De certeza que já viram uma ideia tão interessante que cruzam os dedos para não falhar. Uma daquelas ideias fora da caixa que parecem tão óbvias, mas poucos as tentaram reproduzir. É o caso de Bohemian Killing da criadora The Moonwalls. Empresa essa que conta apenas com um trabalhador, responsável pela criação de tudo no seu primeiro, e até à escrita deste artigo, único jogo.

Comecei por falar em ideias interessantes porque é o coração deste jogo marcar pela diferença. Imaginem um livro da Agatha Christie escrito na perspectiva do assassino, ou até, um episódio de C.S.I. onde o investigador Grissomé o assassino e tem toda a sua sabedoria quanto a assassinos para recriar o seu caso em frente ao tribunal e escapar ileso às acusações.

Infelizmente, ideias sem capacidade de as transformar em matéria, não passam disso, ideias. Marcin Makaj, teve a ideia e a capacidade de a transpor para o mundo real, daí surgiu Bohemian Killing. Este jogo de aventura em primeira pessoa, foca-se num assassinato em Paris, em finais do século XIX. A personagem que controlamos, homem de etnia cigana, milionário por conta própria, é acusado de ter cometido esse hediondo crime. Porque é que referi a etnia do personagem? Simples, a época onde o panorama do jogo se passa é marcada por graves tensões raciais e isso pode ter, ou não, parte no nosso julgamento.

A verdade é que o crime foi mesmo cometido por nós, e o objectivo do jogo é mentir, forjar evidências e adulterar o decorrer do julgamento para conseguirmos sair ilesos. Quando me foi apresentada esta explicação por parte do jogo, honestamente não fazia ideia de como é que tal seria possível sem basear a mecânica em texto, escolhendo opções para cada resposta e esperar sair do lado certo da árvore de escrita. Para quem não percebeu o que quis dizer, imaginem uma Visual Novel.

Incrivelmente, Marcin conseguiu encontrar um formato baseado na árvore mas ao invés de escrita, temos acções a serem realizadas, sendo que não são todas óbvias nas primeiras sessões. Para além disso, dependendo da ordem em que são realizadas e a hora a que são realizadas, alteram drasticamente o final obtido dentro de um leque de 9 possíveis.

Como referi acima, as horas a que realizamos as acções influenciam o fim, e para isso existem acções como ler um livro, falar ao telefone, tomar banho, etc… que saltam pequenos períodos de tempo e nos permitem realizar o que pretendemos na altura que achamos mais oportuno. Tudo isto para corroborar ou contradizer os argumentos avançados pelo Procurador que nos acusa em nome do estado.

A primeira sessão de jogo é possivelmente a mais demorada, e também aquela onde vão prestar maior atenção aos detalhes. Depois disso, é muito rápido iniciar e acabar uma nova sessão, não prometo no entanto que seja fácil alcançar fins alternativos, muito menos sair impune pelo nosso crime. Algo a ter em conta mas que não deve afastar ninguém deste título, é a “clunkiness” do jogo, e todos os bugs que o acompanham, e acreditem não são poucos. Admito que me custou, mas assim que ultrapassam esse revés e entram no sentido do jogo, vão ter uma boa experiência e um óptimo desafio.

P.S. Pelos olhos de Marcin Makaj todos os Franceses falam como se estivessem de boca cheia e algum tipo de impedimento de fala. Vá-se lá saber.