Antes de mergulharmos em Super Seducer: How to talk to girls (encurtado por todos apenas como Super Seducer), permitam-me fazer um preâmbulo. O Rubber Chicken é maioritariamente um meio de escrita sobre videojogos, e só recentemente, com alguma agradecida pressão do Marco Janeiro, é que nos começámos a dedicar aos streams. Para mim, como para a maioria dos membros da redacção, esta não é uma actividade natural. Crescemos com a escrita e a leitura, e são esses ainda hoje os pontos primordiais da nossa actividade, e se raras são as vezes em que me cruzo com streams (por ainda hoje não considerar, à semelhança do João, que seja um meio primordial para mim), consigo passar o dia a ler artigos, independentemente da sua extensão.

A realidade, como já assumi antes, é que estou a gostar muito mais de fazer stream, especialmente do meu programa Caça ao Indie, de terça-feira à noite, do que alguma vez imaginei gostar.

É claro que todo este processo de ambientação é também um momento de aprendizagem. Separar mindsets entre aquilo que é a actividade de fazer stream e partilhar a jogabilidade de um jogo em directo com a companhia de quem nos vê com o momento de reflexão e análise. Um não é obrigatoriamente o mesmo que e o outro é há muitas situações em que os dois são incompatíveis, em que a opinião formada com a concentração partilhada entre jogo e interacção com os espectadores difere dos momentos de reflexão e análise isolado e sozinho.

A ideia da rubrica no Twitch é uma extensão daquela que temos aqui em escrito: fazer uma espécie de curadoria dos muitos indies que nos chegam às mãos, com uma diferença: tenho tentado que cada episódio seja o meu contacto zero com cada jogo, numa postura de verdadeira tabula rasa em que descubro com a companhia do público o que trata cada jogo.

Regra geral, apesar da tabula rasa, tento que os jogos tenham alguma qualidade e que sejam boas opções de compra e diversão para quem os vê. Super Seducer foi seleccionado por sugestão de um amigo, e é talvez o único que eu tinha a ideia de que ia ser terrível. E ironia das ironias, foi o melhor stream que tive até hoje em termos de audiência. Dezenas de pessoas estiveram online a ver, no episódio onde alcancei o meu pico de visualizações até hoje. O que diz tanto sobre o que as pessoas querem realmente ver, como o tipo de conteúdo que se deve fazer para ter visualizações.

No pior jogo que trouxe à rubrica ao vivo, ao longo dos 11 episódios que já decorreram, tive a melhor participação de público de sempre. Deixemos isto pousar na nossa mente.

Como afirmei nos minutos que antecederam o episódio, que rapidamente percebi o quanto Super Seducer estava envolto em polémica: inúmeras pessoas criticaram o jogo pela sua posição sexista enquanto “tutorial de como seduzir mulheres”. Estava pronto para tentar perceber se o jogo escrito e interpretado pelo aparentemente famoso seducing guru Richard La Ruina (péssimo nome, se for artístico, e péssimo nome, se for real) era assim tão ofensivo ou se, como quase todos os jogos FMV dos 1990s era simplesmente de mau gosto, e em suma, terrível.

Super Seducer está dividido em “missões” que envolvem situações do quotidiano protagonizadas por La Ruina acompanhado sempre por “actrizes” cuja qualidade de interpretação não lhes permitiria sequer contracenar em filmes softcore. O objectivo é pelo menos conseguir o número de telefone da mulher que estamos a interpelar. Para isso, em cada situação, é-nos dada uma sequência de escolha múltipla, cujo encadeamento é então mostrado em filme. Dependendo do nosso sucesso ou insucesso no tipo de resposta, temos um interlúdio com La Ruina sentado numa cama a explicar o que aconteceu, de bem e de mal. Se acertarmos ele estará acompanhado de duas mulheres em lingerie. Se errarmos ele estará sozinho, e dermos uma resposta assim-assim ele terá a companhia dessas mesmas duas strippers mulheres, mas elas estarão vestidas.

É neste sistema de “aula” que La Ruina vai explicando passo-a-passo o que fazemos e mal e bem. Mas a realidade, como podem constatar do vídeo do nosso stream, é que Super Seducer tem de ser jogado no mesmo espírito que vemos uma comédia terrível tipo Scary Movie 28: tentar ver a coisa pelo humor de mau gosto, escolhendo as respostas mais infames apenas para ver o putativo seducing guru a “interpretar” essa resposta. As gargalhadas são mais que muitas, seja pela péssima capacidade de toda a gente de representar, pelos péssimos diálogos e até pelas opções risíveis.

Quando digo opções risíveis digo também aquelas que parecem a resposta “certa” para chegar ao engate mas que não são, assim como aquelas que parecem ridículas mas afinal para La Ruina é a forma correcta de seduzir alguém.

É neste clima de aleatoriedade que não só duvido das capacidades tutoriais de La Ruina em seduzir alguém como até da qualidade de Super Seducer. Espero genuinamente que ninguém tenha  comprado este jogo na expectativa de tê-lo como um verdadeiro tutorial de engate, porque vai falhar redondamente. Ainda que tenha achado o jogo bem menos ofensivo do que esperava, com o meu homónimo a ter respostas sobre respeito mútuo que não esperava por alguns comentários que li online, a qualidade geral das “missões” é terrível. Se quiserem comprá-lo façam-no pelo potencial de humor, e pelas respostas absurdas que podem obter, em especial na missão da discoteca que é a minha favorita por alcançar novos níveis de ridículo, que chega a incluir twerking, necrofilia, sexo num armário e até me fez dançar de forma douche para a câmara.

As respostas erradas, misóginas, ofensivas e de mau-gosto são isso mesmo, e não são uma promoção pelo desrespeito das mulheres. São apenas a tentativa de alguém com pouco ou nenhum talento em produzir um tutorial interactivo de sedução, e falhar redondamente. Até como peça de humor é fraca.

Super Seducer é possivelmente dos primeiros jogos que aconselho vivamente a verem em stream e pegarem no dinheiro que gastariam nele para comprarem um jogo decente, como por exemplo o Q.U.B.E. 2 que é o primeiro jogo que trouxe em 2 episódios seguidos. Não há nada que consigam retirar de proveitoso do jogo de Richard La Ruina, mas de igual forma não senti todas as ondas de gente ofendida com ele. É um jogo FMV mau, como praticamente 99% dos jogos em FMV são. Não está muito distante do Plumbers Don’t Wear Ties, e isso é dizer muito sobre ele.

Se permitem um conselho de outro Ricardo, que não é nem nunca foi nem nunca quererá ser num expert de sedução: se querem que alguém se apaixone por vocês basta lidarem com todas as situações com honestidade na presença dessa pessoa. Se querem eventualmente criar um futuro com alguém, que caiam as máscaras, e o que tiver de ser será. Esqueçam estas fórmulas feitas de charlatães como La Ruina porque as relações humanas têm demasiadas variáveis para serem quantificáveis num pseudo-tutorial como este.

E com este momento Gustavo Santos, me despeço, com amizade.