Caçada Semanal #193

Mudam-se os tempos, e com eles, muitas vezes para melhor, as mentalidades. Um dos casos mais óbvios disso era a eternização da ideia da suposta fragilidade feminina e da necessidade das princesas serem salvas por alguém. Se nós crescemos com as princesas Disney cuja vulnerabilidade as obrigava a procurar a salvação nos braços masculinos, as novas gerações crescem com abordagens nos diversos media em que são as mulheres a pegar na espada, ou no arco e flecha e se fazem à aventura. E ainda bem que assim é.

Os indies desta caçada falam de princesas fortes. E de gatos.

Battle Princess Madelyn [PC, PS4, Xbox One, Switch]

Os jogos de Dark Souls são difíceis, e não preciso de os ter percorrido a todos para o saber. Mas quando vejo jogadores mais jovens a considerá-lo uma inovação pela dificuldade tenho instantaneamente de me rir.

Ainda há dias, a jogar Dead Cells, expliquei ao meu filho que quando eu tinha a idade dele e quando perdia num jogo voltava ao início. Não existiam saves, nem outras formas de guardar o meu trajecto, e tinha de tentar vezes sem conta para ir criando memória mental e muscular de todos os níveis, progredindo cada vez mais em cada tentativa até acabar o jogo.

Ghouls ‘n Ghosts (que eu nunca acabei, e que só alguns anos mais tarde joguei quando um primo me emprestou a sua Mega Drive) é um desses maiores exemplos, de jogos altamente punitivos de pequeninos erros, e que tem sido inspiração recorrente para uma nova geração de game devs.

Battle Princess Madelyn é um deles, em muitos momentos um quase decalque moderno do jogo da Capcom. Quando recebemos dano pela primeira vez a titular princesa perde a sua armadura, ficando exposta a mais um dano que será fatal. O sistema de progressão dos níveis tem um misto de precisão, reflexos e uma dose de sorte, especialmente porque os movimentos dos inimigos não seguem padrões que consigamos decorar.

O seu nível de frustração e injustiça por vezes são exagerados em relação até à inspiração original, mas é o jogo perfeito para reavivar aquele azedume que Ghouls ‘n Ghosts tão facilmente nos provocava.

NAIRI Tower of Shirin [PC, Switch]

Muitos são os autores que têm pegado nas fundações dos point ‘n click games e os têm trazido para os dias de hoje, muito especialmente aqueles que decidem imprimir uma forte direcção artística para os distinguir num oceano de jogos concorrentes.

NAIRI Tower of Shirin, desenvolvido pelo estúdio HomeBearStudio, é daqueles que consegue cativar qualquer público logo no primeiro impacto, dos acérrimos fãs de aventuras gráficas como é o nosso caso, até jogadores que nunca gostaram ou nunca tiveram contacto com o género.

Em NAIRI controlamos uma rapariga de classe alta que se vê obrigada a fugir da casa quando a sua família é atacada e acaba por fica refém de uma gangue de ladrões-gatos. A história que se vai desenrolar neste mundo antropomórfico amplamente inspirado pelo trabalho dos estúdios Ghibli é detalhada e delicada, e acaba por ser a sua narrativa que nos vai fazer ficar, depois de já termos sido previamente conquistados pelas suas ilustrações e animações.

A utilização do recurso visual dos diálogos ao estilo de visual novel acaba por ser a melhor escolha, numa aventura gráfica onde os puzzles são desafiantes sem serem excessivamente encriptados.

Molecats [PC]

Falando de gatos e puzzles temos Molecats, um jogo onde temos de guiar uma espécie de gatos armados em toupeiras com espírito de Lemmings por túneis subterrâneos. O problema/entusiasmo destes quebra-cabeças é que não controlamos os gatos nem o seu movimento, mas os quadrados com túneis onde os felinos se deslocam.

A partir desta ideia base os seus criadores vão sucessivamente adicionando novas mecânicas e novos elementos para os puzzles, permitindo que o desafio e o sentimento de novidade sejam crescentes e progressivos.

Apesar de à partida esta ser uma ideia relativamente estéril e que em pouco tempo cairia na monotonia, Molecats com toda a sua estranheza e os seus gatos bizarros consegue de forma serena ir criando um sentimento de desafio interessante, mantendo-nos presos aos seus muitos puzzles por mais tempo do que originalmente pensaríamos em estar.