Já por diversas vezes deixei passar a ideia de que por alguma razão o mercado mobile nunca foi algo que me prendeu de sobremaneira. Tirando pequenos apontamentos de jogos maravilhosos como Monument Valley, Alto’s Adventure ou Vignettes (que poderiam facilmente estar no PC como muitos outros indie de qualidade), a minha disponibilidade para jogar jogos no telemóvel é muito pequena. Penso que isto se deve a uma soma de factores, a começar por eu encarar o meu smartphone maioritariamente como uma ferramenta de trabalho, mas é sobretudo pela mindset monetário da grande maioria dos jogos que me impede de mergulhar.

Sei também que o mercado de premium games em mobile é reduzido em comparação com o modelo de negócio free-to-play. Se eu enquanto consumidor estou habituado a pagar por jogos no PC e nas consolas, pela mesma razão habituei-me a isso neste “novo” mercado, o dos telemóveis. Mas as empresas tiveram de se adaptar à realidade da maioria dos consumidores do mercado mobile, que pura e simplesmente preferem um jogo gratuito e dificilmente vão pagar de base para o jogo. Pagar a posteriori já é outro assunto.

Foi por esta razão que muitos dos jogos, especialmente os RPGs free-to-play moldados sob um padrão de jogos coreanos e chineses raramente me foi apelativo. RPGs com limitações de energia que reduzem o tempo de jogo de cada utilizador, onde a sua progressão está bloqueada por paredes de tempo ou dinheiro. Onde os botões de combate automático são o mínimo denominador comum de jogos que praticamente só têm o grind como base de sobrevivência. Tentei jogar alguns destes jogos sob sugestão da minha mulher ou do Marco Janeiro, mas até há alguns meses nenhum me pareceu justo dentro da sua progressão – e por justiça refiro-me ao quão óbvio ou não são os jogadores impelidos a pay-to-win – ou que conseguissem mostrar-se interessantes o suficiente para eu continuar a jogar.

Somemos a este meu afastamento da Play Store e da App Store a quase total invulnerabilidade que tenho a ads, especialmente o das redes sociais. Os meus olhos, treinados por anos a ignorar banners, simplesmente não vêem publicidade a correr no mural do Facebook e Instagram. Mas por alguma razão um jogo então recém-lançado com personagens da Disney de alguma forma me cativou. O que significa logo de imediato que são esses mesmos personagens de filmes da Disney e da Pixar num RPG que me despertaram a curiosidade, coisa que milhares de feiticeiros, guerreiros e cavaleiras com uma estética nipónica ou copiada do Clash Royale nunca conseguiram.

Instalei Disney Heroes Battle Mode por curiosidade, e para mal dos meus pecados rapidamente percebi que se tratava de um daqueles RPGs que eu tanto desprezava. Daqueles com energia limitada para fazer missões, e onde as missões têm de ser repetidas ad nauseam para obter x número itens para fazer craft de novos itens para ir tornando os personagens progressivamente mais fortes. Um daqueles jogos onde os combates podem ser processados em modo automático, tão ao gosto chinês como o Matthieu me explicou há uns anos quando me explicava a destrinça entre a tipologia de jogadores ocidentais e chineses. Disney Heroes Battle Mode tinha praticamente tudo para me manter afastado, mas aos poucos fui percebendo motivos para continuar a jogá-lo. Motivos estes que continuam a manter-me ligado desde Julho deste ano.

Ver os personagens que crescemos a adorar como protagonistas de um RPG é logo um dos grandes argumentos para jogar a este Disney Heroes Battle Mode. Se nos primeiros patches este jogo estava povoado de muitos personagens pertencentes aos filmes recentes da Pixar, à medida que o jogo tem avançado muitos dos personagens de filmes clássicos têm chegado ao elenco. Seja os casos recentes da minha vilã favorita de sempre, a Maleficent, ou a Ursula, ou mesmo o Scar, há muitos personagens da nossa cultura colectiva a povoar as nossas possibilidades.

Para além disso, Disney Heroes Battle Mode é possivelmente um dos jogos do género mais justos que já joguei. Há mais de meio ano a jogar, nunca senti que precisava de gastar dinheiro para acelerar a minha progressão ou para ter acesso a heróis OP. Neste momento, sem nunca ter gasto dinheiro algum no jogo, só não tenho a Shank (do filme Ralph vs the internet) e a Elsa, que foram lançadas há poucos dias. Todos os restantes consegui obter sem necessitar de injecções pornográficas de dinheiro.

Até na progressão do jogo e na competitividade eu sinto que os game designers de Disney Heroes Battle Mode conseguiram torná-lo equilibrado e justo, o que é um verdadeiro feito para os jogos do género.

Os diamantes, que são a moeda premium do jogo e que pode ser comprada com dinheiro real, é-nos oferecida diariamente no PVP, com somas que vão crescendo progressivamente à medida que escalamos as plataformas competitivas. Existem três modelos de PVP, dois individuais e um de guilda. Os dois individuais são a Arena (onde escolhemos 5 personagens e temos de ir derrotando jogadores para escalar a classificação) e o segundo o Coliseu, onde escolhemos três equipas de 5 personagens cada e temos de conseguir derrotar os 15 personagens da equipa adversária. Em cada dia temos direito a 5 combates de cada na nossa tentativa de escalar a classificação, e de madrugada recebemos os correspondentes prémios diários de estarmos na divisão onde estamos. Foi aqui que senti que rapidamente conseguia, graças ao PVP, reunir diversos diamantes para ir comprando baús premium de onde podem sair badges (os itens que os personagens equipam) ou mesmo novos personagens. Tudo isto, relembro, sem nunca ter gasto dinheiro.

Há muito conteúdo na componente PVE (algum deles em colectivo com outros jogadores), diversificado e que cria uma oferta distinta diária e diversificada para manter o jogo interessante. E, repito, sempre justo. Mesmo a possibilidade de reencher toda a nossa energia através de diamantes está bloqueada a duas vezes diárias, o que significa que os jogadores que invistam activamente dinheiro podem ter uma ligeira vantagem mas nunca senti nestes meses todos que Disney Heroes Battle Mode fosse abusivamente um jogo de pay-to-win.

As limitações temporais diárias também nos condicionam o grind, que existe e é óbvio, mas por outro lado tornam toda a sua jogabilidade (dentro dos diversos modos PVE e PVP existentes) relativamente frescos e com experiências “curtas” impedindo-o de se tornar um verdadeiro sifão de tempo.

O grind é também diminuído com uma pequena escolha que podemos fazer. Jogar a missão inteira (que demorará menos de 1 minuto em média) e que dará XP individual aos personagens, ou fazer um raid instantâneo, mas que não evolui os personagens. Tempo versus XP. E nestas escolhas constantes que fazemos da nossa disponibilidade no dia-a-dia, mais as recargas de energia que recebemos algumas vezes ao dia que impedem Disney Heroes Battle Mode de cair rapidamente na monotonia onde ele próprio, naturalmente, poderia ficar, dadas as limitações mecânicas deste tipo de jogo e deste modelo de negócio.

Disney Heroes Battle Mode é também um excelente jogo do género para jogar com os filhos. O que à partida é uma afirmação estranha pensando no espírito individualista que os jogos mobile têm. Mas é também um óptimo gateway para o género de forma alargado, com o aspecto familiar e simpático que temos ao construirmos parties de 5 personagens a partir do maravilhoso elenco da Disney (que até já inclui o Mickey como comemoração dos seus 90 anos).

Tirando o extremo equilíbrio mecânico do jogo e da tremenda justiça competitiva de Disney Heroes Battle Mode, diria que é o jogo perfeito para jogadores como eu que nunca tiveram grande prazer em jogar jogos mobile, mas que adoram Disney e até querem um RPG gratuito para uns bons momentos de jogo no telemóvel. Disney Heroes Battle Mode não reinventa a roda, apenas a torna mais redonda. E faz-me ter vontade de lhe dar dinheiro pelos meses de entretenimento que me deu, mas sobretudo porque nunca senti que Disney Heroes Battle Mode me estivesse a extorquir dinheiro para o poder usufruir.