Caçada Semanal #190

As primeiras coisas do ano parece que têm todas importâncias cabais quando comparadas ao nosso dia-a-dia corriqueiro. O primeiro beijo do ano, a primeira manhã do ano, o primeiro dia de trabalho do ano, o primeiro banho em águas geladas do ano. No nosso caso aqui fica um duplo primeiro: o primeiro artigo do ano e a primeira caçada semanal de indies do ano. Desta feita juntamos três jogos divertidos para começar o ano com o pé direito.

Coffence [PC]

Uma das conversas que tivemos nestas pequenas férias da passagem de ano foi sobre a adição química que alguns de nós temos (e que eu tenho certamente) com a cafeína. No meu caso são já vinte anos a beber diariamente cafés, e sinto que física e mentalmente o meu dia nunca começa verdadeiramente até beber uma “bica”. Não sendo um prazer unicamente português, a realidade é que o valor que damos aos que as outras nacionalidades chamam de “expresso” é bastante elevada. E vindo trabalhar logo no segundo dia do ano, café é mesmo algo que preciso de beber.

Coffence é um dos mais originais fighting games que já vi, trazendo humor e ideias completamente diferentes para um género que muitos imaginam estar cafeínado, aliás, confinado à mesma fórmula. Deitando fora espadas e floretes, Coffence coloca-nos uma chávena nas mãos com diferentes atributos, e obriga-nos a usá-la como arma. Nós e o nosso adversário temos chávenas com café nas mãos e temos não só de o proteger mas também roubá-lo ao nosso oponente.

Num misto de jogo de luta e twin stick shooter onde arremessamos a nossa chávena como um ioiô, Coffence é extremamente divertido e com muitos motivos para rir à base do café.

Speed Brawl [PC, PS4, Xbox One, Switch]

Se Coffence mistura café, fighting games e twin stick shooters, Speed Brawl mistura 2D side scrolling beat ’em ups e platformers ágeis.

Cada nível é uma espécie de corrida encerrada em si mesma, em que temos de bater os tempos definidos para conseguir ultrapassá-los com eficácia. Speed Brawl é o sonho húmido de qualquer speedrunner, mas não só. Se a maioria dos jogos que jogámos na era dourada dos side scrolling beat ‘em ups colocava o ónus do desafio do jogo na sobrevivência de todos os seus níveis, Speed Brawl impele-nos a ser o mais eficazes possíveis no tempo que demoramos a derrotar todos os inimigos que nos são apresentados.

O combate é simples, mas também ele desafiante, sem ser excessivamente complexo. Speed Brawl mantém-se dentro da simplicidade mecânica dos pais do género, encimado por um sistema de evolução e aquisição de itens, e um menos simpático sistema de grind para os obter.

Se não bastasse o jogo ser original e bem executado na sua premissa, Speed Brawl é verdadeiramente maravilhoso na sua direcção artística, com animação tradicional de todos os personagens e cenário.

My Brother Rabbit [PC, PS4, Xbox One, Switch]

Saindo dos jogos de luta mas continuando a falar de jogos brilhantemente ilustrados à mão temos My Brother Rabbit, uma aventura point ´n click bastante casual, e infelizmente, a saber a pouco.

Aliás, chamar-lhe aventura point ‘n click é capaz de ser uma ligeireza minha, especialmente porque o mais certo é chamar-lhe de um jogo de hidden objects onde a narrativa é praticamente toda contada sem recurso a texto.

O público-alvo está bem indicado: crianças que podem com My Brother Rabbit dar os primeiros passos no género. Porém, é curioso como eu estive a jogar este jogo acompanhado do meu filho, acompanhámos a história juntos mas alguns dos puzzles parecem estar pouco destinados ao público infantil pela sua dificuldade ou encriptação.

Uma história imaginativa que fala, aliás, de imaginação. Um dos jogos mais distintos da Artifex Mundi que vê assim o seu catálogo a dar um passo ligeiramente distante dos “meros” hidden objects games e encontra um público mais vasto pelo caminho.