No outro dia o Matthieu perguntava-me se eu não achava que há metroidvanias demais nos dias de hoje. Com toda a ironia possível tendo em conta a última década tive de confirmar: este ano e o anterior foram especialmente profícuos em jogos do género, mas nem todos a merecerem um espacinho merecido na memória. Ainda assim existem dois jogos do género obrigatórios e que viram a luz do dia este ano: Yoku’s Island Express, do qual não me farto de falar, e Guacamelee 2, a sequela de um dos melhores metroidvanias a serem lançados fora da alçada dos pais Castlevania e Metroid.

Quando Guacamelee saiu originalmente em 2013 conseguiu cativar-nos pela mescla exímia de peças aparentemente desconexas que uniu. Do seu beat’em up clássico misturado com platforming e exploração típicas de metroidvania, da estética tão única dos DrinkBox Studios mesclada com a linguagem e as alegorias da lucha libre com um tom deliciosamente humorístico.

Esta sequela é mais do mesmo. E se dizê-lo ipsis verbis desta forma pode soar como uma tremenda crítica na maioria das vezes, em relação a Guacamelee 2 acaba por ser um elogio, porque “mais do mesmo” é um dos melhores indies de sempre. Esta repetição de todos os elementos que fizeram de Guacamelee a excelência que foi aquando do seu lançamento não leva a uma monotonia ou repetições excessivas. Guacamelee 2 nunca nos faz sentir que é um mero aproveitamento do que os seus autores criaram, mas sim a continuação fluída de um excelente título.

A influência que o Universo Cinemático da Marvel tem tido em grande parte dos media é impressionante. A ideia de multiverso com que todos os marvelitas cresceram, com dimensões e realidades alternativas já chegou ao grande público, e é fácil perceber das muitas referências culturais deste Guacamelee 2 quais as que mais o influenciaram. Seguindo a derrota de Calaca no primeiro jogo, existe uma nova ameaça a ensombrar o mexiverso: um herói tornado déspota e que anda a eliminar todos os Juans de todas as realidades alternativas.

Como dizia, as referências culturais dos diversos universos por onde passamos são mais do que meras notas de rodapé. Uma piada recorrente é um pequeno mundo por onde passamos e onde temos de “espancar” um pequeno carro até à sucata, num piscar de olhos a Street Fighter e apenas um dos muitos momentos originais que “transformam” por breves instantes a jogabilidade deste jogo e que até passam pelos JRPGs.

Apesar de começarmos o jogo sem os poderes que arrecadámos no jogo anterior, aos poucos vamos restabelecendo o patamar de poder de Juan com o regresso de habilidades e movimentos já conhecidos, no qual o alter-ego galinha ganha um destaque ainda maior. Se no primeiro título a nossa forma galinácea tinha o tempo de antena equivalente à forma em bola da Samus Aran, aqui temos sub-enredos conspirativos ligados aos afamados pollos para além de mais poderes associados e mais tempo exclusivo de combate.

O level design continua fenomenal, e sentimos isso à medida que enveredamos pelo habitual backtracking para ter acesso a novas áreas com os nossos novos poderes. Por outro lado o nível de desafio do level design das salas secretas (onde desbloqueamos muitos dos powerups adicionais) requerem um nível de mestria e controlo do personagem e das suas habilidades a um patamar quase exasperante, elevando e muito a nível de dificuldade de um jogo pensado para speedrunners, com leader board incluído de início para medir as runs mais rápidas.

Falando ainda em level design é fácil sentir que há uma maior interligação entre as duas formas e as suas diferenças na medida em que temos de ir alternando para podermos eficazmente ultrapassar o jogo. No primeiro título a separação das sequências de forma humana e de galinha estavam um pouco mais separadas, e aqui surgem ligadas de forma mais orgânica.

A estética dos DrinkBox Studios está ainda mais aprimorada neste Guacamelee 2 e há muito incorporado do primeiro jogo e de Severed. O salto qualitativo é identificável, e o traço está cada vez mais sólido e único, mas também começamos a sentir alguma repetição visual na construção dos diversos universos por onde Juan passa, e que poderiam ter linguagens distintas, e não têm.

O combate continua absolutamente brilhante, no seu espírito arcade-retro-beat ‘em up, a demonstrar que dentro de um objecto brilhante as mecânicas e incontáveis sequências de luta são dos pontos mais altos. Com quase todos os powerups desbloqueados até ao combate final, senti que em oposição à boss fight final contra Calaca do primeiro jogo que este era demasiado fácil, já que consegui derrotar o novo vilão logo à primeira tentativa.

Pelo meio ainda há muitos poderes e tech trees para desbloquear e serem “aprendidas” de personagens da série, com as habituais capacidades de mudar de dimensão a voltarem em força.

Guacamelee 2 está ainda mais dedicado a uma partilha pensada para as consolas actuais, extrapolando o seu 2 player co-op da versão actualizada do primeiro jogo para o actual 4 player co-op, com um sistema do primeiro jogador ser uma espécie de “porta-estandarte” dos restantes. Se este avançar muito os restantes que fiquem fora do ecrã são teleportados para junto de si. Infelizmente acabei por passar este jogo todo sozinho, mas tenho alguma curiosidade em perceber o caos que Guacamelee 2 se deve tornar com 4 jogadores lado-a-lado a fazerem golpes de lucha pelo ecrã.

Com muitos indie metroidvanias a chegarem ao mercado reitero o que disse a semana passada: Guacamelee 2 é verdadeiramente obrigatório. Um jogo visual e narrativamente interessante e único, conceptualmente original a continuar a tradição do seu antecessor, mas que no seu âmago é um jogo cujas mecânicas são brilhantemente executadas, fazendo dele um dos melhores jogos do género e um dos melhores deste ano de 2018.