Shhh, é segredo. Não podemos falar disto. Jogos são coisas para crianças. Coisas de sexualidade não são para aqui chamadas! Coisas de tarados! Depravados!

A postura em relação a conteúdo sexual em videojogos é, parece-me, um pouco mais ríspida do que quando se trata de cinema. Há preconceitos que custam a morrer. E custam ainda mais quando o que se faz é alimentar o preconceito em vez de o esbater. House Party é um daqueles jogos que se vê mas de que parece ser proibido falar. Aparece ali no Steam com um aviso, com a classificação de “Adulto” ou “Mature content”. Uma espécie de “colocar luvas antes de abrir”. E eu não pus luvas. E eu abri. E eu joguei. E, disposto a escrever uma crítica sobre o jogo, decido-me a abordar também os temas da sexualidade nos videojogos.

Ainda recentemente, na genial crítica que o João Machado escreveu sobre Red Dead Redemption 2 alguém comentou algo que é pertinente para a questão. Aceitamos violência, mortes e tiros sem olhar muito para a idade do espectador. Mas se há sexualidade – ou mesmo apenas anatomia, ainda que num museu – há sempre alguém a franzir o sobrolho. A alusão à recente polémica com Mapplethorpe em Serralves é “explícita” (do mind the pun). E é, de certa forma, exactamente a mesma abordagem que House Party entrega, com particular acutilância, logo aos que arrancam o jogo.

É um soco no estômago. Ou, se não é, deveria ser. É um jogo que se encontra na lista de jogos proibidos na Twitch. Censurados pela Twitch, podemos dizê-lo. Eu consigo perceber algumas das proibições só de olhar para o nome. Jogos como Battle Rape ou RapeLay cavaram a sua própria sepultura pelo nome e temática que adoptam. Mas Porno Studio Tycoon, Genital Jousting e House Party também constam nessa lista. E quase estranho que Conan Exiles não esteja por lá. Nem Witcher 3 (só não estranho mesmo porque con$igo pensar em algun$ motivo$). É que, raios, até o dinossauro Second Life se encontra lá. E não, não é assim tão estranho quanto isso. Isto não aconteceu de repente. Há uma gradual banalização da violência simultânea com uma maior aversão e repúdio à sexualidade em toda a nossa cultura. E por nossa, refiro-me à da Humanidade em geral, não a Portugal especificamente, que este pontinho à beira-mar plantado continua a ser bastante insignificante no que a trends internacionais diz respeito.

As duas imagens ilustram-no bem. A de cima, nos anos 70, a de baixo, na actualidade. O país, esse, é o mesmo: o Irão. E esqueçam lá as complicações de política e religião porque não é disso que estou para aqui a falar. A sequência de imagens é meramente ilustrativa e de algo que temos por cá por Portugal também. E se a sobrancelha marota se elevar em tom de dúvida, permitam-me apontar-vos para a Lei nº 27/2007 de 30 de Julho. Relaxem, a bem da fluidez da exposição, resumo-vos o que para aqui interessa, poupando-vos à leitura da densa publicação. Foi por esta altura em que a exibição de conteúdo pornográfico passou a ser proibido em canal aberto, em Portugal. Ou seja, até 2007, sexo explícito era permitido em canal aberto em Portugal, algo que era feito em determinados canais mas, sensatamente e regra geral, feito num horário bem impróprio para crianças. E antes que digam que isso era em canais fajutos, manhosos ou sebosos, permitam-me apontar-vos para a RTP 2. Mais especificamente para a noite de terça feira, dia 19 de fevereiro de 1991, data em que a RTP 2 emite o In the Realm of the Senses que suscitou tremeliques norte-sul-oeste-este em muitas devotas mãozinhas. Pois. A coisa causou furor, indignação, exasperação e perdigotos. Mas à horinha marcada, lá estava toda a gente a vê-lo. Pois. Em todo caso, para o que nos interessa nesta discussão, fica a conclusão: temos hoje mais censura na televisão do que tínhamos em 1991. Permitam-me refrasear: tínhamos mais liberdades em 1991 do que temos hoje, em 2018.

Mas adiante, voltando à nossa querida lei, note-se o seguinte: a lei limitava (limita!) a transmissão de coisas que “Prejudiquem manifesta, séria e gravemente a livre formação da personalidade das crianças e adolescentes, nomeadamente com a emissão de programas que incluam cenas de pornografia ou de violência gratuita”. Antes de ir mais longe, permitam-me o parêntesis: se as vossas crianças estão às 2 da manhã a ver televisão sozinhos com um canal que transmite pornografia naquela altura, a única coisa que prejudica gravemente as vossas crianças é a imbecil educação que vocês lhes dão ou se recusam a dar. Mas a lei continua e proíbe também programas que “Incitem ao ódio, ao racismo ou à xenofobia”. Está bem, então. Começando pela última parte, há determinadas campanhas políticas – estrangeiras e portuguesas – que de acordo com esta lei deveriam ser impedidas de ir para o ar. Há determinados espaços de comentário televisivo que deveriam ser impedidos de ir para o ar. Mas não são. Mas a minha particular comichão é ali com a parte da “violência gratuita”. Caríssimos, fica a pergunta: alguma vez viram um telejornal? Não? Ok, e um daqueles filmes de tarde de domingo? Não? Um Rambozito? Um Soldado Ryan? Um Fight Club? Sopranos? Game of Thrones? Pois… E já agora, ver sexo prejudica séria e gravemente a livre formação da personalidade das crianças? Isto deve ser um manancial de pais com as portas trancadas a sete chaves. E mordaças, não vá a criança ouvir qualquer coisa. E essas caminhas oleadas, se faz favor, não vá o ranger da madeira ser demasiado explícito.

Serve todo este preâmbulo para sublinhar esta diferença. A total banalização (ultrapassou-se a tolerância) da violência, das armas, do terrorismo… contrastando com uma cada vez maior castração (de novo, do mind the pun) a tudo o que tenha que ver com a sexualidade. É toda uma cultura, cada vez mais entranhada e, portanto, cada vez mais difícil de distinguir e apontar. Aquilo que passa a norma deixa de ser alvo de reparo. Deixa de ferir a vista. Na generalidade, pelo menos.

Não há, nesta nossa cultura, problemas em mostrar violência, gratuita ou não. Não é incomum ver imagens de violência extrema – em filme ou reais – na TV. Serviços como o Twitch ou o YouTube não têm pruridos com apresentar conteúdo violento. Seja em videojogos, seja em filmes, seja a dura realidade. Fica o aviso para o próximo vídeo. Real. Brutal.

Está no YouTube. Disponível para qualquer criança. Como estão incontáveis vídeos de filmes, séries e videojogos com violência para todos os gostos (?) e feitios. E depois, há isto:

E está lá. Para todos os que quiserem ver. Imiscuídos, baralhados e distribuídos automaticamente para qualquer um que faça a pesquisa. O caso foi, inclusivamente, notícia há poucos dias. E, no entanto, está lá. Esse e MUITOS outros vídeos. 

No entanto, Amanda Palmer, artista que muito admiro desde os seus tempos de Dresden Dolls, não pode ter ESTE seu vídeo no YouTube. O que por lá podem encontrar são imagens de capa ou versões cuidadosamente censuradas, não vá alguém clicar por lá inadvertidamente e ver algo tão ofensivo ou capaz de deturpar a formação de uma criança como… um mamilo. Com jeitinho até se podem permitir vídeos como ESTE. Pertinentes, importantes. Desprovidos de qualquer carga sexual. Mas, claro, atrás de uma barreira de restrição de idade. Claro. Tudo a bem das criancinhas. Que se lixem os miolos espalhados na tijoleira, que isso é dia-sim, dia-não na confeitaria da esquina, mas mamilos? Upa, upa! Isso não!

Enfim. Para mim, enquanto Pai, preferia mil vezes ter os meus filhos volta e meia expostos a um mamilo, um pénis, uma vagina, do que, com igual probabilidade, tê-los a ver alguém perder a vida ou agredir outro, ou ficar sem um membro. Chamem-me conservador. O mesmo vale para os jogos. Tenho toda a minha biblioteca de jogos aberta para os meus pequenos. Toda. Não há nenhum que eu tenha propriamente bloqueado para eles. No entanto, não lhes permito, dentro do razoável, jogar Call of Duty, Mad Max, Battlefield, Counter-Strike, Spec Ops: The Line (que é um jogo fabuloso!), entre outros. Por outro lado, não me incomodaria que jogassem alguns dos jogos que estão naquela lista de banidos do Twitch. Preferia que não os jogassem já? Claro. Mas incomodar-me-ia menos que o fizessem. E creio que faz sentido esta minha abordagem.

Há uns anos, fiz parte de um fantástico programa da nossa APAV. Enquanto professor, fui um dos membros do ano pioneiro em que se pretendia implementar um projecto nas aulas do terceiro ciclo para discutir (não transmitir conhecimento, mas discutir) determinados temas sensíveis, entre eles, a sexualidade. O desconhecimento que temos da sexualidade, enquanto cultura, é tremendo! Os tabus, os subterfúgios, as meias palavras… valia de tudo, no início daquelas aulas que ainda hoje recordo com especial carinho. Eram aulas onde, abertamente, discutíamos de tudo sobre a sexualidade. Sobre os corpos. Sobre a puberdade, os namoros… coisas que, pasme-se, os meus alunos não discutiam em casa. Lembro-me de ter tido uma aula em que, face à dificuldade deles em proferirem determinadas palavras, dividi o quadro a meio e, pegando na hesitação de um em proferir determinada palavra, a escrevi no quadro. Pedi mais sinónimos. Pila. Piça. Caralho. Marsápio… a lista cresceu (good puns today!) até ocupar metade do quadro. Primeiro por genuína provocação da parte deles, pouco habituados a proferi-las em sala de aula sem serem repreendidos. Passo seguinte, impondo alguma formalidade – escrevi eu. “PÉNIS”. Rodeei a palavra. Apontei-a e disse para, dentro da aula, chamarmos os bois pelos nomes. Tolerar-se-ia um “pila” ou assim, mas poupemo-nos a todos ao embaraço de um “coisinha”, “pilinha” ou o vago acenar para o baixo ventre. Tentemos tratá-lo pelo nome que tem. Como resultado, a lista de nomes correntes para “VAGINA” foi bastante menor. Eles perceberam. Sem tabus. Os nomes. Apenas. Sem proibições. Foram das aulas que mais gozo me deu ministrar, sobretudo pelo genuíno interesse dos alunos e pelo lento mas sistemático derrubar de tabus, barreiras e preconceitos. Sexo é só sexo. Todos têm pénis. Todas têm vaginas. E vulvas. Todos têm mamilos. Todos estarão expostos à sexualidade, mesmo que não mantenham relações sexuais. A sexualidade é mais, muito mais do que o acto sexual em si. E, para eles, isso era novidade.  

Anos depois, estamos a caminhar para uma sociedade que regride nesse campo. Estima-se que cerca de 70% (sim. 70%. guardem bem este número) do tráfego da Internet é Pornografia. Pornografia essa que, permitam-nos a suposição, será vista, consumida numa solitária privacidade. Ela está lá. É mais que visível. 70%! E, no entanto, continuamos a corar e a cuspir indignações quando há um mamilo em público.

E, por isto, por estas e por outras coisas, House Party está ali, num canto manhoso do Steam, votado ao esquecimento por streamers e “influencers”, que diz que é nome fino. Diz que o jogo tem sexo. No entanto, jogos como Super Seducer já são falados. E streamados. A sexualidade está lá presente também. Diferente? Sim. Mas a pergunta parece-me interessante: o que incomoda mais?

Sexo implícito por parte de pessoas reais ou sexo explícito entre personagens desenhadas, compostas por pixels coloridas em tons de RGB?

E já agora, porque é que uns pixels incomodam e outros, como Shower With Your Dad Simulator 2015 (sim, isto existe) não? É que este até está no Youtube, com a genitália claramente visível, ali a bambolear. Há um número de pixels padrão para se definir o que é proibido?

Em todo caso, House Party não é um mau jogo. É uma espécie de Sims com as hormonas aos pulos. Um cruzamento entre Sims e Super Seducer, sendo que as bocas de engate aqui são bem menos foleiras que neste último. Estamos numa festa e basicamente, tudo o que tenha duas pernas e não seja uma galinha (a expressão existe e juro que não tem nada que ver com o Rubber!), vale! Não faltam miúdas e rapazes para conhecer, falar, congeminar e copular. Praticar o coito. Com aquilo que até poderia ser algum detalhe mas, note-se, que esteve CENSURADO até há bem pouco tempo. Let that sink in… O jogo está proibido no Twitch e não mostra a cópula propriamente dita. Nem a felação. Não se vê porque tem um gigantesco quadrado preto a dizer CENSURADO! Pois… mas, mesmo assim, estava banido no Twitch. Presumo que seja por mostrar seios femininos desnudados. Uns grandes, outros pequenos, uns com piercing, outros sem. Mas mamas. O jogo tem mamas. E, aparentemente por isso, foi proibido em alguns serviços de streaming. Pois bem, os senhores da Eek! Games lá pensaram que perdido por cem, perdido por mil e lançaram recentemente um DLC gratuito que permite desactivar a censura permitindo ver o acto sexual em todo o seu (pouco) esplendor. São pixels, senhor, são pixels. Com arte a acabamentos com grandes lacunas até, se quisermos ir por aí.

Mas enfim, está lá. E é um jogo interessante, com puzzles e mecânicas cativantes que ilustra apenas aquilo que é uma relativamente normal festa de estudantes. Falta-lhe polimento, é cru em alguns aspectos, algumas arestas por limar, mas temos alguns puzzles diversos e interacções sociais verdadeiramente bem concebidos e com diálogos que têm tanto de interesse sociológico como os que Richard La Ruina nos propõe em jogos bem menos polémicos.

Artisticamente, revela alguns pormenores que se nota que mereceram alguma atenção e que denotam o carinho dedicado ao jogo pela equipa mas, tecnicamente, o jogo é demasiado cru, algo que conseguimos facilmente perdoar devido ao facto de estar ainda em Early Access.

Se o pudor não faz parte dos vossos cereais matinais e se não se chocam com pixels, recomenda-se que o experimentem. Ficarão surpreendidos. E se, em todo caso, este debate da sexualidade vos interessar, é algo que poderemos inclusivamente vir a discutir numa mesa aberta no nosso Twitch. Há lá lugar melhor para o fazer?