Ready Player One, baseado no livro de Ernest Cline, está prestes a chegar ao cinema pelas mãos de Steven Spielberg. O livro já foi alvo de duas análises aqui no Rubber Chicken, a mais recente uma escaldante crítica pelo João Machado, capaz de deixar qualquer apreciador da obra a fumegar. Eu que o diga.

Aqui apresento uma abordagem mais leve, naquele tom de quem diz verdades a brincar, sobre o “verdadeiro problema” com a verosimilhança da história: os jogadores.

No OASIS, o “jogo” tornado plataforma mundial de escapismo, os utilizadores têm liberdade para ser quem quiserem em qualquer cenário.

 “Podias criar uma personagem completamente nova, com controlo completo sobre como parecias e soavas para as outras pessoas. […] Podias mudar o teu nome, idade, sexo, raça, altura, peso, voz, cor de cabelo e estrutura óssea. Ou podias deixar de ser humano de todo, e tornar-te um elfo, ogre, extraterrestre, ou qualquer outra criatura da literatura, cinema ou mitologia.”*

Ernest Cline imagina e descreve que isto possa dar lugar a miscelâneas sem medo de direitos de autor, onde o Mestre Yoda poderia ser visto a conduzir um DeLorean, enquanto dá boleia ao Dumbledore, a caminho de uma arena de gladiadores romana.

No entanto, o autor subestima o caos potencialmente introduzido com esse nível de liberdade. Como análogo mais próximo atualmente temos o exemplo de VRChat, onde os utilizadores interagem virtualmente através de personagens com modelos 3D que podem ser por eles criados.

Estou a imaginar o Wade a fazer o seu discurso de guerra para este público em vez do da primeira imagem: “Ninguém quer saber!”

O resultado é mais parecido com o que obteríamos se um arquivo de memes fosse lançado para uma liquidificadora, do que com o mundo utópico de Cline.

Assim, na primeira descrição de habitantes do OASIS (dos que não estavam restritos à forma humana pelo “dresscode” da escola virtual Ludos), o autor narra:

“Enquanto descia as escadas, vi algumas dúzias de outros gunters a cirandar, com avatares de aparência extraordinariamente diversa. Haviam humanos, ciborgues, demónios, elfos negros, Vulcans e vampiros.”*

Mas devia-se ler:

“Dúzias de Sonic e Knuckles deformados estalavam as línguas em uníssono, enquanto veneravam uma rapariga de anime gigante como uma rainha. Um Spongebob com pormenores realísticos encontrava-se num estado eterno de secura, com uma expressão aterradora na sua face de olhos arregalados. O seu utilizador tinha provavelmente deixado os controlos sozinhos, uma vez que os seus braços cruzavam acima da cabeça num ângulo estranho, e um grupo de personagens variadas já se tinha juntado à sua volta. Ao canto, um tubarão, um bebé em eterna espargata, um recorte de cartão do Goku e um chip de computador da Intel estavam a ter uma conversa.”

Bloodborne: Mesmo sem ferramentas de desenvolvimento extra, um criador de personagens extenso é suficiente para criar material digno de pesadelos

Da mesma forma, a descrição dos veículos virtuais deixa a desejar:

“Os parques de estacionamento das escolas de Ludos estavam recheados de OVNIs, TIE Fighters, velhas naves espaciais da NASA, Vipers de Battlestar Galactica e outros designs de naves retirados de todos os filmes e séries de ficção científica que possas imaginar.”*

Pelo menos, estimo que uma boa percentagem dos transportes seria estilizada numa forma fálica detalhada.

Pelos exemplos mostrados nos trailers, o problema é ainda mais grave, apresentando uma grande parte da população do OASIS como personagens de videojogos como Street Fighter, Battletoads, Tomb Raider, Halo e Overwatch, ou mesmo de filmes e cultura pop como Joker, Harley Quinn e Chucky. Isto subestima a necessidade de individualidade em troca de um “cosplay” perfeito que rapidamente perde a piada por o ser. Certamente haveria utilizadores a fazer essa escolha, mas quando a totalidade do ecrã se torna num jogo de “enumera as referências”, todas elas 100% fieis ao cânone das personagens, é difícil engolir.

Existe ainda o problema do comportamento, onde já toquei ao de leve na minha primeira descrição emendada. Para Cline, o mundo do OASIS funciona de forma semelhante ao real, embora com magia e tecnologia pelo meio.

Eu diria que o autor se ficou pelos jogos dos anos 80, e nunca participou num jogo online. É que o jogador um até pode estar pronto para o realismo… O problema é quem faz “PUSH START” do outro lado.

Ora, tendo os utilizadores garantia de anonimidade assegurada e total controlo da sua personagem e do ambiente, teria que haver uma moderação muito pesada e imediata para que o mundo virtual não se tornasse num antro de devassidão, deboche e caos completo.

Mesmo que seja possível controlar comportamentos mais atrevidos, o filme não estará completo sem personagens a saltar repetidamente sem sair do lugar, crianças a insultar as mães dos outros, e alguém a fazer um teabagging a um adversário caído.

Como suspeito que o Spielberg vá deixar a desejar neste campo, aqui fica um cheirinho mais realista:

*Traduções manhosas do original Inglês da minha autoria.