De certeza que conhecem alguém que tem o sonho de vir a fazer jogos, seja um amigo de infância, o padeiro da padaria da esquina ou mesmo aquela pessoa que vos olha nos olhos quando se vêem ao espelho, e não estou a falar do Alberto, aquele tarado que gosta de vos ver a tomar banho. Sim, chama-se Alberto para toda a gente, é uma espécie de mãe em piadas de mães, é hipotético.

MAS!

Onde quero chegar é que de certeza absoluta que essa pessoa já vos disse e passo a citar:
“Mano! Tenho uma ideia do c*r*lh*! Vou fazer um jogo tipo WoW ’tás a ver? Mas tipo, melhor, e tipo podes fazer tudo o que quiseres, quase como se fosse vida real man! E tipo a economia é definida pelos jogadores e tipo a tua personagem tem rolls de stats para que não haja ninguém igual e tipo cenas!

Verdade é, essa pessoa possivelmente nunca fez um jogo na vida, nunca vai fazer um jogo na vida, nem faz ideia do processo que é fazer/criar/projectar um jogo, muito possivelmente essa pessoa é o Alberto. Adora ver-vos tomar banho e comentar a maneira como o fazem “mais sabão aqui”, “mais esponja ali”, porque tomou banho uma vez em 1986 e conseguiu lavar o pé esquerdo sem ajuda da auxiliar do Júlio de Matos.

Foi exactamente nesse conceito que a Industry Games se baseou para a criação de Kings And Heroes. O Jogo que saiu de Early Access no dia 16 de Novembro de 2017 tem uma vibe completamente “WoWish” (isto é a partir de hoje o adjectivo que descreve um jogo baseado completamente no World of Warcraft). O estilo artístico bem “cartoonish“, a arquitectura “quadradona”, o ambiente azulado e na minha opinião, chato. Tudo são indicadores óbvios e imediatos da sua inspiração. Isto não tem de ser mau, antes pelo contrário, se metade dos jogos “WoWish” fossem o que prometem, tínhamos centenas de bons RPGs por ano!

Na criação de personagem temos o ponto que mais esperança me deu neste jogo, temos ao nosso dispor um sistema de lançamento de dados bem ao estilo D&D. Senti-me refrescado ao fazê-lo, será que a Industry Games tinha conseguido criar um jogo livre com consequências e prazeres tais que apenas um Dungeon Master nos poderia fazer sentir? Como é hábito meu em sessões de D&D, optei por uma humano fighterchaotic good, [insertpublicitystunt] se não sabem o que isso é, recomendo a darem uma olhada nos artigos dos meus colegas aqui mesmo neste site. Se sabem o que é, vejam na mesma, não se vão arrepender![/insertpublicitystunt]
Voltando ao Kings And Heroes, a primeira hora,em nada nos faz esquecer de que este é apenas mais um RPG, nem me atrevo a adicionar a sigla MMO à anterior porque com a quantidade de jogadores que encontro não pode ser merecedora dessa mesma. Para esclarecer esse problema, em 10 horas de jogo, encontrei um jogador, uma vez, no world chat e era um Admin.

O sistema de missões é igual a todos os jogos que antecedem este título, fala com este NPC, entrega este papel no meu amigo ferreiro que depois te vai pedir para entregar algo na sua amiga alquimista porque “deus” sabe que todos os grandes alquimistas são amigos de infância dos ferreiros, e todas essas coisas típicas dos RPGs. Ao passar de nível, arranjar equipamentos e tudo isso, rapidamente vou chegando à conclusão que afinal, nada, mas mesmo nada neste jogo é novo, e muito menos melhor executado que em todos os milhares de jogos iguais que saíram antes dele. Adoro o aspecto, mas o World of Warcraft tem igual, adoro as dungeons mas todos os RPGs baseados nesse sistema o fazem igual ou melhor. A variedade de inimigos também é escassa, temos constantes recolors do mesmo modelo para parecer que existe variedade, ou noutros casos apenas trocam a arma e mudam o nome do inimigo, pouca imaginação ou talvez um atalho para poupar tempo e custo de produção, este facto em nada abona a favor do jogo no entanto.

Não fossem esses problemas suficientes mas infelizmente o próprio jogo em si não está bem executado, tendo em conta que já saiu de Early Access a quantidade de bugs existente deveria trazer vergonha a qualquer companhia criadora de videojogos.

Para vos explicar alguns desses bugs, temos desde de coisas minúsculas como armários que sangram quando lhes batemos com a nossa espada até inimigos que se tornam invulneráveis porque existe uma chávena no chão que por alguma razão cria uma parede invisível entre nós e o bicho que pretendemos matar, pior ainda, não temos como lhe acertar mas ele continua a retirar pedaços da nossa vida como uma espécie de sanguessuga. Nem me vou debater contra os bugs visuais porque esses apesar de revelarem desleixo, não quebram o jogo. Os bugs mecânicos como o que refiro acima são bastante mais problemáticos, sendo que tive de repetir uma dungeon 3 vezes só por causa dos mesmos, à terceira tentativa a minha preocupação não eram os esqueletos nem os mortos-vivos mas garantir que não me aproximava demasiado da parede ao usar certas habilidades senão ficaria preso na mesma, ou não saltar em escadas para não entrar pelas mesmas a dentro.

Não duvido por um bocadinho que este jogo seja capaz de criar um grupo de fãs bastante fiel, não duvido que haja muita gente que adore o jogo e faça dele o seu entretenimento primário pelo menos até aos servidores fecharem. De resto, pouco existe aqui que me faça ficar, e deduzo que esse seja o mesmo sentimento da maior parte dos jogadores que se depararem com Kings And Heroes.

Vale a pena experimentar? Não. Tem futuro? Pela falta de actualizações e conversa por parte dos criadores sobre um MMORPG que foi lançado há pouco mais de 3 meses, não. Mas não se guiem por mim e experimentem por vocês próprios, quando o jogo estiver a 90% de desconto ou assim.

Se temem pelo futuro destes jovens criadores, nada temam, vão lançar um battleroyale brevemente, pois é o que está na moda, o que acaba por dizer muito sobre a própria empresa.