Mais um Ia-me Esquecendo. Este chega-nos às mãos enferrujado. A análise preliminar do Professor Machado a Titanfall 2 acabou por não ter o devido desenvolvimento, pelo que tirei a ferrugem do Origin e, aproveitando o facto de o jogo constar na Origin Vault (que é uma coisinha interessante até), decidi dar umas voltas por lá.

Não sou avesso ao Multiplayer, como o amigo Machado, mas apesar de tudo, gosto de começar pelo princípio. E o princípio é, ou devia ser, a campanha. E a campanha de Titanfall 2 é, em 2018, estranhamente refrescante, para um jogo que saiu em 2016. No sobrepovoado mundo dos shooters, Titanfall 2 ergue-se e destaca-se pela diversidade de mecânicas introduzidas e sugeridas.

Umas são óbvias: controlamos um Titan. E o que é um Titan, perguntam vocês? Bem, é uma espécie de Transformer preso no seu estado antropomórfico. Mas este leva um humano lá dentro.

Tenham medo. Tenham muito medo!

As vantagens da utilização de um humano naquele cockpit são razoavelmente difíceis de esmiuçar, talvez por não ter jogado o primeiro jogo da série. A verdade é que o Titan tem uma Inteligência Artificial muito elaborada, que lhe confere a autonomia para decidir, agir e lutar sem grande assistência da nossa parte. Mas, volta e meia, saltamos-lhe para as entranhas e controlamos a máquina que parece saída de Pacific Rim, embora mais pequena. Cada Titan vem convenientemente armado, prontinho para semear a morte e a destruição.

Há uma guerra entre duas facções de humanos. E, como em todas as guerras da História da Humanidade, o melhor é mandar outros lutar por nós. E é isso que os Titans fazem. Embora, como disse, eles depois possam levar uns humanos lá dentro para controlar as coisas no calor da batalha. Claro que, a julgar pelo desempenho do “nosso” BT (ele tem mais números no nome, mas o nosso personagem chama-lhe “BT”, o que não deixa de ser uma bonita homenagem a um homem que, como todos sabemos, sempre adorou robots… ainda que fossem só de cozinha) ele precisa tanto de nós como nós precisamos de pelos na língua. O Titan é uma espécie de totó de óculos que sabe sempre tudo, fez os cálculos até à vigésima quarta casa decimal e cozinhou um almoço impecável com 5 pratos Indianos de galinha, cordeiro e lula enquanto matava trezentos e onze inimigos e dizia uma graçola. Mas claro, claro que ele precisa de nós.

Warren Beatty. Get it? No? Warren… BT?

Torna-se então difícil perceber para que raios aquela máquina virtualmente indestrutível, inteligente e rápida precisa de nós para algo mais que chegar aos sítios onde ela não chega. Mas deixemo-nos de embirrações. Acabámos por fazer uma parelha forçada com o BT. E é fixe ir lá dentro em God Mode a desbaratar dezenas de inimigos só com uma mão, enquanto comemos uma banana com a outra, com aquele ar de descontração distante ultra-cool. O desafio aí são os outros Titans. E aí há algum desafio. Controlar os cooldowns das nossas habilidades, as munições, defender quando é preciso, atacar quando é pertinente. Depois, a componente MOBA salta aqui pela primeira vez à vista, com uma espécie de Ultimate ability que desbloqueamos ao fim de um tempo. Tudo isto para mais que um punhado de armamentos diferentes. Cada arma traz consigo um conjunto distinto de habilidades e configurações. Interessantes, diversas, mas mantendo uma facilidade de utilização e apreensão que ajuda a temperar o jogo sem quebrar muito o ritmo da acção.

Volta e meia, ciclicamente, lá chegamos a uma área onde o nosso BT não pode entrar devido à sua estatura. E cabe-nos então a responsabilidade de aceder ao recôndito local X para activar a alavanca Y a voltar para os braços (literalmente) de um Titan que, entretanto, levou a cabo uma verdadeira razia com os inimigos que dele se iam acercando. E é aí que nos distinguimos dos comuns mortais. Os outros são soldados. Nós somos pilotos. Temos um sistema todo catita para caminhar pelas paredes, saltar da altura de vários andares sem ficarmos espalhados por 15 metros quadrados de pavimento e curar o dano que nos forem infligindo. É um sistema todo jeitoso. Tanto que não se entende porque é que o resto dos soldados inimigos não o têm também, à excepção – lá está – dos seus pilotos, mas esses andam dentro dos Titans. Determinadas partes da campanha foram assim criadas em jeito de puzzle-platformer-3D para que, usando as potencialidades do nosso fato, logremos atingir o que de outra forma seria impossível. A dada altura, quando o ciclo se torna relativamente óbvio, torna-se maçador e ameaça tornar-se previsível – luta a pé, luta no Titan, luta a pé, luta no Titan… mas o jogo lá acaba por temperar a coisa devidamente com uns twists e com a inclusão de coisas novas.

Uma das coisas novas é o conceito de viagem temporal. Naquela que é uma das melhores secções de jogos de que me recordo nos últimos anos, a controlar apenas o piloto, com a incansável e pertinente voz off do BT, vamos calcorreando as entranhas de um edifício entre o presente e o passado, num puzzle multidimensional original, desafiante, devidamente enquadrado na história e muito, muito bem feito. É daquelas secções de um jogo que nos apetece rejogar uma e outra vez, saltando entre uma linha temporal e outra, esquivando inimigos e perigos, abrindo portas e despachando os nossos antagonistas de formas que vão muito, muito além do mero point and shoot. Brilhante!

A campanha leva-nos então por um conjunto diversificado de níveis e batalhas, com alguns Titans controlados por mercenários a serem encarados como Bosses. Bem feita, original, diversificada, interessante. Só pela campanha o jogo já valeria a pena. Mas mergulhei também no Multiplayer e encontrei uma mescla entre um Battlefield e um MOBA. Mapas razoavelmente amplos, recheados de jogadores – e o jogo já não é novo! – na pele de pilotos. Pelo meio, Grunts anónimos. Fáceis de matar, funcionam como os minions do League of Legends ou os Creeps do Dota 2, permitindo-nos angariar pontos e experiência para ficarmos mais fortes. Mas são só a entrada numa refeição em que os Pilotos e os Titans inimigos são os pratos principais.

É uma luta frenética, limpando os Grunts inimigos, apontando aos Pilotos e procurando pontuar primeiro na experiência necessária para adquirir um Titan. Aí as coisas mudam de figura e temos uma postura diferente perante o campo de batalha. Os Titans inimigos são adversários à nossa altura. O resto é, na maioria, carne para canhão. isto salvaguardando Pilotos devidamente equipados e preparados para enfrentar um Titan. Na refrega, compete-nos ir fazendo o nosso papel e angariando a experiência necessária para usufruir da Ultimate ability do nosso Titan, para que possamos matar ainda mais e de forma mais eficiente. Parece simples, mas não é, e o equilíbrio entre as diferentes mecânicas e estratos de jogo em Multiplayer é digno de registo.

Acrescenta a esta complexidade tudo aquilo que vai sendo mais ou menos normal e previsível. Novos Titans para desbloquear, novos armamentos, novas camuflagens, pinturas, poderes, etc… Um incentivo grande à iteração das jogatanas online. E mais uma razão para recomendarmos vivamente este Titanfall 2.