Este é o momento que separa a juventude da malta mais velhota que ou já fez o seu primeiro exame à próstata obrigatório ou está prestes a fazer. Isto no caso dos homens é claro. Quantos de vocês ao lerem este título não começaram automaticamente a ouvir a voz do Carlos Alberto Moniz a cantar

Vamos fazer amigos entre os animais

Que amigos destes não são demais na vida

Que vêm aqui mostrar

Que têm uma família como eu e tu (…)

?

Foi muito pouco tempo depois deste famoso programa do Canal 1 de seu nome A Arca de Noé que a verdadeira febre dos dinossauros se tornou global e esfuziante. Não comigo, que eu desde pequeno já era uma espécie de hipster dos nerds e já andava febril desde o final de 1990 quando as minhas primas me emprestaram a edição em português do Parque Jurássico do Michael Crichton, editado pelo Círculo de Leitores. Daí a tentar arranjar tudo o que era informação sobre dinossauros e desenvolver uma vontade tremenda de ser paleontólogo (que nunca se cumpriu) e que teve o seu expoente máximo em 1993, quando Spielberg adaptou a obra de Crichton ao cinema num dos filmes com maior impacto global do final do século passado. O coprólito no topo do bolo fóssil? A edição em português pela Planeta Deagostini dos fascículos enciclopédicos da revista Dinossauros.

Ainda hoje acredito que esta paixão pelos dinossauros é cíclica, e depois de esmorecer durante cerca de vinte anos, é curioso ver o meu filho mais ou menos com a idade que eu tinha quando caí no abismo da curiosidade dos dinossauros a ter contacto com a sua pré-existência e a ter um fascínio por eles. Diga-se de passagem que ainda hoje acredito que seja impossível não ter esse fascínio. Primeiro pela ideia destas criaturas titânicas que habitaram o nosso mundo milhões de anos antes de existirmos e segundo porque há muito nessas mesmas criaturas que as aproximam de obras de fantasia.

Jurassic Park voltou ao cinema, agora com Chris Pratt a substituir o lugar deixado vago de forma compulsiva por um dos meus actores favoritos de sempre, Sam Neill, e com ele chegou aquela que ultrapassou o jogo Jurassic Park da NES como a minha adaptação a videojogo favorita da obra de Crichton. Ou a segunda se contarmos também com o maravilhoso jogo da Lego.

Jurassic World Evolution foi lançado há menos de duas semanas e é muito possível que se tenham cruzado com ele pelo meio da cacofonia da E3. A minha primeira surpresa para com a decisão do seu criador, o estúdio Frontier Developments, de fazer um business manager/park tycoon ao invés de mais um jogo acção em torno da franquia. Esta ideia é aquela que muitos fãs da série sempre tiveram, a de criar e gerir a sua própria versão do parque.

Rapidamente percebemos o quanto este business manager é fruto do mercado de 2018. Longe de tantos outros bons exemplos do género cuja barreira de entrada elevada e a exigência táctica é extrema, Jurassic Park Evolution é, do ponto de vista das exigências de gestão, bastante simples. A progressão e complexificação do jogo está protegida atrás de barreiras de contratos (quests) que vão sucessivamente desbloqueando novas tecnologias, novas ilhas e novos dinossauros.

Jurassic Park Evolution tem o mesmo nível de exigência de gestão que, num espectro diferente, terá um jogo de The Sims. São jogos acessíveis à maioria das pessoas em que as tecnologias são alcançáveis com menus simples e quase sempre investindo dinheiro nelas.

 

O nosso jogo e as nossas missões estão divididas em três áreas distintas: Ciência, Entretenimento e Segurança, cada uma gerida por um adviser diferente e que faz parte da série de filmes (e livros). Jeff Goldblum é, por exemplo, um dos actores que empresta a sua voz ao seu personagem Ian Malcolm e que marca a sua presença neste jogo. As missões que nos são disponibilizadas têm ligação com as respectivas áreas onde estão integradas e em algumas situações deixou-me algo aborrecido que na aleatoriedade de receber novos contractos que me surgissem alguns que eram temporalmente impossíveis de resolver por estar num momento de campanha que tornavam a resolução da missão inacessível.

A componente de gestão do parque enquanto centro de atracções é diversificada mas não é detalhada o suficiente para, por exemplo, termos um controlo ainda maior da economia e do equilíbrio financeiro do parque numa escala de micro-gestão.

As novas tecnologias, a exploração de novos fósseis, a desencriptação do genoma de novos fósseis são tarefas temporizadas cujos ecrãs são onde iremos passar grande parte do tempo. Aqui o que interessa é se temos ou não dinheiro para levar a cabo essas tarefas e pouco mais, adicionando o número de tarefas simultâneas de cada um desses elementos que podemos fazer, dependendo do número de equipas de trabalho que possuímos.

Sendo um jogo de gestão quase tudo se resume a dinheiro, e a clonagem de uma grande diversidade de dinossauros é sem dúvida o foco do jogo. São mais de 40 dinossauros que podemos “descobrir” na totalidade com imensas alterações ao seu genoma que não só diminuem a viabilização da eclosão dos seus ovos, como podem tornar algumas criaturas verdadeiramente imparáveis. A minúcia das “vontades” e “confortos” de cada dinossauro são tremendas e são o momento mais complexo do jogo. Se numa zona de cativeiro tivermos uma série de Stegosaurus e lá colocarmos um terópode como um Ceratosaurus, é certo que eles vão começar a combater (cada dinossauro tem stats associados de HP, defesa e ataque, entre outros) e cedo vamos começar a ter cadáveres de dinossauros no nosso parque.

A gestão dos funcionários do parque é relativamente simples e conseguimos resolver grande parte dos problemas que surgem no parque com um ou dois cliques e o tempo que lhes demora a resolverem as tarefas. Uma adição interessante de Jurassic World Evolution é podermos controlar os helicópteros e jipes do pessoal do parque e sermos nós mesmos na terceira pessoa a ir substituir a comida aos animais, curá-los das doenças, tranquilizá-los quando entram em fúria, entre uma série de tarefas que podem ser levadas a cabo em modo manual ou “automático” após alguns cliques.

A probabilidade de terem dinossauros a escaparem do cativeiro é certa, por muitos cuidados que tenhamos na infraestrutura. Seja por sabotagens das instalações, falhas da corrente eléctrica, por tempestades que destruam componentes do parque, ou mesmo por ineficácia das cercas. Até os helicópteros estarem disponíveis para tranquilizar as criaturas e voltarem a transportá-las para cativeiro ainda vão existir muitos visitantes mortos, e as indemnizações avultadas que vamos ter de pagar são sempre um contratempo na nossa expansão do parque.

O detalhe dos muitos dinossauros é algo que merece o close up que a câmara nos permite, e não apenas quando estes iniciam um combate. A minúcia na sua criação vai além da excelente parte visual, e as características que temos de ter em atenção para que eles tenham as melhores condições possíveis são uma verdadeira pérola deste jogo.

Se a campanha tem este ritmo herdado dos jogos mobile de irmos progredindo de quest em quest e ganhando estrelas no rating do nosso parque, até que ao chegarmos pela primeira vez às 5 estrelas se destranca o melhor momento deste jogo: o modo sandbox. No modo campanha nós temos um ponto de partida do qual temos de conseguir evoluir, seja um parque devastado pela tempestade ou outro no limiar na bancarrota. No modo sandbox é onde pomos em acção tudo o que aprendemos e desenvolvemos e tentamos provar a John Hammond que somos melhores gestores/entrepreneurs do que ele.

Para além de uma certa superficialidade estratégica que decerto deixará desiludidos alguns fãs fervorosos dos management games, o grande ponto negativo deste jogo, para mim, é o seu preço. Dificilmente consigo defender que por muito divertimento que tenha dentro deste Jurassic Park tycoon, os cerca de 54,99€ não serão demasiado caros. Aproveitar uma franquia tão forte quanto esta num jogo extremamente bem conseguido, ainda que não tão denso nem complexo como gostaríamos é um pouco excessivo. Mas é obrigatório para todos os seguidores do género e/ou de Jurassic Park, pelo menos quando estiver com desconto. Que é praticamente toda a gente. Digam-me alguém que não goste de dinossauros ou não quisesse brincar com um parque de diversões cheios deles e eu digo-vos já que essa pessoa não existe, ao contrário dos dinossauros que foram bem reais. E talvez os unicórnios, mas desses não tenho a certeza.

Jurassic World Evolution está disponível para PC, Xbox One e PS4.