Releiam novamente o título. Eu sei que a grande maioria leu “À procura do Duo Ouro Negro”, o que, sendo legítimo, não é o que eu queria que lessem. A banda de Raul Indipwo e Milo MacMahon que espalhou a cultura angolana e africana pelo mundo (em especial o lusófono) merece ser lembrada com, mas não são eles o motivo deste artigo.

Com o recém lançamento do DLC The Heat is On, pareceu-nos a oportunidade perfeita para entregar um episódio da Caça ao Indie ao Vivo no Twitch a Turmoil, o jogo passado no final do Séc. XIX em plena febre do petróleo.

À partida um jogo dedicado a exploração petrolífera parece uma ideia tão ganhadora quanto um simulador de simuladores de entrega de IRS e de IMI (sem bloqueios do site do Portal das Finanças) – coisa que se vier a existir exijo encarecidamente que me dêem o devido crédito pela ideia – mas é curioso como é que Turmoil consegue construir uma experiência mais casual com a temática, e não o tycoon clássico que eu estava à espera.

O melhor de não saber o que se esperar é a abertura que temos para sermos surpreendidos, e Turmoil fez isso mesmo. A sua abordagem de puzzle/gestão de risco e investimento é estranha de se explicar mas divertida de se mergulhar. Antes então de falar do porquê de achar que Turmoil é um jogos surpreendente e que pensa de forma criativa como tornar um tema aparentemente aborrecido em algo interessante (sim, eu sei que estão a pensar no velhinho jogo de tabuleiro Petróleo da Majora), o melhor que podemos fazer é tentar explicar como se processa cada nível neste jogo do estúdio Gamious.

Turmoil é uma abordagem quase-casual, quase-arcade ao que conhecemos da corrida ao petróleo no território norte-americana na viragem para o Séc. XX. Aqui estamos a competir contra três personagens para ver quem consegue amealhar a maior soma de dinheiro. Para isso temos de licitar por talhões de terreno que iremos explorar dentro de tempo limite, e ao final de cada “nível” fazer contas à vida.

Cada nível é bidimensional e funciona quase como um puzzle game. Temos de contratar vedores para procurarem poços de petróleo subterrâneo com uma varinha de rabdomante. Assim que ele nos assobia a indicar que encontrou petróleo, temos de construir uma torre de extracção no local e lentamente ir perfurando o chão em busca de petróleo. Visto que a extensão dos canos de perfuração custam dinheiro e que é impossível de os apagar, o processo de perfuração tem de ser cuidado à medida que vamos descendo na vertical para encontrar o ouro negro.

De ambos os lados do mapa temos duas companhias que nos irão comprar o petróleo mas cujos valores de compra flutuam a todo o momento, obrigando-nos a redireccionar as nossas carruagens para onde o lucro é maior. À medida que vamos contratando mais vedores e construindo mais torres de extracção o volume de petróleo aumenta e ou compramos silos para os guardar ou vendemos constantemente. A velocidade e o número de carruagens para esta tarefa pode implicar ou não a nossa capacidade de escoar todo o petróleo que recolhemos. Se não dermos vazão as torres começarão a ter derramamentos, e não só estamos a perder lucro como teremos avultadas multas no final do nível que nos vão cortar seriamente o orçamento. E já que temos um tempo limitado para extrair petróleo, temos de rentabilizar tudo em tempo real, e se quisermos podemos abandonar o nível mais cedo e receber um bónus monetário por isso.

As mecânicas base são praticamente estas, ao qual se adiciona o conhecimento de que não conseguimos cruzar canalizações e que de início só podemos anexar duas brocas para acelerar a extração.

À medida que o jogo avança há uma série de colonos que se instalam e que nos vão permitindo adquirir upgrades permanentes às nossas carroças, torres, silos, vedores e até dotar-nos de toupeiras e sondas, para além de podermos subornar as empresas compradoras e até os fiscais que nos multam em caso de derrames.

Os upgrades vão estando disponíveis para compra por todos os concorrentes, e vão sendo necessários à medida que o jogo avança e novas mecânicas/obstáculos são introduzidos nos terrenos, como pedras que necessitam de brocas especiais e diamantes que podem ser recolhidos por toupeias, passando por gás natural.

The Heat is On introduz uma série de novas mecânicas a serem incorporadas de forma progressiva e que circundam quase todas o magma, as suas dificuldades enquanto obstáculo de terreno. Com novos personagens e novos mapas para explorar, este DLC vem estender um jogo que nos deixa agarrado às suas lógicas simples mais tempo do que acreditaríamos que fosse possível.

Turmoil e The Heat is On são um brilhante exemplo de como construir um jogo interessante, descomprometido, a partir de uma premissa aparentemente aborrecida. Um indie divertido que estava soterrado na to-play list e que tive a oportunidade de finalmente experimentar em primeira mão. E um daqueles que certamente vos vai preencher as medidas mesmo em sequências curtas de jogo.