Terminaram esta semana os Qualificadores Abertos para o The International 8. O torneio de eSports que decide o make-it-or-break-it para muitos jogadores tem esta espécie de democracia de entretenimento. Não é a fórmula perfeita ainda, mas aqui entre nós, anda perto disso. A Valve decidiu regrar o ciclo competitivo que culmina no The International e este ano impôs o seu DPC, Dota Professional Circuit. Criou uma estrutura de apoio, regrou Majors e Minors, liberalizou-os quanto baste, abrindo as portas ao investimento privado, mas controlando e apoiando o suficiente para ter uma voz a dizer, cobrindo o valor do prémio de jogo que o organizador adianta. Assim, para um Major, o organizador entra com um mínimo de 500.000 dólares e a Valve entra com outro tanto, compondo um ramalhete de um milhão a que se juntam os Pontos de Qualificação necessários para merecer um convite para o mais desejado torneio deles todos. One tournament to win them all… Para os Minors, a mesma lógica, com um investimento menor e, claro, com menos pontos em disputa.

No papel, tudo faz sentido. Na prática, terão existido torneios a mais e as equipas de topo sequiosas de Pontos e, vá, receptivas a dinheiro, não se esquivaram a participar em tudo quanto aparecesse e o seu calendário lhes permitisse. Ora se o primeiro aspecto leva a uma maior dispersão do público, tamanho o número de eventos com equipas de topo a competir, o segundo deita um pouco por terra o conceito dos Minors, sendo que no mais pequeno dos aquários aparecia um tubarão de 10 metros a abocanhar tudo. Sensível a isso, a Valve já reagiu e o próximo ano terá datas co-dependentes para Majors e Minors, excluindo dos últimos os que ficarem apurados para os primeiros.

Em todo caso, o circuito este ano foi rico, trouxe novidades – como a parceria da ESL com o Facebook para transmissão dos seus múltiplos eventos de Dota 2 em Livestream no site de Zuckerberg, que se revelou uma caixa de Pandora: por um lado, permite expandir as visualizações a um público fora daquele que vai sendo o habitual para este tipo de eventos, além de, claro, amealhar uma quantia significativa por parte da rede social. Por outro, terá desagradado à falange de apoio mais ferrenha deste eSport, habituada a ter o “seu” Twitch  e o seu cantinho, sem grandes ondas. Após uns atritos iniciais, a coisa lá se resolveu, com a ESL a garantir a cobertura “exclusiva” no Facebook, mas a permitir também a difusão do seu conteúdo por streamers independentes, no Twitch e noutras plataformas. Há alguma areia na engrenagem, mas a coisa vai andando para a frente.

Os longos meses de Minors e Majors deram-nos 8 equipas com entrada directa para o milionário The International. O torneio de eSports que faz milionários ultrapassou os 24 milhões de dólares em prémios no ano passado e este ano vai por caminho semelhante – pese embora o valor, incrementado diariamente, esteja algo abaixo do do ano anterior, 50 dias depois do lançamento do Battle Pass.  Assim, Virtus.Pro foram os primeiros a garantir o apuramento, depois de uma temporada em que estiveram absolutamente devastadores, vencendo os ESL One de Hamburgo, Katowice e Birmingham, bem como o Major de Bucareste e o SuperMajor da China, além do Summit 8, amealhando, além dos necessários pontos para segurar o desejado apuramento, mais de 2 milhões de dólares em menos de um ano de competição. Seguiram-se os Team Liquid que, depois da vitória do The International do ano passado, em que averbaram a módica quantia de 10.8 milhões, conseguiram a sua primeira vitória em Majors apenas recentemente, com o Supermajor da China a entrar para o seu curriculum, com outros pódios ao longo do ano a garantir perto de 1 milhão extra. Segue-se aquela que foi a mais ribombante entrada de clubes de futebol nos Esports. O Paris Saint-Germain decidiu, em Abril, juntar às suas fileiras uma equipa de Dota 2. Fê-lo indo buscar a equipa que havia ficado em 2º lugar no DAC de 2018 e a aposta compensou. No espaço de um mês, dois torneios, dois primeiros lugares no EPICENTER e no Major de Changsha e 900 mil na conta. Os franceses têm razões para estar satisfeitos com a sua aposta, e a qualificação para o The International tem tudo para os deixar mais satisfeitos ainda. Seguiram-se depois as restantes equipas a fechar o alinhamento de 8: Team Secret, Mineski, Vici Gaming, Newbee e VGJ.Thunder.

Equipas presentes no TI8 (imagem de Wykrhm Reddy)

Restavam, então, todas as outras. E é aqui que a coisa se torna ainda mais interessante. E agrada-me! A Valve cria um conjunto de Qualificadores Abertos regionais. Faz alguns convites para uma fase final, entre as equipas elegíveis, e depois deixa os miúdos divertir-se: são até 1024 equipas por área, em jogos Best of One. Tudo ao molho e fé em Dota. Há de tudo! Jogos de 5 minutos, jogos de 100 minutos, equipas com 7000 de MMR a jogar contra equipas com média de 500. Vale tudo, dita a sorte e o jogo. Oh, claro que para os espectadores, nem todos os jogos têm interesse. Mas esta é a mais genuína forma do jogo enquanto lazer e competição. Há um jogo que me ficou na retina. Não me lembro bem das equipas em causa. Sei que uma delas era uma das equipas “a seguir” por parte dos Hubs de casters (e já irei falar deles), a outra, era uma equipa amadora, com rank a rondar os 2000. A dada altura, Sheever disse o que me fez deixar esse jogo gravado. Não cito, porque não me lembro das palavras exactas, mas fica a narração: Isto é malta que trabalha ou estuda. É malta que se junta depois do trabalho ou da faculdade para uns copos e umas jogatanas. Jogam, querem competir e evoluir, mas não é – nem precisa ser – uma coisa demasiadamente séria. Para esses, jogar com jogadores famosos, vencedores de Majors ou de TIs é uma conquista por si! Ali do outro lado está o n0tail, ou o Suma1l, ou o Universe… Para esses, conseguir uma double ou triple kill contra uma equipa milionária é coisa que dificilmente esquecerão! E, arre, foi bonito de ver! Qualquer um pode participar, e há uma beleza intrínseca nisso de pôr os infantis de uma equipa da terceira divisão a jogar contra a selecção, com Ronaldo, Quaresma e companhia a dar cartas. Os miúdos não se iludem com as perspectivas de ganhar. Mas divertem-se a jogar com os seus ídolos.

Depois dos Open Qualifiers vieram os Closed Qualifiers e as 16 equipas que irão lutar pelo TI8 já são conhecidas. Jogos dramáticos, a deixarem estrelas de outrora de fora e a criar novos jogadores que, não sendo ainda estrelas, se tornaram, pelo menos, em jogadores a seguir. Destaque para os Brasileiros da Pain Gaming, que colocam a bandeira do Brasil pela primeira vez num The International, mas também para as ausências de Na’Vi ou The Alliance, eles que disputaram entre eles aquela que é vista como a melhor final de sempre, no El Classico, a final do TI3, com luta até ao último segundo num Best of Five recheado de emoções fortes. O Rei está morto, viva o Rei. Saem uns, entram outros! E, por vezes, os heróis surgem precisamente destes Open e Closed Qualifiers, como sucedeu há dois anos com os Wings Gaming. Foi um percurso pelos Qualificadores que os levou até à vitória no TI6 e ao livro dos Recordes do Guinness, como a equipa que mais recebera, até então, por um evento.

Os principais casters do jogo, responsáveis por transmitir a maioria dos eventos, promoveram, através da BeyondTheSummit, um conjunto de Hubs que garantiram a cobertura dos qualificadores quase 24/7. Assumindo uma postura informal e intimista, reuniram-se nas casas de alguns, montaram o escaparate para assegurar a transmissão e fizeram-no, horas a fio, umas vezes a saltar freneticamente de jogo para jogo, outras a tocar Ukelele nos tempos mortos entre os jogos, ou a jogar Mafia, ou jogos Indie, ou simplesmente a conversar ou a apanhar o melhor ângulo para filmar os gatos lá de casa. É uma visão mais humana dos eSports, saindo do arreigado mundo da competição e do dinheiro, saltando para o colo de caras conhecidas, com uma manta por cima das pernas, enquanto bebem um chocolate quente no sofá.

Foram centenas de jogos, em horas a fio de transmissões ininterruptas. Entretenimento puro a roubar o holofote à competição embora a tenha bem ali presente. E dá para tudo. Inclusivamente para cobrir o recente Bot TI, uma competição à parte do The International, com Bots do jogo a lutarem entre si em jeito de Battle Royale (tinha que ser!). Não são os bots mais avançados, mas entre teorias, apostas e falhanços colossais, entretém, pelo menos até à chegada do evento a doer.

E ainda falta. Junho está a acabar e Julho deverá ser o mês final de preparação do TI8, na versão 7.18, coincidentemente. Serão muitos milhões em disputa e muita gente interessada em ver se é desta que a maldição do The International é finalmente quebrada. Nunca nenhuma equipa ou jogador venceu a competição mais que uma vez, em 7 anos. Será que é desta?

Ficam mais questões por responder que só encontrarão resposta na altura devida. Será que é desta que a Valve lança Artifact, o trading card game baseado no Dota 2 que tem deixado tanta gente ligada aos TCG a salivar? Será que veremos novos heróis a entrar no jogo? Será que, depois do anúncio do ano passado do Open AI, este ano iremos ter um verdadeiro jogo entre uma equipa profissional e uma equipa do Open AI? Tudo leva a crer que sim, num tom bem mais sério que o BOT TI, a inteligência artificial deste Open AI tem vindo a dar passos significativos numa vertente até agora inexplorada: a cooperação. Mais do que o escrupuloso cumprimento das mecânicas e timings, a colaboração entre as máquinas para um objectivo comum tem sido destacada como uma verdadeira batalha em várias frentes. A julgar pelo recente vídeo, as coisas deram um salto enorme em termos de desempenho.

A julgar pela reacção de Bill Gates, é um gigantesco passo para o desenvolvimento da Inteligência Artificial. Veremos. Em Agosto, veremos.