Um dia vamos olhar para trás e perceber que a guerra desta geração foi menos renhida ainda do que nos lembramos. Se as vendas são um indicador do abismo de adopção da PS4 versus a Xbox One, é a vivência das diversas E3 desta geração onde se ausculta as companhias e se percebe que trunfos têm na manga. É que pode existir uma correlação entre as vendas de uma consola e a qualidade e diversidade de exclusivos, mas nem sempre. Que o diga a Wii U.

Como já diversas vezes disse ao longo destes dias, seja nas transmissões no Twitch, seja por escrito, eu tinha a certeza que este E3 ia ser amena. É provavelmente a penúltima edição desta geração de consolas domésticas, e muitos dos títulos que iam ser falados já estavam anunciados e tiveram aqui o palco da sua confirmação.

Estava a ler a genial leitura do Mota sobre o evento e tive de concordar com ela em quase todos os comentários que fez às companhias, acertando no ponto certo em relação à PlayStation. A companhia anda há alguns anos a apresentar sucessivamente títulos exclusivos de qualidade superior, andando ano-após-ano a lançar jogos que e/ou são killer apps da sua plataforma e competidores a jogo do ano. O que se espera dela é este patamar de qualidade, com os estúdios a si afectos a superarem-se de ano para ano.

Mas sabem porque é que a Sony chegou ao ponto de qualidade em que apresenta meia dúzia de títulos numa E3 e torna alguns deles verdadeiros showstealers do certame? Porque a competitividade que a Microsoft a obrigou na geração anterior obrigou-a a step up the game, e isso ainda se sente nos dias de hoje. Quem me lê sabe que não podia estar ideologicamente mais longe dos modelos capitalistas. Mas há algo que lhe reconheço: a competitividade leva a uma superação constante, e em extremo à melhoria do mercado e dos objectos criados, e ao final do dia quem ganha com isso somos todos nós.

A Sony veio assim à E3 com a postura de vencedor, de saber que não tem nada a perder e pouco a ganhar, e isso conferiu-lhe uma postura isenta de tensão. Algo similar à salutar postura da Xbox mas por razões diferentes. Veio a jogo para jogar, sem trazer trunfos na manga mas a fazer uma boa exibição mesmo assim. Sem ter que suar o jogo todo mas terminar a partida ainda com a coroa de vencedor na cabeça. A PlayStation não trazia novidades mas isso não implica que não tivesse surpreendido quase toda a gente com a sobriedade das suas apresentações. Com o devido paralelismo futebolístico, faz-me lembrar os campeonatos em que o primeiro classificado é campeão muitas jornadas antes do fim da temporada, e a forma como passa a ver todos os jogos que tem de disputar a partir desse momento.

Não sei quando The Last of Us 2 chegará, se no final desta geração ou no início da próxima mas é impossível não olhar para ele como o grande jogo desta E3. Há muito que a Naughty Dog confirmou o seu papel único do mercado e cada nova criação sua leva os videojogos um pouco mais longe. O que vimos de gameplay é técnica e mecanicamente brilhante, sendo impossível não ficar deslumbrado com o detalhe visual do jogo. Tenho pena dos jogos que concorram pela atenção e pelo poder económico dos jogadores no momento em que The Last of Us 2 for lançado. É sempre difícil combater um vencedor apriorístico. Não é impossível, porém.

Ghost of Tsushima é uma nova PI que não sendo novidade teve nesta E3 o ar de sua graça. E que graça trouxe. Com a sua interpretação/representação da linguagem estética de Akira Kurosawa e Ang Lee, e até conseguimos ver momentos do Herói de Zhang Yimou. Tudo isto vindo de um estúdio que nos tinha habituado a uma abordagem específica, a dos super-heróis  ambiente urbano e que aqui pode ter mostrado uma tremenda evolução e uma ascensão a um novo patamar. Ver a Sucker Punch fazê-lo não é, porém, surpresa, se pensarmos no salto qualitativo tremendo que a Guerrilla teve com Horizon: Zero Dawn em oposição aos seus anteriores títulos. 

As imagens de Spider-Man anunciam um dos grandes títulos de super-heróis dos últimos anos, com a Insomniac a seguir o trilho deixado em aberto pelo que a Rocksteady definiu como standard para o subgénero. A poucos meses de chegar ao mercado, o novo jogo protagonizado pelo alter-ego de Peter Parker é um dos jogos que eu espero com maior ansiedade desde que foi revelado na E3 anterior, e depois de termos visto mais pormenores será certo o sucesso comercial, especialmente numa época em que Marvel voltou a ser sinónimo de ouro.

De anúncios propriamente ditos ficamos com Nioh 2, o excelente momento de revelação do remake de Resident Evil 2, o novo jogo dos criadores de Max Payne com o nome Control, Trover Saves the Universe de um dos criadores da série de animação Rick & Morty e Déraciné, um jogo para PSVR feito pela FromSoftware.

Os primeiros momentos de gameplay de Death Stranding foram finalmente revelados, mas são extremamente difíceis de descortinar para quem, como eu, nunca consumiu qualquer tipo de estupefacientes. Aguardemos então lá em que ano é que Kojima vai finalmente lançar o jogo para sabermos o que aquilo vai ser. Nota mental: pode vir a ser um Tetris mas com bebés cósmicos. As possibilidades para este jogo são virtualmente infinitas.

Apesar da PlayStation ter vindo a jogo sem ter de fazer grande esforço, com uma postura sóbria e focada quase exclusivamente nos jogos (como a companhia já nos habituou nos últimos anos) houve porém uma espécie de faux pas em toda a apresentação. Desde o advento e solidificação da qualidade de streaming, a E3 são duas experiências distintas: uma para quem está presente e outra para os milhões para quem está a ver em casa. A mudança de espaço físico entre o celeiro de The Last of Us 2 e o auditório onde decorreu o resto da conferência é uma ideia diferente e interessante para quem estava em LA, mas acarreta problemas simples. Os quinze minutos de “intervalo” de stream com um painel a “encher chouriços” enquanto os media presentes mudavam de sala foram uma quebra de ritmo terrível e que quase podia ter penalizado o evento como um todo. Haviam formas de minimizar este tempo morto que não passassem por ter pessoas sentadas a uma mesa de telejornal, e que passariam por exemplo por ter uma sequência pré-gravada para manter em alta o bom momento e o entusiasmo criados por The Last of Us 2. É que a presença dos media e convidados in loco são importantes, mas a Sony não se podia esquecer que grande parte dos espectadores em stream das suas conferências são consumidores finais.

Ainda assim este erro não manchou uma boa conferência, sóbria e sem grandes surpresas. A Sony “veio a jogo” sem praticamente nada a perder ou a ganhar, vindo apenas cimentar a sua posição confortável e inquestionável no mercado doméstico de entretenimento, mostrando um pouco mais dos títulos que tem no bolso e que têm sido vários coups de grace numa guerra já vencida há muito. Os exclusivos são a sua grande arma e foi com eles que a Sony atacou mais uma vez a E3, trazendo para mim aquele que foi o grande jogo de toda a E3, The Last of Us 2.