Num dos meus livros favoritos, Good Omens, escrito em parceria pelos geniais Terry Pratchett e Neil Gaiman, os quatro cavaleiros do Apocalipse são Guerra, Fome, Morte e Poluição porque a Peste reformou-se depois dos humanos terem inventado os antibióticos. Apesar desta justificação ser puramente para efeitos cómicos faz mais sentido que a adaptação de Fome para Fúria (Fury) e Pestilência para Conflito (Strife). Se calhar eram os outros quatro cavaleiros que acompanham os de Pratchett e Gaiman, e inventaram os próprios nomes baseados em coisas que achavam más: “Danos físicos graves”; “Crueldade para com animais”; “Pessoas mesmo fixes” eram os três primeiros e depois vinha “Pisar cocó de cão” anteriormente conhecido como “Todos os estrangeiros, especialmente os Franceses” e antes disso “Coisas que não funcionam bem mesmo quando lhes damos uma boa pancada” mas que nunca aceitou o nome “Cerveja sem Álcool” apesar de ter sido brevemente “Problemas pessoais embaraçosos” e “Pessoas cobertas de peixe”.

Thor ganhou uns quilos….

Depois desta introdução a boa literatura falamos da experiência que é jogar Darksiders III, o primeiro da saga que joguei e nada comparável a boa literatura. Sabendo que o primeiro é dos favoritos de uma das psicólogas aqui da casa, corro um risco sério em criar um mau ambiente com ela nas próximas linhas.

Darksiders III é um óptimo jogo. Diria eu se ele tivesse saído em 2010. Ou eu tivesse 16 anos. Que para esclarecer, não era a minha idade em 2010. Ambos os comentários têm um fundamento lógico.

Em finais de 2018 é complicado para mim gostar de um jogo como Darksiders III, porque é linear, é limitado em quase todos os campos. Não tenta ser inovador, não tem essa pretensão mas também não faz nada de um modo que seria feito nos dias de hoje, não altera a fórmula dos hack and slash de há 10 anos. O objectivo do jogo é capturar os Sete Pecados Mortais, seguimos uns carreiros pelos cenários, às vezes mais limitados outras com algumas clareiras enquanto destruímos criaturas e apanhamos almas para trocar por upgrades mas nunca tendo muito por onde explorar, há uns puzzles de como chegar a um ponto mais alto ou mais longe mas nada de muito complexo porque o core do jogo é a batalha com as hordas que nos aparecem pela frente. No final de cada secção, enfrentamos um dos tais pecados, os bosses do jogo, no sistema básico de 3 padrões de ataque/defesa. Depois repetimos essa formula até ao final. Mesmo com o crafting e outros upgrades que tentam dar ao jogo um pouco mais de carne à volta do osso, não chega para se destacar.

Fury, a protagonista, mostra-se arrogante e irascível a um ponto irritante. Parece uma adolescente que se acha mais inteligente e melhor que todos os outros a fazer uma tarefa que ela não quer. Fá-lo mas refila por todo o caminho. E tudo o que dizia era de arrepiar de tão básico que era. Os diálogos entre ela e todos os outros personagens inclusive com a sombra que é enviada para a acompanhar são do mais unidimensional possível. Não tem desenvolvimento de história ou personagem para além do mais simples, de tal modo que antes deles acabarem já se sabe para onde vão.

Apesar destes pontos menos positivos, o meu ser de 16 anos iria gostar bastante de Darksiders III, não só porque nessa altura jogava bastante Hack and Slash mas também porque nota-se bem o traço de Joe Madureira, um dos criadores da série e desenhador de renome, especialmente nos anos 1990. A arte, se forem fãs do traço de Madureira, seja ele nos X-Men ou Battle Chasers, pode ser dos factores que mais redimem a simplicidade deste jogo. O seu traço que mistura uma vertente japonesa com a cultura ocidental é ainda hoje uma das imagens desta saga.

De certa maneira não posso dizer que Darksiders III seja um mau jogo. Mas não é algo que seja capaz de recomendar a quem não seja fã da série. Um jogo de nicho e não um blockbuster que irá agradar à grande maioria dos jogadores. Um pouco mais de liberdade na exploração ou complexidade nos outros factores tornariam o jogo bem melhor.