A pergunta pode parecer estranha, mas se a colocassem a vocês mesmos durante a adolescência decerto que a resposta seria “Muito!”. Mas tudo precisa do devido contexto e temos que pensar que quem, como eu, entrou na adolescência antes da viragem do milénio e da massificação da internet, tinha um acesso muito limitado a um tipo de conteúdo que hoje é mais do que um dado adquirido pela rede. Fossem rapazes ou raparigas, independentemente da orientação sexual, acabavam por ter nas revistas físicas compradas nos quiosques e papelarias os sujeitos dos nossos suspiros. Fosse a Bravo ou a Super Pop, os posters do Correio da Manhã ou a página 3 da Nova Gente, cada um “suspirava” com o que melhor o ou a entusiasmasse, mas nunca ao mero alcance de um clique, como nos dias de hoje.

Era a apelar a muitos adolescentes afectados por um vazio de estímulos visuais que Al Lowe viria a criar uma das mais famosas (e infames) séries de aventuras-gráficas, com o titular Larry Laffer numa onda de engates recorrentes e falhados que serviam de mote e justificação para os enredos absurdos de Leisure Suit Larry. O género vivia o seu apogeu com a Sierra, a LucasArts e a Revolution a digladiarem-se pelos lugares cimeiros dos jogos mais vendidos.

Aliar esta sede do mercado pelas aventuras point ‘n click ao humor e à sexualidade parecia (e foi, efectivamente) uma vitória comercial para a Sierra. Larry é ofensivo, mas simultaneamente desculpável em todos os seus moves de tipo de meia-idade sem consciência de si mesmo. Larry era, e é, o Zezé Camarinha dos videojogos. Ainda que o personagem real alegadamente tenha colhido muito mais frutos com a sua maneira de ser do que o personagem digital. As frases de engate de ambos, essas, estão mais ou menos no mesmo patamar de qualidade, mas aparentemente em níveis diferentes de eficácia.

Que se chegue à frente quem naquela época não mergulhou em Leisure Suit Larry pela busca de javardice, no contraste de tom que as restantes grandes séries do género da autoria de Tim Schaffer, Charles Cecil e Roberta Williams tinham? Chegávamos a Larry pelo chavascal e a promessa de conteúdo sexualizado, de personagens desnudas com corpos compostos por pixeis que nos apaziguassem as hormonas e ficávamos pelo humor e pelos puzzles, na tentativa de conduzir ao sucesso o personagem que mais rapidamente nos lembrava aquele nosso tio solteirão que ainda se veste como se os 1970s tivessem sido ontem.

Depois de inúmeras iterações falhadas e de má qualidade na década passada, a promessa de um novo Leisure Suit Larry canónico que fizesse esquecer os piores títulos da série e desenvolvido por indie game devs apaixonados pela série desde sempre parecia um El Dorado. Ou no caso de Larry, um El Azeiteiro.

Leisure Suit Larry: Wet Dreams Don’t Dry chega em contra-corrente, numa época em que muito facilmente qualquer minuto das antigas iterações da série seria suficiente para instigar movimentações políticas de gente ofendida pelo seu humor rasteiro. Outro sinal dos tempos, diria. A incapacidade que existe para discernir o que é conteúdo assumidamente ofensável e humor, sabendo de antemão que todo e qualquer objecto cultural será alvo de pelo menos alguém, algures, na internet, que ficará ofendido consigo.

O público-alvo é óbvio: os adolescentes de então que se maravilhavam com as inúmeras tentativas de Larry de conseguir engatar as mulheres com quem se cruzava, e que são hoje trintões e quarentões para quem o humor por vezes pueril de então já pouco diz. É para esses, nós, que Leisure Suit Larry: Wet Dreams Don’t Dry foi lançado, com o protagonista a acordar em 2018 depois de ter estado desde o início dos 1990s em hibernação suspensa, tornando de uma certa forma não-canónicos os acontecimentos dos piores jogos da série.

O tom mudou, ligeiramente. A sexualização fez um tone-down necessário para manter o público de há 25 anos envolvido. A pimbalhice de quinta categoria deu lugar a um humor um pouco mais cuidado, auto-consciente, num enredo onde vemos a cada linha de diálogo o tremendo choque cultural do mundo de então para os dias de hoje. Influencers, apps, telemóveis, redes sociais, hipsters e afins. Um chorrilho de novidades num mundo que Larry Laffer, o burgesso engatatão do final da década de 1980 desconhece por completo. Há muitas anotações ao longo da sua duração que pisca os olhos de forma picante aos fãs da série, com muitos easter eggs reconhecíveis por quem segue Larry desde sempre.

Leisure Suit Larry: Wet Dreams Don’t Dry é menos sobre engate e mais sobre adaptação humana. Adaptação que vai tão longe quanto o auto-controlo que o próprio jogo tem sobre a sua histórica sexualização. Os encontros no Timber (sim, leram bem) funcionam como missões isoladas em que temos de ajudar as mulheres com quem temos contacto, e em que somos instrumentalizados nas tarefas que elas necessitam de ver resolvidas. Larry, é, como sempre foi, o enganado de toda a história, ao contrário do que ele próprio imagina.

Se o enredo cai mais para o humor auto-consciente do que para a sexualização, a outra grande diferença para este novo Leisure Suit Larry, e para mim a sua grande conquista, é a decisão de enveredarem por uma direcção artística baseada em animação e ilustração tradicionais. Há muito que defendo esta solução neste ressurgimento das aventuras-gráficas, como um pedido de desculpas criativo pelos maus momentos que o género passou na década passada com uma série de títulos feitos em (mau) 3D, dos quais o próprio Larry foi alvo.

A inclusão total de voice acting em todos os personagens é outro dos momentos positivos deste regresso de Larry Laffer, especialmente por quão coesos e interligados estão os diversos actores na sua prestação. Os puzzles por vezes sofrem do problema típico do género, tornando-se excessivamente encriptados quando não precisavam de o ser. Mas para quem jogou os originais decerto que já percorreu dezenas de outros jogos do género e está habituado à frustração. Num lado positivo: nos dias de hoje temos internet para nos safar de alguns bloqueios, coisa que não tínhamos quando as aventuras-gráficas estiveram no seu auge.

Larry Laffer é o mesmo de sempre, mas ao mesmo tempo há tanto que mudou nele. Mas o mesmo podemos dizer de nós, entre os jogadores controlados pelas hormonas que éramos na adolescência e que fomos aliciados ao humor rasteiro de Leisure Suit Larry por promessas de bustos pixelizados e que continuamos hoje, décadas mais tarde, a ter curiosidade pelo personagem, ainda que tanto nós quanto o próprio tom do jogo estejamos mais maduros. Dizer que este é o melhor Leisure Suit Larry em 20 anos pode não querer dizer muito, mas é a mais pura das realidades. Obrigatório para os fãs de aventuras-gráficas, mas especialmente para os fãs da série, que podem finalmente fazer as pazes com Leisure Suit Larry.