De boas intenções e open worlds está o inferno cheio como diz o povo. Kenshi é mais um desses que pavimentam a estrada que a maioria das pessoas irá calcorrear um dia. Se acreditam nessas coisas. Tendo estado em desenvolvimento há uma década há algumas coisas para dizer sobre este jogo que finalmente sairá das Badlands do Early Access dia 6 de Dezembro. Em princípio…

O desenvolvimento de Kenshi começou há mais de 10 anos que torna a sua observação um exercício interessante porque em alguns aspectos é uma espécie de cápsula do tempo deturpada. Várias das escolhas feitas pelos developers deste jogo podem ser consideradas duvidosas, especialmente porque não sabemos quando elas foram tomadas. Dez anos é muito tempo no que diz respeito a tudo, ainda mais em tecnologia, mas isso é algo para ir falando ao longo deste artigo.

Na sua base mais elementar, Kenshi não é simples, é um híbrido entre RPG multi-personagem (com um personagem titular) e um survival game. Num ponto de vista mais complexo Kenshi é uma metáfora para as oportunidades que a vida nos apresenta e as dificuldades que temos que ultrapassar para conseguir os nossos objectivos. Dificuldade é a palavra-chave aqui, porque Kenshi é para lá de difícil, tal como a natureza no seu estado mais selvagem é imperdoável, e até podemos julgar ser os mais aptos mas a morte, muitas vezes violenta e dolorosa, está presente em cada passo que damos.

O mundo de Kenshi faz-me lembrar um pouco o mundo da série Into the Badlands, onde num futuro alternativo pós apocalíptico onde reinam as artes marciais, a sociedade adaptou-se para sobreviver. Kenshi tem um pouco disso tudo. Tem as artes marciais (mais ou menos) tem a vertente pós-apocalíptica mais semelhante a Mad Max, e tem o que parece ser uma sociedade funcional composta por seres humanóides de várias espécies. Estas diferenças de espécies conseguem criar algum atrito nas aventuras porque a nossa escolha inicial de personagem irá limitar consideravelmente as nossas opções. Ao optar por Greenlander ou Scorchlander (ambos humanos) têm pouca influência nas estatísticas do jogador, já optar por um Shek ou um Bot terá muitas mais implicações porque certas zonas, inclusive cidades inteiras podem ser controladas por seitas religiosas que vêem essas espécies como inimigos mortais. Algo que habitualmente descobrimos tarde demais.

Esta é prima do gajo da aldeia do som do Naruto. Da altura em que o Naruto até era fixe.

Neste mundo isométrico, temos que sobreviver. Temos que comer, temos que lutar contra os elementos, fazer tudo para garantir que nós vivemos mais um dia, se para isso tivermos que roubar ou matar, assim seja. Não é fácil, não é justo, mas nunca ninguém disse que devia ser. Neste ponto Kenshi encontra a sua força. O nosso personagem não é um herói, pode ser um protagonista da nossa história, a que estamos a viver, mas não é o protagonista do jogo, porque ninguém é. Nem o nosso nem nenhum daqueles que encontramos e podem juntar-se a nós. Todos temos a mesma hipótese de sobreviver, todos temos a mesma hipótese de morrer ao cometer um erro. Podemos ter um grupo de 5 personagens ou apenas 1, e uma escolha errada terá as mesmas consequências. Este aspecto libertino permite também que possamos fazer o que quisermos. Nós não somos heróis de capa e espada que têm que salvar o dia ou o universo. Queremos ser ladrões e pilhar casas quando os seus ocupantes as abandonam? Ok, força nisso. Preferimos tentar ter uma quinta onde plantamos alimentos ou criamos animais para depois vender? Pode ser. Sempre quiseram ser comerciantes numa caravana explorando de cidade em cidade? O mundo é deles, a escolha é vossa.

Kenshi tem um grande potencial de escolha, esse é o seu ponto forte. Não é um jogo para todos mas é um jogo que dará muito a quem quiser investir nele. Podem perder dias da vossa vida neste mundo, e isso é dos maiores elogios que se podem fazer nessa indústria porque apesar de algumas mecânicas mais antiquadas, Kenshi é estranhamente actual.