Como devem ter visto pelo meu regresso aos streams, o primeiro episódio de 2019 foi uma vitória para mim (e para quem o viu) com os dois jogos reminiscentes de 2018 que ficaram em espera no meu desktop a revelarem-se duas verdadeiras maravilhas dos jogos indie e de aventura. Um deles foi Iris.fall, a excelente interpretação de uma aventura-gráfica tridimensional gótica e monocromática, e a segunda no espectro oposto do cromatismo. TSIOQUE é uma aventura gráfica brilhantemente ilustrada e animada, fazendo lembrar em muito o trabalho de Don Bluth, especialmente pela paleta de cores aplicada.

O nível de detalhe impresso em cada uma das frames das animações tradicionais da protagonista e de qualquer um dos restantes personagens é delicioso. Os pequenos pormenores que preenchem o ecrã desde o primeiro cenário, onde a pequena princesa está presa nos calabouços do seu próprio castelo e são inúmeras as figuras e elementos que se animam quando interagimos.

TSIOQUE está destinado a crianças e há muito da sua construção que me lembra o mal-amado The Black Cauldron da Disney. Nesta história a rainha tem de ir para a frente de batalha e o seu reino é usurpado pelo Feiticeiro Real que afinal tem más intenções dentro dele. O lugar-comum das histórias de fantasia medieval, como se de forma recorrente não existisse uma única pessoa a topar que aquela figura sinistra número dois da governação fosse na realidade um vilão encapuçado, literal e figurativamente falando. Quando penso que isto tem pouco de realista lembro-me que até nós portugueses já tivemos o Paulo Portas como Vice-Primeiro-Ministro* e achámos que isso era normal.

Voltamos a TSIOQUE onde a titular princesa é de imediato aprisionada pelo feiticeiro maligno que assume a regência. A história de fantasia com laivos infantis vai tomando forma entre o humor e o dramatismo suave da representação das muitas cenas e personagens. Os soldados inimigos são especialmente indicativos desta aura de filme de animação com a sua imbecilidade típica e a forma como facilmente os conseguimos ludibriar.

A grande surpresa que qualquer fã de aventuras-gráficas vai ter com este TSIOQUE é que em muitos aspectos ele é o clássico do género, mas consegue adicionar muitos novos elementos. O primeiro deles são momentos de suave furtividade, em que temos de nos esgueirar sob os olhares dos soldados e até do feiticeiro no alto da sua torre. Sermos apanhados em pé-falso é apenas mais um momento em que “perdemos” e temos de recomeçar a sequência.

Estes momentos em que Tsioque é capturada são recorrentes, em especial na quantidade de puzzles temporizados ou com QTEs. Os puzzles temporizados são uma homenagem a São Charles Cecil e muitas vezes conseguem elevar o nível de frustração para perto do infame puzzle do bode. Estes são, aliás, os momentos em que passamos mais tempo a tentar “quebrar” a lógica do que temos que fazer. Nos puzzles clássicos de encontrar um item e aplicá-lo num certo local existe uma linha de raciocínio claro que facilmente seguimos, o que o torna perfeito para se jogar na companhia de uma criança.

Há outros puzzles, porém, que são menos clássicos mas também menos racionais. Na primeira hora de jogo (como podem ver pelo VOD do episódio) deparei-me com um puzzle de uma competição de tiro com besta de dois soldados. Da nossa parte conseguimos interagir com os “manequins” que servem de alvo, mas demorei bastante até conseguir condicionar o resultado da competição até fazer trigger do avançar da história. Tentativa-erro que até hoje acredito que tropecei mais ou menos na solução. Como este puzzle há mais um ou dois que são menos directos e claros.

A única falha mecânica para um jogo do final desta década é a não inclusão de um botão de highlight do que é ou não interagível. Os tempos do pixel hunting para encontrar soluções de aventuras-gráficas já lá vai, felizmente, e andar a arrastar o rato pelo ecrã à procura de elementos de interacção foi possivelmente a única parte menos boa desta experiência.

A banda-sonora de TSIOQUE é soberba e vem alicerçar ainda mais a aura de filme de animação dos 1980s que o jogo tem. As composições clássicas têm um pendor cinematográfico que encaixa na perfeição com toda a apresentação visual do jogo. Se a história, a música e os puzzles são bons, é mesmo a ilustração e a animação de TSIOQUE. Cada segmento tem a sua animação individualizada, com jogo de luzes todos eles trabalhados com pintura.

TSIOQUE é mecânica e visualmente uma das melhores aventuras gráficas dos últimos anos. Este jogo do estúdio polaco OhNooo Studio obrigatório para os fãs do género, mas também um excelente momento de partilha entre pais e filhos, que têm neste quase filme de animação uma óptima história para viverem em conjunto.

* quando lhe criaram este cargo irrevogável não podiam ter inventado outro termo. Como Segundo-Ministro ou Darth Minister?