Para começar, um preâmbulo: ao contrário do Origin Access Premier que foi pago por mim, no caso do Nintendo Switch Online foi-me dado um código de análise pela Nintendo Portugal, à qual agradeço o envio. Ainda que este não tivesse sido o caso, seria quase certo que acabaria por subscrever o serviço de uma maneira ou de outra por uma razão simples: sou um maníaco paranóico com um receio petrificante de perder as minhas consolas, e especialmente o conteúdo único que está dentro delas, como as saves. A possibilidade de salvaguardarmos as nossas saves (passando o pleonasmo) na nuvem é o maior ponto positivo de um serviço que desde o seu anúncio mostrou que dificilmente conseguiria equiparar-se ao que as outras grandes companhias de jogos possuem nos dias de hoje.

Ainda no caso das saves, esta preocupação de as perder sempre me condicionou sequer a levar a minha 3DS para fora de casa, ainda que fizesse backups frequentes no disco do meu PC. Basta pensarmos que existem jogos single player onde dedicamos dezenas de horas da nossa vida e cujo progresso seria penoso de repetir-se caso este se perdesse. Essa foi, aliás, uma das principais razões para subscrever o PokéBank desde o primeiro dia de existência e de continuar a pagá-lo até hoje. É claro que não foi a única, que o conforto de poder trocar Pokémon com uma consola só, e salvar milhares deles numa nuvem é extremamente apetecível tendo em conta o trabalho que deu a “apanhá-los a todos”.

Um problema que o Nintendo Switch Online possui e que outros similares não têm (vide o caso de que falo entre o upgrade de Origin Access Premier de quem já possuía o Origin Access) é que, no meu caso, o serviço que me foi oferecido pela Nintendo é o base para uma conta singular. Como muitos dos jogos da Switch (como Super Mario Odyssey e Hyrule Warriors) foram jogados na conta do meu filho, e visto que o acesso ao Nintendo Switch Online é por perfil e não por consola, vejo-me obrigado a subscrever o pacote família apenas para salvar as saves (perdoem-me a redundância) do meu filho na cloud. O problema? É que a Nintendo não me permite pagar o diferencial para ter um upgrade de tipo de serviço. Para subscrever o Plano Família vou ter de pagar o valor por inteiro e suplantar a subscrição que possuo agora.

A partir daqui o Nintendo Switch Online entra em queda-livre na mediocridade do pior pacote de serviço online de uma consola contemporânea. Comecemos pela “oferta” dos jogos de NES. Sabendo nós que o catálogo da clássica de 8 bits continua a ser um marco histórico, com muitos de nós a voltarmos a esses jogos para “matar saudades” parece-me no entanto como oferta de conteúdo é bastante curto. E digo-o por várias razões. A primeira é que muitos de nós possuem aqueles cartuchos ainda funcionais e podem jogá-los, ou já os compraram em Virtual Console algures numa consola recente da Nintendo. Ou, pensando no sucesso que foi a NES Mini, já muita gente cumpriu essa fome por NES de múltiplas maneiras, algumas delas de formas menos legais e mais cinzentas do ponto de vista de reconhecimento de propriedade.

A Nintendo tem indubitavelmente o maior acervo exclusivo ao longo de toda a sua História do que qualquer outra marca de videojogos. Em número e em qualidade, cada uma das plataformas da Nintendo possui mãos-cheias de títulos que demarcaram avanços da própria indústria, tendo mais jogos considerados clássicos e obrigatórios até que a sua grande rival Sega ou a mais “jovem” PlayStation. Com tantas possibilidade de valor acrescentado para convencer os consumidores a subscreverem o serviço, sendo que a aposta em jogos de qualquer parte da sua História seriam suficientes como argumento comercial, a Nintendo decide enveredar por uma postura redutora e preguiçosa, a aproveitar-se do mesmo sistema de emulação da NES Mini e a recauchutá-lo como elemento de venda do Nintendo Switch Online. Nem as oportunidades de multiplayer online para os jogos da NES o tornam minimamente interessante, especialmente se considerarmos que em termos de acesso a acervo de jogos como contrapartida da subscrição as concorrentes dão-nos mais, incomparavelmente mais.

E porque é que a Nintendo não mantém a mesma postura das concorrentes? Porque sabe que lhe basta relançar um jogo de uma plataforma anterior para a Switch (e até para a 3DS) que o retorno financeiro será grande, tomando em conta a postura por vezes doentia dos seus fiéis consumidores. A oferta de jogos de NES é risível, um fait-divers insuficiente que nos lembra constantemente que as outras companhias fazem melhor neste campo.

O acesso a uma app mobile exterior à Switch não é um argumento de venda: é até uma demonstração de fraqueza da própria plataforma. Estamos em 2018 e a ideia de que um serviço de subscrição de uma consola nos dá acesso a uma aplicação de telemóvel exclusiva de consumidores tem mais momento britcom do que empresa de (dita) tecnologia. Uma plataforma como a Switch necessitar de um smartphone para potenciar as comunicações entre jogadores é algo inimaginável e deveria até ser alvo de chacota do próprio mercado. Mas aparentemente é um argumento de marketing. Nintendo et fanboys dixit.

Mas a grande raison d’être do titular Nintendo Switch Online é literalmente permitir o acesso online a alguns dos títulos exclusivos da Switch. Que era, relembro, algo que a consola já permitia até que deixou de o fazer, mas a jusante do lançamento, quebrando a ideologia do saudoso Iwata, decidiu apostar no mesmo filão financeiro das concorrentes. O único problema é a Nintendo querer fazer o que a PlayStation e a Xbox fazem há anos mas com a clarividência de alguém que dá os primeiros passos na internet e nos serviços a si associados, apresentando em 2018 um produto cuja qualidade e conteúdo seria aceitável se os serviços digitais das consolas estivessem a dar os primeiros passos. O delay da Nintendo em apanhar o comboio dos serviços digitais foi tão grande que o que parece é que a companhia acabou até por apanhar uma bifurcação e ficar parada num apeadeiro qualquer.

É indiscutível que existe muita margem para elevar o serviço. E o problema em torno do Nintendo Switch Online nem é o valor anual de 20€, mas sim o que esse pagamento traz consigo. Espero que a Nintendo aproveite o tremendo espaço de melhoria que tem à frente para levar o serviço para outro patamar, e não se contente nem com a mediocridade que possui nos dias de hoje, ou que dê ouvidos a um núcleo de fanboys para quem qualquer coisa serve.

Por outro lado temos um certo Síndrome de Estocolmo com a marca, e somos reféns do serviço, por muito que o achemos fraco. Vejo isso comigo, que subscreverei sempre o Nintendo Switch Online, por muito fraco e insípido que seja, apenas para manter a salvo o progresso que eu e o meu filho temos nos jogos da Switch. Citando alguns argumentos de defensores do indefensável pelas redes sociais fora: “é a Nintendo, prontos” (sic). E é mesmo a Nintendo, sem tirar nem pôr, para o bem e para o mal. Mas perdeu a oportunidade de lançar um serviço que conseguisse ombrear com os concorrentes. Assim recebe apenas um prémio, mas um nada apetecível. O pior serviço online de todas as consolas de videojogos actuais. E perder o que quer que seja para uma consola que praticamente nem jogos tem é quase caso para a Nintendo se envergonhar.