroic fantasy tem tanta literatura e filmografia de qualidade, as fragilidades narrativas do jogo só iriam confirmar que o aluno está longe de ultrapassar os mestres. A Saga Mass Effect é, a meu ver, do melhor sci-fi espacial produzido nas ultimas décadas, independentemente do formato. Depois do fracasso de Valérian, parece-me evidente que Hollywood tem um problema com épicos no espaço que não estejam ligados a Star Wars e Star Trek.

Mass Effect em nada se assemelha a qualquer propriedade existente no Cinema neste momento. Utiliza a diversidade de espécies do universo para proporcionar não só grande espetáculo visual, mas também para abordar temáticas complexas. O jogador é muitas vezes confrontado com situações onde não existem soluções perfeitas. Retirar o maniqueísmo tradicional dos épicos com estrelas em pano de fundo seria um grande avanço para Hollywood. Duncan Jones é, nesse sentido, perfeitamente adaptado pois já deu prova do seu domínio no registo.

Probabilidades de acontecer: Altamente provável. Já se fala nisso desde 2008 e vários realizadores tiveram associados ao projeto. No entanto o detentor dos direitos de adaptação mudou-se da Warner para a Universal o que deixou o projeto em suspenso. O Fracasso de Andromeda não facilita mas penso que teremos novidades mais tarde ou mais cedo.

Bioshock

Realizador: Christopher Nolan

O Filho de Atlas-Shrugged e Júlio Verne estariam muito bem entregues nas mãos do mestre do “Hans Zumbido”. Nolan sabe criar grandes espetáculos visuais onde o pathos e conformismo liberal americano combinam-se num pseudo intelectualismo particularmente agradável.

As vantagens de Bioshock são evidentes. O Steampunk é um registo órfão de uma representação cinematográfica contemporânea digna… Lembram-se de Wild Wild West? Eu também não. O Universo de Bioshock é tão singular como cativante e ganharia em ser explorado. Vinte Mil léguas no totalitarismo?  Visto o meu fato de mergulho e já volto.

Probabilidades de acontecer: Está difícil. Gore Verbinski (Pirata das Caraíbas) estava a 8 semanas de começar as gravações e o projeto foi cancelado. Bastará um filme de videojogos ser um sucesso comercial para a perspetiva monetária ressuscitar o projeto.

Onimusha

Realizador: Takashi Miike

Onimusha surgiu numa altura em que a Capcom tentava perceber com que outros ingredientes poderiam cozinhar o seu Resident Evil. Que tal fazer o Parasite Eve 2 parecido com o RE? Que tal igual a RE, mas com dinossauros? E se for um samurai? A fórmula pegou. Naquela altura, o cinema de terror japonês começa a conhecer os seus primeiros sucessos comerciais no estrangeiro. Associar esse elemento ao universo tradicionalmente de “ação” do Japão Feudal é uma fórmula que dificilmente poderia ter falhado.

Infelizmente, a Capcom não soube evitar cair no ridículo narrativo completo e “saltou o Jean Reno”. A escolha do realizador para o filme foi talvez a mais fácil desta lista. Takashi Miike é o mestre japonês do género ação/terror. Se acrescentarmos a sua paixão recente por filmes de samurais, sabemos que esta adaptação tem tudo para ser bem-sucedida. A década de 2010 não tem sido particularmente boa para o terror nipónico e esta poderia ser uma excelente ocasião para acordar este registo adormecido.

Probabilidades de acontecer: Em 2012 Samuel Hadida, responsável pelos filmes da Capcom, abordou a questão dizendo que se a intenção existe seria necessário esperar pelos resultados do 47 Ronin do Keanu Reeves… Não sei se apanharam um susto de vez.

ICO

Realizador: Terrence Malick 

Há jogos que dizem muito sem dizer nada ou, nas palavras de um conceituado trovador britânico, “You say it best, when you say nothing at all”. Este jogo dispensa apresentações pois o seu valor artístico faz dele uma referência no debate intermitente dos videojogos enquanto “Arte”. Dos três jogos do Fumito Ueda, este parece-me o mais apropriado. Shadow of the Colossus tem uma dimensão bélica que poderia encostar o filme a convenções “blockbusterescas” e The Last Guardian tem uma interação com uma criatura gigante… Demasiado arriscado na era do CGI.

ICO pode ser contemplativo e ao mesmo tempo usar um registo familiar, o famoso “boy meets girl” e histórias de maturação adolescente. Terrence Malick sabe fazer dos cenários componentes indissociáveis das emoções das personagens e comunicar através da contemplação. Uma espécie de Blue Lagoon mas com mais roupa e mais cabeça. Sem dúvida, uma oportunidade única para produzir um filme inspirado num jogo artisticamente ambicioso.

Probabilidades de acontecer: Uma adaptação do Shadow of Colossus já foi contemplada. Kevin Ping Chang, produtor executivo do projeto, abordava abertamente o projeto em 2010 mas desde então nunca mais se ouviu falar. ICO é neste momento bastante improvável.

Earthbound

Realizador: Chris Columbus

Não poderia deixar de citar um jogo Nintendo pois não me pagam para arriscar quaisquer represálias. Zelda? Mario? Metroid? A fraca componente narrativa das produções Nintendo é uma falha ideológica assumida: o gameplay é a prioridade. No entanto, os guiões rotineiros próprios de cada franquia foram concebidos numa altura em que essa ideia não estava consolidada. Será que a Nintendo dos anos 80 suspeitava que iria fazer do resgate à princesa o seu eterno recurso narrativo?

Tenho por mim que não. Earthbound é, a meu ver, o exemplo disso. Um RPG que não opta por cavaleiros e dragões mas antes por um conjunto de miúdos confrontados com uma ameaça metafisicamente ambiciosa. Numa altura em que o sucesso de Stranger Things e IT não deixam dúvidas sobre o nosso apetite por grandes aventuras protagonizadas por crianças, uma adaptação de Earthbound viria mesmo a calhar. Existe no guião do jogo uma originalidade e criatividade que transcendem o registo. Chris Columbus é um realizador extremamente inconsistente mas passaram pelas suas mãos quase todos os clássicos dos 80 e 90 que envolvem crianças. Talvez seja a oportunidade para Columbus regressar ao seu melhor.

Probabilidades de acontecer: Praticamente nulas. Um inquérito feito no Japão indica que é uma das adaptações mais requisitadas pelos jogadores. No entanto ignorar os fãs tem sido o lema desta franquia… Vai mais um Smash?

Dungeon Keeper

Realizador: Dreamworks (Um dos gajos que fazem essas macacadas)

Apesar do seu humor negro e sanguinário, a essência de Dungeon Keeper é mais ligeira do que aparenta, daí ser perfeitamente adequada para um filme de animação contemporâneo com referências para os adultos e entretenimento acessível para as crianças. Dungeon Keeper é um jogo paródia e procura subverter um registo extremamente convencional já em 97.

Desde então nada mudou e uma sátira ao género seria tão oportuna agora como na altura. Os anti-heróis são facilmente acarinhados pelas crianças que vêm nessas personagens uma maneira de superar os seus medos. Despicable Me já abordou parcialmente esse tema mas através do ângulo dos filmes de espionagem. Uma ideia que não teve sequer grande continuidade pois os Minions e as suas absurdidades passaram a ocupar o espaço central das sequelas. O Segredo aqui passa por atenuar a violência excessiva do jogo e focar-se no universo D&D e nos clichés dos assaltos ao castelo. Entre Shrek, Despicable Me e Wreck it Ralph, Dungeon Keeper tem um espaço onde pode brilhar.

Probabilidades de acontecer: Altamente improvável. Nunca se falou nisso e a EA deu cabo da imagem com a sua gestão das micro-transações no remake mobile do jogo. Obrigado!

Harvest Moon 

Diretor: Sean Penn

Esta última escolha foi particularmente complicada e exigiu um esforço coletivo. Que videojogo poderia contribuir para um filme que não fosse de ação, mas antes um drama com romance à mistura? Harvest Moon pareceu-nos a escolha acertada. Este jogo do qual já todos ouvimos falar e provavelmente nunca jogamos, troca a chacina de antagonistas pelos desafios do mundo agrícola. Esta série tem uma narrativa minimalista, o que nos deixa mais espaço livre para um guião verosímil. Em quase todas as iterações somos um jovem que recupera a quinta de família tendo como objetivo o sucesso laboral e relacional. Plantar sementes literalmente e figurativamente, portanto.

Não sou muito dado a filmes românticos. É o tema mais complicado de abordar e Hollywood só o concebe através de uma comédia urbana absurda com um ator australiano esculpido à régua e uma sonsa virginal. Há quanto tempo que não vemos uma aventura amorosa rural? O desafio da terra e o drama dos dias sem chuva… A serenidade das paisagens… Bem regada, a coisa poderia dar uma boa colheita. Pensei em Clint Eastwood, mas perante a sua idade avançada opto antes pelo Sean Penn que já demonstrou saber abordar tanto a natureza (Into the Wild) como os desafios da América que não interessam. Romantismo, estrelas e trigo… Porque não?

Probabilidades de Acontecer: Não é preciso responder pois não?