Antes de mergulharmos no jogo que nos traz aqui hoje, Tokyo Xanadu eX+, queria fazer-vos odiarem-me um bocadinho mais do que provavelmente muitos de vocês já odeiam. Perdido no mesmo canto da minha memória onde deve estar na vossa, a palavra Xanadu, ao contrário do que eu gostaria, não me leva directamente para o filme Xanadu, ou mesmo o clássico intemporal dos Rush. Mas por infelicidade minha, e agora vossa, leva-me para um momento negro dos muitos momentos negros dos 1990s, especialmente na viragem do milénio, em que “bandas”, vá, projectos, manhosos da pop portuguesa, a tentar mimetizar uma onda de eurodance chavascal que se espalhou pela Europa (e pelo Mundo) como gonorreia numa casa de alterne.

Xanadú, com este “brilhante” single intitulado Shalalali, demarcava o surgimento de 4 pessoas que foram juntas por uma editora ou um produtor para fazer coisas que alguns indivíduos denominariam, erroneamente, de música.

E agora que já todos têm esta música em repeat na cabeça sem a conseguirem esquecer, como uma infecção hospitalar difícil de combater, vamos mergulhar em Tokyo Xanadu eX+, a versão “melhorada” do original lançado em 2015 para PS Vita.

Para além de ser a iteração mais recente de uma série que conta já com três décadas, o meu primeiro contacto com Tokyo Xanadu eX+ levou-me automaticamente para outro jogo (precisamente desenvolvido na mesma casa, a Nihon Falcom) Trails of Cold Steel. O ambiente é precisamente o mesmo, e se fizéssemos um teste apenas com screenshots de ambos, dificilmente conseguiria distinguir um do outro.

Mais não seria de esperar ao terem criadores e equipas de desenvolvimento em comum. Mas esta mudança temática de Xanadu para uma proximidade com The Legend of Heroes seria tão estranha quanto se a outra grande série da Nihon Falcom, Ys, decidisse abandonar a sua identidade medievalesca e abraçasse a linguagem sci-fi school life.

Tokyo Xanadu eX+ é um action RPG que dentro das três grandes séries da histórica companhia nipónica é o mais refreado em termos de setting e o mais próximo do nosso mundo contemporâneo. A representação mais realista de Tóquio (e da zona de Tachikawa  onde ficam localizados os escritórios da empresa) e das actividades que podemos usufruir nos tempos livres permitem uma construção mais mundana deste ambiente.

À semelhança de outros jogos da companhia, é na realidade o elenco de Tokyo Xanadu eX+ e a sua contribuição para a história aquilo que de melhor o jogo tem. A profundidade dos personagens e do enredo e a forma muitas vezes surpreendente com que eles nos revelam detalhes inesperados, acabam por diferenciar este jogo de tantos outros pastiches nipónicos sensaborões.

Os combates são reminiscentes dos maravilhosos Ys, onde temos a capacidade de nos desviarmos de ataques mas não de os bloquearmos. São os bons efeitos e animações de combate que o tornam realmente interessante e ajudam a abrilhantar outro dos seus pontos fortes, as incursões pelas dungeons.

Tokyo Xanadu eX+ é assim a forma de trazer um excelente jogo nipónico originalmente lançado para uma consola com um limitado alcance de público, para duas de abertura mais lata, o PC e a PS4, e uma das provas que várias décadas depois da Nihon Falcom continua a ser uma das grandes potências de desenvolvimento de RPGs no Japão.