Com os últimos dias do ano a aproximarem-se é tempo de contar armas, o que neste mundo dos tops e das listas de melhores do ano usualmente significa inventariar o ano que passou e peneirar as largas dezenas de jogos que jogámos e escolher os “campeões” do ano.

Já tanto falámos aqui como no Observador sobre o aspecto verdadeiramente singular deste ano que parece que a nossa voz é apenas caixa de ressonância para o que toda a gente está a dizer. É difícil pensarmos num ano qualitativamente tão forte como este 2017, e em muito ajudou a Nintendo que decidiu colocar todas as cartas na mesa com o lançamento da Nintendo Switch, apresentando muitos títulos excelentes ano após ano e a fazer elevar a fasquia do mercado como um todo. Relembrem-me um ano no mercado de videojogos recentes que tivéssemos sido brindados com um Zelda e um Super Mario e eu dir-vos-ei que é praticamente impossível de encontrarem (a menos que as minhas contas me enganem).

Como nos anos anteriores, este Editor’s Choice refere-se apenas às minhas escolhas pessoais dentro das largas dezenas de jogos que efectivamente joguei. Não será de surpreender que títulos como PUBG, Shadow of War ou mesmo Resident Evil 7 estejam ausentes: são alguns dos títulos que se vão enfileirar na minha interminável lista de jogos a serem jogados no futuro.

Sem mais delongas, avancemos para os dez melhores jogos de entre os mais de 100 que joguei este ano (a par do que já tinha acontecido no ano anterior).

10. Uncharted: Lost Legacy

Este é o primeiro Uncharted que joguei é justamente um spinoff, que entra para a minha lista não porque eu tenha finalmente descoberto as maravilhas criativas da Naughty Dog, mas porque em muitos aspectos este Lost Legacy é um grande ensinamento para o mercado AAA. Por um lado, pela mestria cinematográfica que imprimiram a este jogo, e de seguida pelo facto de terem sido tão criativamente honestos para com o público. Sem gorduras ou acessórios, Uncharted: Lost Legacy dura aquilo que os seus criadores sentem que deve durar, sem esticar artificialmente a sua duração apenas para cumprir rácios de satisfação. E é um jogo soberbo técnica e ritmicamente falando.

9. Thimbleweed Park

Num ano em que tivemos tantos excelentes exemplos de indie devs a reavivarem as aventuras point ‘n click, com algumas a serem muito presas à homenagem dos clássicos e outras a quererem ir a locais diferentes, mas foi justamente um dos criadores históricos a arrebatar a minha opinião. Quem melhor que os originais para relembrarem ao mercado como é que se fazem aventuras do género, ao bom e velho estilo da Lucas Arts? Ron Gilbert regressou ao seu habitat natural a comprovar-nos o quanto da genialidade dos históricos do género dependiam da sua força criativa, e este seu Thimbleweed Park aplica todas essas ideias, trazendo 1991 para 2017 de forma exímia.

8. Injustice 2

Com as adaptações cinematográficas das maravilhosas propriedades intelectuais da histórica DC Comics a rastejarem na sarjeta, foi curioso ver que a maior lição criativa que a Warner Bros. poderia receber de como realmente trabalhar narrativamente este mercado veio… de dentro de si mesma. Injustice 2 não só continua a senda dos NetherRealm Studios de cimentarem todas as revoluções mecânicas e estilísticas dos 2D fighting games, tornando-se, para mim, o patamar de todo o mercado, como conseguiram fazer a melhor campanha single player de sempre para um jogo do género. E de boleia demonstrar aos estúdios de cinema da WB como é que se cria uma história coesa e sólida de oposição dos dois maiores heróis da DC.

7. Cuphead

Sendo ou não uma obra de imitação de outros meios, Cuphead é sem sombra de dúvida um dos grandes exemplos de paixão no desenvolvimento de videojogos (mas não o único grande exemplo do ano), onde o esforço impresso à produção de uma obra ultrapassa os limites da sanidade. Uma exímia homenagem à era dourada do cinema de animação e aos seus autores, com mimetização artística, estética e metodológica desse período, aplicado num run and gun visualmente impressionante, concretizando todas as melhores expectativas que nos criou ao longo dos últimos anos.

6. The Sexy Brutale

Um dos 3 jogos que os nossos vizinhos madrilenos do estúdio Tequilla Works produziram (em que o primeiro do ano foi RiME), The Sexy Brutale é um dos jogos mais subvalorizados deste ano. Mais uma alegoria à perda numa interpretação esteticamente muito própria ao conceito de um dia que se repete em loop como no filme The Groundhog Day, e um dos jogos de puzzle narrativo mais interessantes dos últimos anos. Um dos melhores jogos dos quais ninguém ouviu falar este ano.

5. RiME

Também produzido pela Tequilla Works, RiME vai ser sempre injustamente ensombrado por grande parte do público e dos media que o olhou de soslaio como uma tentativa de atingir um The Legends of Zelda. Mas RiME é muito mais do que isso dentro da sua identidade emocional: é uma pesada alegoria à morte e à perda e ao confronto com a realidade, envolta num jogo de aventura mais que memorável.

4. The Last Day of June

Não bastava ser baseado na música de Steven Wilson (e de incluir composições suas como horizonte musical), The Last Day of June é o esbatimento perfeito entre os videojogos e o cinema de animação. Emocionalmente arrebatador, uma das experiências narrativas não-textuais mais profundas que já tive a sorte de experienciar, num reinventar inteligente e delicado de um loop infinito em direcção à inevitabilidade da morte. E é curioso observar que estes três jogos em sequência falam da mesma temática com tons diferentes. Mas todos eles (como as grandes e marcantes obras culturais) marcaram a dor a sua existência em mim.

3. Gorogoa

Ainda anteontem escrevi sobre ele. Gorogoa chegou há duas semanas ao mercado e conseguiu arrebatar um lugar mais que merecido no meu pódio. As razões pelas quais podem ser descobertas de duas formas: jogá-lo por inteiro ou ler o meu artigo de sexta-feira, sendo que a primeira opção é de longe a preferencial e obrigatória.

2. The Legend of Zelda: Breath of the Wild

Mecânica e conceptualmente brilhante, Breath of the Wild foi um jogo que me levou a demorar meses até conseguir jogar mais do que 10 minutos de cada vez, mas quando consegui realmente entrar de corpo e alma no seu mundo tragou-me para dentro de si sem mais querer soltar. Com tantas razões de génio que o fazem elevar a fasquia para lá dos próprios limites impostos pelos seus próprios criadores, BotW não arrebata o lugar cimeiro do meu pódio pela forma algo inócua como não soube criar um enredo mais sólido. Até hoje Aonuma e a sua equipa souberam pegar num ponto de partida e chegada básicos: o de vestir o manto de um herói e salvar uma princesa, e pelo meio povoá-lo de um enredo e uma construção de mundo rica e imaginativa, e acima de tudo memorável. BotW assume o simplismo das suas premissas e foca a sua atenção em esticar os limites mecânicos e conceptuais do género sobre isso. Isto poderia ser suficiente para ganhar o meu jogo do ano, não fosse este 2017 ter-se assumido como um ano em que até blockbusters do qual pouco esperávamos conseguiram surpreender com brilhantes teias de história.

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2. Super Mario Odyssey

Isto parece batota, mas não é. BotW e SMO terem saído no mesmo ano é quase o overkill ao mercado, mas foi exactamente o que aconteceu. Colocá-los ex aequo é a conclusão de muita reflexão da minha parte, e nenhuma prova da necessidade do politicamente correcto.

Super Mario Odyssey é soberbo, e é em muitos aspectos o melhor Super Mario de sempre, já que é notoriamente um best of de tudo o que Mario já conseguiu fazer. Com uma longevidade e criatividades surpreendentes que cumprem e honram o legado da série, e apaziguam a fome de todos nós que ansiávamos pelo lançamento de mais um Mario, mas que só não rouba a coroa do ano porque ao contrário de grande parte dos seus antecessores, não representa um avanço histórico para os videojogos, coisa que grande parte das suas iterações representaram.

É curioso como num ano rico como este eu posso “dar-me ao luxo” de ser hiper-exigente com duas excelentes obras como BotW e SMO. Parece injusto como é que duas obras do patamar destes jogos podem ser vítimas de exigência, e muitos dos que lêem este Editor’s Choice devem revirar os olhos com o arrojo deste tipo (leia-se, eu) em querer que estes dois títulos chegassem mais longe. Faço-o porque foi exactamente isso que as duas séries me habituarem quando me definiram enquanto jogador e enquanto agente crítico do mercado: Zelda, na sua reinvenção da fórmula assente em histórias interessantes, ricas e complexas, assentes em dois pontos basilares simplistas, e Super Mario, que a cada novo lançamento carregava todo o mercado atrás de si. Colocá-los empatados em segundo lugar é entender isto mesmo: a sua excelência mas as falhas que para mim os impedem de atingir o seu lugar – que muitos dirão – merecido. E é por isso que sem surpresas o lugar cimeiro deste top vai para:

1. Horizon Zero Dawn

A maior surpresa que tive este ano pelos preconceitos que tinha em relação ao seu conceito, setting, na sua capacidade de manutenção da suspensão da descrença e especialmente ao estúdio que o criou.

Horizon Zero Dawn soube, a cada momento, convencer-me que todos os meus óbvios preconceitos não só estavam errados, como o mundo verdadeiramente impressionante que criaram era coeso, que fazia sentido, e que as alterações de mindset que imputaram aos open world sandboxes é mais profunda e arriscada do que se poderia esperar.

Depois de conhecermos tudo o que o jogo tinha para oferecer percebemos o quão sólida é a história de óptima ficção científica que serve de alicerces ao título, e que vamos descortinando de forma ritmicamente equilibrada, comprovando (e eu que tanto acreditava no contrário) que isto pouco mais era que um conceito estranho e até aparentemente pueril. Mas não. A forma como sentimos que a evolução de Aloy ao longo do jogo é um misto entre o seu crescimento dentro do jogo e o contributo e aprendizagem que nós, enquanto os “controladores” dela sofremos. Se há muito a aprender no futuro com a forma como BotW encarou este género tão overplayed, com Horizon Zero Dawn há uma miríade de exemplos de como equilibrar a experiência, interligando-a com um mundo narrativamente surpreendente.

Menções Honrosas:

Não conseguindo ganhar espaço no top 10, e de entre tantos bons jogos que joguei este ano, é necessário dar uma menção especial a maravilhas como Orwell, EverythingCrawl, Antihero, Hey! Pikmin, SteamWorld Dig 2, Loot Rascals e Wolfenstein II: The New Colossus.

Melhor jogo familiar:

Simultaneamente a criar um excelente e familiar driving game, e a recuperar a melhor tradição que os videojogos tinham de adaptações de filmes de animação, temos o excelente Cars 3: Driven to Win, que partilha este prémio com The Lego Ninjago Movie Video Game por uma dessas razões, e por este ter conseguido agitar a fórmula dos jogos da Lego. E como sugestão de rodapé, apesar de ser um dos grandes jogos do ano: Super Mario Odyssey, que é, como referi aqui, uma excelente oportunidade de partilha entre pais e filhos.

Melhor jogo cooperativo:

De entre tantas possibilidades, pela inventividade temos que indicar Snipperclips, e por ser a forma de se tornar um bom jogo ao ser jogado a 2, Knack 2.

Melhor jogo competitivo:

Eu sei que se o tivesse jogado o nome que viria para aqui directamente seria o de PUBG, mas pela forma como conseguiram estender a sombra dos eSports (ainda que de forma tímida) a intersectar-se com o mercado familiar, Splatoon 2.

Melhor jogo para consola portátil:

Desclassificando já os título da Switch por serem na realidade híbridos, a 3DS, sem surpresas venceu com o aclamado Fire Emblem Echoes: Shadows of Valentia e o casualmente viciante Miitopia, que se tornou um dos jogos aos quais dediquei mais horas deste ano (penso que na última vez que verifiquei ia com 90 horas deste simpático RPG).

Melhor jogo mobile:

Considerando apenas jogos exclusivamente para telemóvel, Vignettes é o incontestado vencedor.

As maiores desilusões do ano:

Devidamente explicado nos artigos correspondentes, Star Wars Battlefront II, Pokémon Ultra Sun, Marvel vs. Capcom: Infinite, Masquerada: Song of Shadows, Friday the 13th, Syberia III, Has-Been Heroes e Yooka-Laylee.

Os piores do ano:

Sem contar com todo o shovelware que nos passou pelas mãos, e sem qualquer dúvida: Sonic Forces, Ghost Recon Wildlands, Mass Effect Andromeda e Agents of Mayhem.

As maiores surpresas do ano:

Os jogos inesperados, que ora nos bateram nos preconceitos, ora surgiram como verdadeiras jóias sem sabermos da sua existência: Assassin’s Creed: Origins, Please Knock on my Door, Midnight at the Celestial Palace, The Darkside Detective, Mario + Rabbids Kingdom Battle e Another Lost Phone.