Sempre discordei do cuco. Desde pequeno que gosto de vegetais e não só os acho saborosos como não percebo o porquê de serem tão mal-amados pela maioria das crianças e até de muitos adultos.

Mantendo a temática da comida, e ainda decorrente da noite mais surpreendente de sempre do Caça ao Indie ao vivo, e depois do impacto fulminante de Genital Jousting lá segui para a segunda parte, desta vez com um jogo que não conhecia rigorosamente nada: Super Cane Magic Zero.

A cereja surreal no topo de um bolo bizarro que foi a noite de stream de terça-feira passada. Depois do jogo do estúdio Free Lives só algo igualmente estranho para complementar a noite. Tudo em Super Cane Magic Zero é absurdamente delicioso, transformando este dungeon crawler cooperativo (e competitivo) num daqueles casos estranhos de jogos que queremos parar de jogar mas não conseguimos.

Apesar de ter jogado apenas sozinho, é impossível não ficar deliciado com todo o aspecto deste jogo. Em directo defini-o (em colaboração com um dos membros do Rubber que estava a ver ao vivo) como um cruzamento feliz entre o famoso webcomic Order of the Stick e Stargate, mas com doses cavalares de loucura. Esta semelhança com o OotS é fácil de explicar, já que toda a direcção artística do jogo foi criada pelo autor de banda-desenhada italiano Sio.

Acho que nunca tinha jogado um roguelike tão tresloucadamente divertido quanto este. Aqui os vegetais ganharam vida e estão a tentar conquistar o planeta WOTF, e cabe-nos a difícil tarefa de os arrasar. Para isso podemos literalmente comer tudo o que apanhamos, o que inclui cacifos, baús, vasos, e tudo o que decore os níveis e que seja passível de ser erguido.

O pior é que os efeitos são desconhecidos até comermos os itens, coisa que vamos percebendo à medida que reparamos o quão indigestos são cacifos e a quantidade de HP que nos roubam ao passar pelo goto. Portanto descobrir o que pode trazer benefícios ou prejuízos é algo que vamos aprendendo in loco, ou neste caso, in famēs.

Para abrirmos baús não basta acertar-lhe com um golpe certeiro com a nossa arma, mas precisamos de atirá-los para a parede para ver o que contêm. Esta ideia é engraçada porque nos permite não só pegar (e engolir, se assim nos apetecer) ou simplesmente atirar os baús contra a parede ou inimigos. O problema é que deveríamos ter a possibilidade de simplesmente abrir baús com um golpe como em qualquer outro roguelike, porque a partir de um certo momento a necessidade de os arremessar para os abrir começa a fartar um pouco.

Os itens são tão hilariantes quanto todo o mundo, quanto os cães divinos que guardam os poderes dos céus contra a invasão alienígena, e quanto os risíveis inimigos que até colocam com algumas reticências com verduras um amante de vegetais como eu. Mas o ponto alto de riso deste jogo é mesmo o equipamento que apanhamos, e que pode ir de um clássico capacete-pino-de-trânsito até espadas de pizza.

Super Cane Magic Zero consegue trazer uma aura divertida, colorida e surreal aos roguelikes, aligeirando conceptualmente o género mas mantendo um bom nível de desafio. Ainda está em Early Access e tem todas as capacidades para ser um dos melhores jogos cooperativos do género, para além de nos permitir combater os nossos amigos em arena PVP.

Consegue equilibrar o conteúdo entre single e multiplayer, e as suas dungeons são tão infantilmente divertidas que nos é difícil de querer parar o jogo. E ao mesmo tempo tornar-se um dos roguelikes com identidade mais própria dentro de um mercado onde toda a gente parece jogar excessivamente pelo seguro.

Por outro lado nenhum outro jogo nos deixa engolir um Game Boy e receber um poder maravilhoso por isso. Super Cane Magic Zero é um indie roguelike em Early Access que nos deixa uma barrigada de diversão num banquete de loucura.