Jogos de cartas são um dos meus calcanhares de Aquiles no Kickstarter, senão o maior. Há tantos géneros de card games que me agradam que a pilha de novos board games crowdfunded que me têm chegado nos últimos meses levou-me a ter de comprar um móvel novo só para os guardar.

Eu que nunca fui sequer adepto da parte competitiva, e comprei Magic the Gathering, Pokémon Trading Card e Digimon Collectible Card Game apenas pelo prazer observar as suas ilustrações, mas hoje em dia board games mais ou menos casuais quase exclusivamente dedicados a cartas ocupam grande parte das oportunidades que tenho em sentar família e amigos à volta da mesa para jogar.

Tirando poucos casos, houve sempre algo que me afastou de videojogos baseados em card games. Excepções para as adaptações de Magic, Hearthstone (no início, e depois de um hiato de dois anos senti que já tinha perdido o fio à meada para sequer tentar não levar valentes tareias de outros jogadores), e o velhinho Digimon Digital Card Battle que me entreteve numas férias de Natal inteiras.

O mercado tem inventado excelentes interligações de videojogo e card games, muitas das vezes a tentar seguir o filão dourado de Hearthstone, noutras vezes a tentar simplesmente criar algo novo. É sem sombra de dúvida essa a tarefa de Prismata, lançado em Early Access pelos Lunarch Studios.

Cruzar um card game com turn-based strategy não é coisa nova, mas Prismata consegue fazê-lo senti-lo novo pela robustez com que implementa um mindset de jogo de estratégia em que as cartas são um veículo mecânico para um fim. Incorporando um fio condutor narrativo em que a Humanidade há muito colonizou o espaço, criando novas civilizações, e em que a sua paz e felicidade são subitamente ameaçadas pelo aparecimento de uma civilizações de vida artificial que quer o mesmo que nós: expandir e dominar.

Prismata contém combate (ora não tivéssemos nós à nossa disposição unidades atacantes e defensivas) mas é a economia e gestão de recursos o foco de todo o jogo. Para conseguirmos recolher recursos (que por sua vez usamos para comprar novas cartas) necessitamos de construir unidades que nos conferem esses valores no início de cada turno. A gestão e direccionamento de que tipo de unidades de produção de recurso vamos construir é parte da táctica que levaremos a cabo para derrotar o nosso adversário.

Ao contrário de outros card games em que baralhos muito fortes conseguem facilmente eliminar um mais fraco, Prismata decidiu colocar os jogadores em pé de igualdade e permitir que seja a sua habilidade o factor diferenciador entre o sucesso e a derrota. No início de cada jogada é o próprio jogo que constrói um baralho igual para cada jogador, dotando-os de armas e possibilidades iguais para conseguirem chegar à vitória. As unidades disponíveis são exactamente as mesmas e a capacidade de adaptação e gestão de recursos é que vão ditar a vantagem de um sobre o outro.

Pensando na realidade de que é muito difícil ter uma abordagem competitiva num jogo indie em Early Access, os Lunarch Studios incorporaram uma variada oferta em termos de conteúdo single player para que Prismata não seja um nado-morto com a falta de jogadores online, e que vão da campanha com elementos narrativos até desafios e puzzles utilizando as suas mecânicas de card game.

Apostar em Prismata neste momento e nos 29,99€ que custam pode ser uma boa aposta se querem ajudar um excelente jogo que é mistura de géneros a chegar a bom porto, ainda que eu acredite que para além das micro-transações para comprar novos packs e da falta de jogadores online que o jogo será lançado em free-to-play, e todos os “investidores” que o compraram receberão alguma compensação in-game. Prismata é um bom jogo e diferente no mercado dos card games, mas perante a oferta dentro do género diria que seria melhor esperar que o jogo seja lançado definitivamente, e poderem viver toda a sua criatividade naquilo que espero que venha a ser uma experiência totalmente gratuita.