Não é de mim ser fã ávido de jogos de telemóvel pelo menos durante mais do que 1 semana. No entanto e como em tudo na minha vida, não digo que não seja possível, e não é que foi mesmo possível? Encontrei um título gratuito nas recomendações da Play Store que me chamou a atenção, era uma reedição do famoso Romance of the Three Kingdoms da Koeipara dispositivos móveis. Instalei com algum cepticismo pois já vários tinham tentado essa mesma proeza, e todos eram péssimos a fazê-lo, a única coisa que partilhavam com o título de computador era o nome. Este jogo, disponível em Android e iOS é distribuído pela Nexon e desenvolvido pela ThingSoft. E é uma delícia.

Para quem nunca jogou nenhum título desta série de jogos de estratégia que já vai na sua décima terceira entrada sem contar com spin-offs, esta é a série que deu origem aos famosos jogos Musou da Koei, e que se baseia directamente nos romances de autoria Chinesa com o mesmo nome, livros esses que visam retratar a incrível história da era dos três reinos na China de uma forma histórica mas também com muita fantasia à mistura.

Os jogos ROTK, como são mais vulgarmente conhecidos, prendem-se numa fusão de formatos comprimida por RPG, Strategy-Simulation e Turn-based Strategy. Temos um enorme terreno repleto de cidades para conquistar e consequentemente gerir, heróis que evoluem de nível, descobrem vários equipamentos e são desbloqueados progressivamente, uma história lindíssima de traição, ambição, lealdade e amor, e por fim um sistema de combate por turnos onde podemos por em prática todas as nossas estratégias militares.

Tal como nos jogos de computador, a sua versão móvel, tenta imitar praticamente todos esses sentidos, adicionando algumas ideologias de jogo grátis sendo que por exemplo alguns heróis estão bloqueados atrás de uma paywall, bem como alguns equipamentos e cofres que ajudam ao nosso desenvolvimento. Felizmente e para bem de uma série que tanto respeito tem entre os fãs, a moeda utilizada para comprar tudo o que refiro é possível de obter meramente por jogar. Aliás, jogo há meses, ininterruptamente, e tenho acesso a praticamente tudo o que estava bloqueado por utilização de Gold Coins, a moeda premium, e nunca gastei 1 cêntimo que seja no jogo. Demorei mais tempo do que os colegas da minha aliança, é um facto, mas consegui meramente por jogar.

Outro problema para além de paywalls que regularmente me afasta de jogos de telemóvel é o incessável grind necessário para alcançar os níveis seguintes de progressão. Não vou dizer que ROTK: The Legend of Cao Cao não tem a sua dose de grinding, mas felizmente, está tão bem dissimulado que a maior parte das vezes estamos entretidos a alcançar medalhas ou treinar os nossos heróis que não nos apercebemos que estamos a “farmar” materiais necessários para evoluir armas ou equipamentos.

Seria de pensar que num jogo baseado numa época, de um país, baseado num livro, com limite de território disponível para expansão, bla bla bla (vocês percebem onde quero chegar) teria um ponto de vida curto. Assim seria de facto, se fosse apenas isso, mas temos modo de combate PVP chamado Annihilation onde utilizamos 5 dos nossos melhores combatentes para batalhar com outros jogadores em multi-jogador assimétrico. Existe um modo semanal onde tentamos ultrapassar o máximo possível de “portões” que são curtos assaltos a acampamentos fortificados de inimigos gerados e controlados por “computador”.

Isto para não falar de que conquistar todos os territórios dá uma carga de trabalho complicada, especialmente porque podem ser reconquistados por outros jogadores. Quanto mais fortes forem as nossas tropas, heróis, políticas de governação e tácticas militares, mais fácil será manter o controlo dos territórios, mas até lá ainda vai um tempo. Para além de se ganhar mais recursos por quanto mais cidades e mais evoluídas estas estiverem, temos também acesso a novos heróis para desbloquear cada vez que exploramos um novo território. E nem me ponham a falar das missões especiais que são desbloqueadas ao conquistar-mos todas as cidades de uma província.

Mais recentemente adicionaram uma ilha composta por vários pequenos territórios que só podem ser controlados por 30 minutos de cada vez mesmo que não sejam reconquistadas por outro jogador, mas em contra-partida as recompensas de conquistar estes territórios são enormes.

Em adição a estes modos interessantes, temos o meu modo favorito, o modo história. E este é talvez dos pontos que mais força terá para manter os jogadores no activo. Começámos com a história de Cao Cao, líder do reino de Wei e responsável máximo pela união da antiga china e neste momento já contamos com mais de uma dezena de histórias de outros personagens relevantes desta época e bem conhecidos dos jogadores de ROTKDynasty Warriors. Como maneira de criar mais conteúdo temos também acesso a histórias de membros menos conhecidos dos famosos exércitos e terras, e não é de todo um erro a presença destas histórias, já me diverti muito com algumas delas. Cada história pode ser completada em modo de dificuldade normal e posteriormente modo difícil assim que o modo normal for terminado. Nestas histórias, umas mais curtas do que outras, desbloqueamos equipamentos exclusivamente alcançáveis através deste modo mediante conclusão de determinados desafios.

Os diálogos das diferentes aventuras infelizmente pecam pelo problema transversal a quase todos os jogos traduzidos de Chinês para Inglês, algumas falas simplesmente não fazem sentido, felizmente são poucas e a conversa entre as personagens mantém-se perceptível mas não deixa de ser um ponto negativo.

O aspecto deste jogo faz lembrar imenso os seus primos do ecrã grande com alguns tweaks que elevam a fasquia. Em termos de variedade de personagens, algo que costuma falhar em títulos da Koei, bem, continua a falhar. As personagens mais conhecidas do público têm tudo, desde aspecto muito característico a vozes e interacções muito próprias mas à medida que vamos descendo na escala de importância, passamos a ter alguns personagens que apenas a voz e falas são características, outros que apenas o seu aspecto os distingue e no fundo da tabela, aqueles que são exactamente iguais aos soldados predefinidos mas com um nome diferente. Existe, no entanto, esperança nesta parte do jogo, pois desde o seu lançamento que já foram adicionados aspectos e vozes a personagens que não tinham anteriormente, dedos cruzados para que assim continue.

Apesar de algumas instabilidades, em termos de executável, sendo que por vezes o jogo se fecha sem aviso a meio de uma missão, e também da falta de informação sobre o jogo através de fontes oficiais, este é um jogo que vale a pena para qualquer amante de história e estratégia. Existe uma comunidade muito dedicada ao ROTK: The Legend of Cao Cao tanto no Reddit como no Plug oficial do jogo, caso queiram tornar-se mestres dos três reinos. Não se deixem assustar pelo facto de ser um jogo mobile e olhem para ele como algo mais, não se vão arrepender, eu pelo menos não me arrependi até agora e já lá vai um tempo. A gigante Coreana Nexon mostra-nos aqui que afinal até trabalha com mais do que típicos money-grabs baratos e sem interesse baseados em propriedades intelectuais conhecidas do público.