Desde muito jovem que sou fã de terror. Não do estilo Maria Leal a “cantar” ou ser chamado pelas Finanças* para esclarecimentos, mas daquele fictício, dos livros e filmes que nos tentam incutir algum medo através de imagens ou apenas as sugestões delas.

Inspirado pela época supostamente mais assustadora do ano, que a entrada do Natal nos centros comerciais antes do final de Outubro, pensei dar uma de Necromancer e reavivar uma das minhas tradições mais antigas, ver um filme e jogar um jogo de horror na noite de Halloween, mas qual é a minha surpresa quando, ao fazer a minha shortlist de possíveis candidatos lançados recentemente, reparo que o horror morreu. Já não existe.

Não morreu mesmo, isso foi um exagero literário, mas está no mínimo moribundo.  

Filmes e jogos de horror já estiveram na moda e já tiveram modas também, como tudo o que é consumível, só que eles têm vindo a tornar-se cada vez menos. Neste mundo real cada vez mais aterrorizante, os poucos que ainda são feitos estão cada vez mais homogéneos e sem identidade. Claro que continuam a existir excepções, Layers of Fear e Resident Evil 7 foram fantásticos, tal como Get Out de Jordan Peele e até alguns episódios de Black Mirror ou Dark se quisermos aceitar as séries como sendo de horror. Continuam a ser lançadas algumas obras do medo que conseguem fazer o seu propósito: dar-nos aquele sentido de incómodo constante, quase paranóico ,que nos força a olhar para todo o lado para confirmar que estamos seguros, ou optar por manter a luz acesa nessa noite quando vamos para a cama. Outras conseguem fazer-nos dar aquele salto de susto ocasional porque não há de errado com um bom jump scare, desde que seja bem feito e sem clichés. O horror está a morrer porque substituiu quase todas as suas essências por duas saídas fáceis.

Violência e Zombies.

Ambos os elementos fazem parte da categoria de criadores do medo. Filmes como Night of the Living Dead e jogos como Resident Evil utilizam zombies para meter medo, usando-os como deve ser. Mesmo a violência gráfica em filmes como Nightmare in Elm Street ou Halloween e Friday the 13th, os antigos Slasher Movies podiam assustar: o meu problema é que hoje em dia zombies são utilizados como massa amorfa gigante para dar tiros, e a violência excessivamente visual dos filmes como a série Saw e outros que nasceram daí conseguiram transformar o horror em nojo. Que não é bem a mesma coisa. E infelizmente são estes o que se encontra em maior número por aí.

Claro que falo de um ponto de vista totalmente pessoal em que prefiro o meu horror mais sugestivo ou psicológico, do que ensanguentado. Não me importo de ver mortes, sangue e vísceras desde que seja necessário para a história em questão. Nos Elm Street, Friday e Halloween originais tínhamos mortes sangrentas, mas faziam parte da construção da personagem do vilão da altura, em Saw, ou Hostel ou qualquer um deste subgénero a violência é apenas isso, violência. É quase pornográfico daí terem o nome Torture Porn. Apesar de gostar daquelas histórias em que o “monstro” acaba por ser o humano, seja um indivíduo ou como no caso de Night of the Living Dead e outros de George Romero, uma crítica à sociedade, há uma falta de subtileza no terror dos filmes e jogos de hoje. Até versões mais recentes como 28 Days Later conseguem exemplificar bem essa perspectiva, já outras como a série Walking Dead não tem o mínimo sentido. Violência em filmes de “terror” como os Last Destination que também tiveram o seu auge é só parvoíce.

O Medo é algo puro, algo que não precisa de artifícios para aparecer, é tão intrínseco à natureza humana que a mera sugestão de algumas coisas é o suficiente para deixar algumas pessoas com os joelhos fracos. Aranhas, espaços abandonados, canções infantis na escuridão da noite**, tudo na escuridão da noite, são coisas simples cuja mera ideia é suficiente para arrepiar os pelos na nuca, é isso que faz um bom filme ou jogo de terror, independente da sua localização geográfica ou temporal.

Pensemos em Alien, primeiro da saga, é um filme de terror passado no espaço. Toda a essência de medo não é criada por sangue e mortes, apesar de os ter. O maior medo é produzido naquela, e por aquela, tripulação que pouco a pouco vai sendo eliminada por um elemento que quase não conseguem ver, até ser tarde demais. The Thing é outra obra-prima em que o medo está nas interacções humanas e o que não vemos em vez das mortes que vemos, mais uma vez violentas, mas cruciais para o contar da história. Nos jogos passa-se a mesma coisa, lembro-me quando jogava o primeiro Alone in the Dark e apesar daqueles gráficos serem risíveis hoje em dia ter tido algum medo, mas nada bate Resident Evil no seu ambiente e utilização de zombies na melhor forma.

Resident Evil é um fruto do seu tempo, notamos as diferenças na sua evolução até ao genial 4, declínio em 5 e 6 e posterior revivalismo com 7. O melhor de Resident Evil é que tudo está feito para nos manter os nervos à flor da pele. Desde o despenhar do helicóptero*** ao entrar na casa, passando pelo encontro com o primeiro zombie e com os Hunters, mas acima de tudo o tempo que estamos sozinhos. Se olharem para trás, irão reparar que raramente estava mais que um inimigo nas divisões da casa. Dois a três cães, talvez. Um a dois zombies, ou um boss. Mas não mais que isso, regra geral estava apenas um. O medo não era feito pela enchente de inimigos que corria na nossa direcção. Era feito pela solidão, e pela ansiedade sempre que abríamos uma porta sem saber se encontrávamos uma divisão vazia, ou com algo para enfrentar. E se parecia vazia, estávamos mesmo seguros? Resident Evil 4 conseguiu contrabalançar a acção com o terror de uma forma surpreendente, com a proeza de fazer com espaços abertos parecessem claustrofóbicos. Os inimigos era diferentes, em maior número mas não menos assustadores. Especialmente porque eram mais humanos que os zombies. Havia uma certa capacidade de equilíbrio que era mantida a todo o custo. Sem nunca cair no exagero era a base mais pura do medo que era utilizada aqui.

Foi depois de Resident Evil 4 que esta essência que se foi perdendo ao longo dos anos, a elegância de algo mais simples para as hordas de criaturas que ceifamos a rajadas de metralhadora e tiros de caçadeira. Perdemos o bom que o horror tinha, em que muitas vezes não só nos assustava mas fazia pensar na razão disso. Não duvido que andem por aí boas produções independentes que metam medo tanto nos jogos como no cinema, mas era bom ver o mainstream afastar-se um pouco do fácil e dar-nos algumas surpresas. Gostava que os produtores dessem um pouco mais de protagonismo a outras criaturas clássicas como vampiros e lobisomens, que deixassem o caminho fácil e fizessem algo com alma, penada ou não.

Gostava de ver ou jogar algo que me meta medo outra vez.

Mesmo que sejam apenas jump scares.

*O meu maior medo é ter problemas com as Finanças. Porque morrer é finito, acabou. As Finanças acabam com a nossa vida e continuamos por aí a deambular, qual mortos-vivos económicos.

**Há umas semanas numa zona rural de Inglaterra uma família composta por uma mãe e filhos ouviam ocasionalmente à noite a canção infantil “It’s Raining, It’s Pouring” sem conseguir identificar a sua fonte. Eventualmente foram descobrir que era o sistema de segurança hipersensível de uns edifícios industriais próximos. Quando as câmaras detetavam movimentos acionavam a música nos altifalantes, em vez de holofotes ou alarmes, para afastar potenciais ladrões. Um sistema genial porque se eu ouvir criancinhas a cantar no meio do nada à noite, é garantido que vou imediatamente na direcção oposta.

***Pequeno facto linguístico a palavra Helicóptero não é composta por “Heli”+”Coptero” como a maior parte das pessoas julga mas sim “Helico”+”Ptero”. Helico é grego para em espiral como em Hélice, e Ptero quer dizer que tem asas, como em Pterodactilo. Isto não é nada com medo, é mesmo só uma curiosidade.