O conturbado processo de desenvolvimento de Ark: Survival Evolved não nos é novidade. Desde os seus quase eternos momentos em Early Access que este sucedâneo do espaço deixado vago pela fraude que rodeou Stomping Land nos deixou com os dois pés atrás para o que aí vinha. Depois de muitas tentativas de fazer cash-in no “potencial” do IP Ark, o que incluiu também umas experiências falhadas em VR, o jogo do Studio Wildcard chegou finalmente à Switch. E da nossa parte recebe desde já uma série de prémios, mas nenhum deles é positivo.

Ark e as duas maneiras de sobreviver

Bem-vindos ao pior port feito para a Nintendo Switch. Uma versão terrível de uma óbvia tentativa de entrar no comboio do sucesso da consola da Nintendo, com um resultado tão mau que muitos dos que o tenham comprado vão se arrepender da política de trocas dos retalhistas não permitir devolver jogos por serem gritantemente maus.

Ao contrário da maioria das pessoas, eu não fiquei especialmente contente com o port de DOOM para a Switch. Conseguirem fazer algo aceitável com todas as limitações que a consola tem em oposição às plataformas onde o jogo saiu originalmente não faz dela uma boa versão. Mas nem imaginaria eu que o paraíso míope do jogo da Bethesda era o baluarte do detalhe quando comparado com Ark: Survival Evolved a correr na consola.

Sejamos sinceros: Ark nunca foi o jogo com a melhor das optimizações. Não o era em PC, onde o leque de builds dificilmente permitia ao jogo correr na melhor das condições dentro das suas “exigências”, muito menos com o mau trabalho feito pelo Studio Wildcard na versão de Switch.

Não sei quantos dos nossos leitores sofre de miopia, mas eu que sofro desde os sete anos de idade posso descrever-vos facilmente. Ser míope e não ter correcção visual (seja com óculos ou lentes de contacto) é o equivalente a alguém estar constantemente (e em linguagem de Photoshop) a fazer-vos blur a tudo o que vêem, tornando tudo enevoado e não reconhecível. Há anos que a minha mulher e os meus amigos se divertem comigo na praia (onde não uso lentes de contacto) a ver-me tentar voltar para a toalha, onde todas as pessoas são apenas um borrão indefinido.

Ark: Survival Evolved na Switch não é um bom jogo, mas é um excelente serviço público de chamar a atenção para o sofrimento dos míopes. A forma como os seus criadores decidiram passar um borrão imenso em todo o jogo, tornando todas as suas formas uma massa disforme e pouco definida eleva a ideia de um survival game para cenários em que muitos militares e muitos milionários se estão a preparar para cenários apocalípticos: como sobreviver ao fim do mundo se a nossa acuidade visual não for das melhores. À falta de operações LASIK para corrigir a miopia, Ark obriga-nos a sobreviver a um ambiente hostil onde dinossauros, humanos e outras criaturas nos querem matar mas com uma dificuldade adicional: não percebemos nada do que se passa.

“Aquilo é um dinossauro ou uma árvore?” perguntamos momentos antes de morrermos. “Aquilo é outro jogador que vem a correr na minha direcção ou assets que estão a carregar mal?”, pergunta respondido instantes depois quando um machado de pedra nos racha o crânio e nos obriga a criar um novo personagem.

Ark: Survival Evolved é um survival game de qualidade discutível no seu ambiente original, o PC, mas conta com uma comunidade que o mantém vivo, fora do âmbar. A versão de Switch não só é mais limitada em conteúdo como deveria ser tomada como workshop para estúdios com interesse em desenvolver jogos para a Switch para saberem exactamente o que não se deve fazer para criar um bom port para a consola híbrida da Nintendo.

O pior jogo da Switch, e o pior port da consola são dois galardões facilmente entregues a Ark: Survival Evolved na Switch. Se quiserem elevar a experiência para um novo patamar de horribilidade retirem a consola da doca e joguem Ark em modo portátil. Nove em cada dez oftalmologistas desaconselham-no.