Depois de escrever sobre a minha aceitação de Twitch eu fechei o texto simplesmente com a afirmação que não gosto de jogos multiplayer online, sejam eles opcionais ou obrigatórios. Não vou entrar em detalhes de jogos como Dragon Ball FighterZ que obriga o jogador a entrar num lobby online, mesmo que este não queira fazer nada com outros jogadores. Isto é uma parvoíce desnecessária, porque quer dizer que se eu quiser jogar com um amigo na minha sala tenho que ir para um servidor comum. E se esse servidor estiver em baixo, nenhum de nós pode jogar. Porque, bem… sei lá… Mas esse não é o meu problema principal, a razão que eu não gosto de jogos online é porque a raça humana é provavelmente a pior espécie à face da Terra.

A peça No Exit de Sartre acaba com a frase “O Inferno são as outras pessoas!” não querendo entrar numa análise existencialista da obra ou só da frase, prefiro apenas usá-la como mote da minha opinião, e entrar a matar, tal como muitos dos seres que partilham este planeta comigo e acima de tudo as ondas na rede informática mundial. Qual de nós nunca sofreu um “Teabagging”, ou foi insultado num jogo multiplayer (muito provavelmente por um miúdo/adolescente), ou num fórum/rede social online?

Ultimamente tenho jogado bastante Sea of Thieves, e apesar da minha nota mediana do jogo, gosto imenso de passar o meu tempo lá, aceito o jogo pelo que é e tento fazer o melhor dele. Este jogo tem uma mecânica e uma ideologia excelentes por trás da sua produção, e infelizmente a sua experiência é estragada pela natureza humana. Sea of Thieves está construído como um promotor social, um ponto de encontro online para criar e partilhar aventuras e histórias virtuais num ambiente exótico. E o que é que os jogadores fizeram dele? Um CoD em barcos!

Trolls aparecem em várias formas e tamanhos

Não só tenho jogado Sea of Thieves, tenho andado bastante activo nos seus fóruns oficiais onde há duas facções opostas de fãs (se não contarmos toda a gente que quer alterações ao jogo para que saia totalmente da sua génese). Quando a Rare criou Sea of Thieves foi com uma ideia de que qualquer jogador, independentemente do seu nível tivesse os mesmos atributos que os outros todos, que a superioridade fosse conseguida através de engenho e experiência, e que os mais sábios ensinassem os mais inocentes até que eles pudessem aventurar-se a solo e por sua vez ensinassem outros. O que é que toda a gente pede? Níveis, stats, e outras cenouras na ponta da corda porque já ninguém sabe jogar sem ter um achievement ou um número para marcar a sua superioridade sobre os outros. O problema maior não está na obra, está nos fãs que são simplesmente humanos.

Há literalmente dois tipos de jogador em Sea of Thieves, os PvE e os PvP, enquanto os jogadores PvE gostam de fazer as suas missões (por mais repetitivas que elas se tornem) os PvP optam por simplesmente atacar tudo o que mexe, quer estes queiram interagir com eles ou não, como ao contrário de outros jogos em que há servidores dedicados ou possibilidade de meter em modo “passivo” os jogadores que não querem ser atacados acabam por sofrer as consequências de um ambiente abusivo. Claro que quem entrou aqui sabia os riscos, desde os Alphas que foi anunciado que a qualquer momento podiamos ser atacados ou atacar outro jogador/embarcação, pois o ambiente é PvEvP, mas quando há pessoas a fazer o máximo para estragar a experiência dos outros propositadamente, não consigo perceber.

Dá para os ver chegar ao longe.

Pessoalmente nunca tive problemas nas minhas sessões, tirando o facto de querer entrar em contacto amigável com outros jogadores e mais que uma vez ser afastado à bala de canhão ou pistola, dando meia volta não insisto em ser amigo de quem não quer. Tendo em conta que jogo maioritariamente a par ou a solo, aprendi a controlar bem meu ambiente e não correr riscos, afinal isto é um mar de piratas e não o mar de ursinhos carinhosos, contudo já vi e foram-me relatados vários casos em que jogadores PvP atacam barcos e jogadores incessantemente, fazendo spawnkills constantes, só porque sim. Matar inimigos e afundar barcos não dá XP ou recompensa alguma no jogo sem ser o loot que estes potencialmente terão, mas isto acontece mesmo quando os jogadores acabaram de entrar no jogo e não têm nada para roubar. Há muitos jogadores que, dizem por estar aborrecidos pela falta de conteúdo PvE, só se divertem em batalhas. Eu entendo as batalhas contra inimigos que o querem fazer são muito emocionantes, mas quando o barco está atracado num porto sem ninguém qual é a diversão nisso? Quando o adversário não resiste, qual é a piada de estar constantemente à espera que ele faça respawn apenas porque sim já que não há recompensa? Há alguma satisfação em estragar o jogo aos outros só porque não estão a gostar dele?

Alguns afirmam que é um jogo PvP e quem não quer que vá jogar outra coisa. Sim, aceito esse ponto de vista tanto como dizer que um Big Mac é vegan porque tem alface e tomate. Lá porque há um elemento de algo não o faz na sua totalidade.

Infelizmente não são só esses spawncampers que estão a criar más experiências, também há os que se divertem a prender randoms porque não os querem na sua tripulação (não há opção de kick no jogo, lembrem-se que é uma experiência social) e os que ao entrar numa tripulação completa se divertem a sabotar as batalhas, ou a atirar os tesouros borda fora, mais uma vez sem possibilidade de kickar essa pessoa ou bloquear o nosso jogo apenas a conhecidos. A última é que por ter a capacidade de Play Anywhere, já há imensos jogadores PC que conseguiram fazer hack ao jogo, habilitando os seus personagens com God Mode e Auto Aim, tornando-se invulneráveis e infalíveis, tudo aquilo que torna um jogo multiplayer interessante.

Com Sea of Thieves a Rare deu-nos uma plataforma de brincadeira fantástica que é estragada por aquele miúdo típico que só gosta de partir os brinquedos dos outros, como experiência social é brilhante, porque mostra que quando não há regras o ser humano no geral reduz-se à sua natureza mais básica, a de energúmeno violento que sempre que tem algo novo procura como pode usar isso para fazer mal aos outros. Este é apenas um exemplo da minha aversão a multiplayers, tenho a certeza que há outros jogos que qualquer leitor possa ter tido experiências semelhantes.

É por estas e por outros que prefiro brincar sozinho…