Conhecem o conceito de gateway drug, traduzido livremente como uma droga de entrada? Uma droga “leve” que conduza a adições de drogas mais pesadas, servindo apenas de primeiro passo numa estrada tortuosa de vício. Com um paralelismo semelhante nos jogos de tabuleiro, há quem tenha definido uma shortlist de gateway games, títulos destinados a “agarrar” pessoas que não estão habituadas a jogar. No meu caso o primeiro passo num caminho que já conta com mais de 12 anos dedicados e muito mais dinheiro gasto do que eu próprio quero admitir começou precisamente com um Carcassonne, que um dos meus amigos próximos comprou para a primeira board game night que tivemos.

Desde pequeno tive a sorte de termos quase todos os domingos ao final da tarde dedicado aos jogos de tabuleiro, claro que à época se limitavam aos clássicos como o Monopoly, o Ludo e o Mikado. Décadas depois seria o Carcassonne a fazer-me redescobrir o prazer dos jogos de tabuleiro, com tudo aquilo que um gateway game tem para trazer novas pessoas para este hobby: simplicidade e diversão.

Para quem nunca jogou Carcassonne a ideia é simples: à vez cada jogador vai colocando um pequeno quadrado de cartão ilustrado na mesa, contíguo aos já colocados. Cada peça foi desenhada de forma a ter nas suas arestas sempre forma de ser colocada ao lado de outras, incluindo prados verdes, muralhas ou partes de cidade, e estradas. Temos um número limitado de meeples e cabe-nos a gestão de quando e onde os utilizar. Cada meeple pontuará no final do jogo se estiver em maioria na zona colocada, seja ela uma estrada, uma muralha ou um campo.

Simples de explicar e de jogar, logo na primeira partida é fácil de perceber o porquê de este ser um dos maiores gateway games. O que explica também, na senda recente da Asmodee de converter muitos dos seus títulos mais conhecidos em videojogo, que Carcassonne, depois de ter saído para Steam chegasse finalmente à Switch. A transição para a consola da Nintendo da jogabilidade de Carcassonne foi facilmente conseguida, especialmente pela inclusão de três das 1050 expansões (número aproximado) que o jogo físico tem.

Mas ao mesmo tempo que a simplicidade mecânica de Carcassonne se ajusta aos controlos da Switch, existem também muitos factores que nos mantêm afastados desta versão digital. Muitos deles que nos parecem tão simples que facilmente a Asmodee Digital conseguiria dar-lhes a volta com um pouco mais de investimento.

O primeiro de todos é a incapacidade gritante de mudarmos os nomes dos jogadores para além de Player 1, 2, etc. Um elemento tão simples que até hoje fico curioso de saber como é que não foi implementado.

A segunda é a inexistência de jogar online, limitando-nos as possibilidades a competitivo local com humanos ou AI. Ora, com estas limitações, e especialmente pensando nos 16€ que o jogo custa, o investimento na versão de Switch não compensa. Por pouco mais do que 20€ podemos comprar o jogo “a sério”. Se os problemas de não termos com quem jogar existem, então ou nos contentamos em jogar com o computador (que por vezes demora níveis leonelescos (um dia explico o neologismo) para fazer o seu turno) ou temos o mesmo revés do jogo físico.

Carcassonne não é das melhores adaptações de um jogo de tabuleiro a videojogo, o que nos surpreende, e muito, pela aparente maior facilidade de o fazer quando comparado com um jogo como o Scythe (também da Asmodee Digital). É possível que essa aparente simplicidade tenha sido enganadora e tenha conduzido a um “ah, está bom assim!” da parte dos seus criadores, mas para o preço que o jogo custa neste momento é muito difícil de o recomendar, quando podem por pouco mais ir a qualquer loja física ou online e comprar aquele que é um dos melhores gateway games das últimas décadas.