Caçada Semanal #166

Um dia este vai ser um diálogo plausível entre uma família humana:

Está um bocado mau tempo hoje – diz o pai.

Tinha lido o Boletim Meteorológico e dizem que é por causa de uma frente fria electromagnética que vem dos Balcãs – responde a mãe.

Mas tínhamos aquela ida ao parque hoje… – relembra entristecido o filho.

Podemos ir comer um gelado a Marte! – relembra a filha.

Vamos então! – diz a mãe enquanto pega nas chaves do veículo monobloco de transporte interplanetário da família.

O nosso fascínio por Marte só tem aumentado à medida que se torna plausível ir até lá. Claro que neste momento o bilhete é só de ida, mas para os avanços tecnológicos que já tivemos nas últimas décadas quem sabe se em 100 anos fazer visitas ida-e-volta aos primos que emigraram para Marte não é uma coisa perfeitamente corriqueira?

Em termos de videojogos esse fascínio tem sido óbvio, com imensos jogos a surgirem e a terem o planeta vermelho como cenário. São o caso dos 3 indies desta caçada.

Memories of Mars

Já tivemos oportunidade de jogar alguns survival games single player em Marte, quase todos passando pela mesma premissa e que é inspiração em The Martian. Memories of Mars parte do mesmo pressuposto, fazendos-nos controlar um clone humano acabado de acordar no planeta vermelho e que percebe que o sonho de colonizar Marte está morto.

Resta-lhe (e a nós) vaguear pela superfície do planeta à procura de formas de sobreviver aos impiedosos ventos solares que são verdadeiramente mortais. O que Memories of Mars tenta trazer para a refrega, ainda que não seja algo novo, é esta contínua febre de open world multiplayer survival games, em que jogadores presentes no mundo/servidor têm de partilhar recursos (ou lutar por eles) para sobreviverem.

O grind neste título é grande, especialmente porque não existem assim tantos jogadores nesta fase Early Access que permitam uma junção de esforços eficaz ou o simples PVP do qual consigamos recolher recursos dos nossos adversários caídos. A moeda deste jogo, FLOPS, serve não só para irmos investigando novos utensílios, mas também para irmos pagando a manutenção das nossas construções. A forma de as obter é variada e é muito clássica em MMORPGs, existindo eventos globais onde podemos conseguir os FLOPS que precisávamos para aquela construção ou aquele upgrade, ainda que qualquer jogador à espreita nos pode matar por elas ou simplesmente roubar.

Memories of Mars é interessante e é indicado para quem gosta de jogos FPS do género, como Rust, ainda que a falta de jogadores pode seriamente evidenciar o quão repetitivo o loop de grind é. Para quem nunca ficou contagiado com a febre dos multiplayer survival games, é pouco provável que seja o jogo que vos vai fazer mudar de ideias. Mas nunca se sabe.

Mars or Die!

Há qualquer coisa na ideia de Marte que parece atrair game devs a fazer jogos de sobrevivência, ou similares, a passarem-se no planeta vermelho. Mars or Die!, desenvolvido pelo estúdio 34BigThings chega-nos daqui a 2 semanas mas já tivemos a oportunidade de jogar a um jogo baseado em ideias originais, ou pelo menos na combinação de ideias interessantes.

Prometer um roguelite com toque de tower defense, mesclando acção e estratégia não é coisa nova. Mas Mars or Die! põe-nos a controlar 2 exploradores em simultâneo que precisam de explorar a superfície marciana à procura de recursos para construir a sua base e as suas defesas. Mas as limitações das botijas de oxigénio obrigam-nos a voltar à base com alguma frequência para encher os tanques e podermos voltar à acção.

Os criadores dizem que o loop deste jogo baseia-se em recolher-construir-explorar-lutar-melhorar e é um ciclo interessante o suficiente para fazer dele uma verdadeira lufada de ar fresco em jogos sobre Marte. E não, esta não foi uma piada feita por causa das limitações de oxigénio.

Elea

O primeiro episódio deste jogo narrativo sci-fi chegou ao Steam e é um grande acenar para chamar a atenção de quem tem dispositivos VR em casa e quer experiências imersivas diferentes.

Visualmente deslumbrante, assim que somos “despejados” nesta estação espacial todo o tom é evocativo da não-linearidade de 2001: a Space Odyssey. A obra de Kubrick é obviamente a grande influência para o que ela quer ser, em que ao invés de seguirmos um linha estática de história vamos tentando descobrir o porquê da nossa protagonista estar a investigar o fado do seu marido, Ethan. Se de alguma forma isto vos relembra QUBE 2, desenganem-se, que Elea pode ser um jogo interessante ainda que em Early Access, mas as brincadeiras de assimetria narrativa entre o mundo “real” e o virtual onde a protagonista vai reaver as suas memórias talvez sejam um pouco ambiciosas para o tamanho e talento da equipa de desenvolvimento. Mas veremos como será o lançamento final para avaliar.

A outra indefinição deste jogo é o ping-pong que faz entre exploração narrativa, ou walking sim, como algumas pessoas dizem, e um puzzle game, alternando o tom de jogo da forma como mais lhe convém.

Elea está ainda em alpha mas vai precisar de muita definição dos seus criadores, especialmente do ponto de vista rítmico, para que a complexa história não-linear que está a ser contada não seja prejudicada pela incapacidade de se atingir o que se quer cumprir.