Tenho andado a fugir de escrever esta review, como o Diabo foge da cruz. Terá sido por falta de iluminação ou por excesso dela? Que decidam os leitores.

O processo de seleção de reviews

Antes de entrar propriamente na crítica em si, vou divulgar um segredo. No Rubber Chicken usualmente existem dois tipos de artigos de Review. Primeiro, as dos jogos que os redatores querem falar. Segundo, aquelas sobre jogos que nunca nos passaria pela cabeça experimentar. O terceiro tipo, que alegadamente é muito usado noutros meios de comunicação, a publicidade em forma de artigos de opinião, e que não existe no Rubber Chicken.

Ao longo dos anos o Rubber Chicken tem ganho a reputação de ser um sítio para onde os editores indies enviam os seus jogos, e recebem artigos com críticas transparentes e honestas. Chega a ser um ponto de honra, que se um editor ou developer enviar um jogo, mais tarde ou mais cedo receberá um artigo publicado por alguém que efectivamente o jogou.

No caso do Game Dev Studio juntou-se o útil ao agradável. Eu sou grande fã do Game Dev Tycoon, jogo que adquiri para Mobile bem como PC. Infelizmente não me posso alargar sobre as virtudes do Game Dev Tycoon, numa review sobre Game Dev Studio. No entanto, a referência é obrigatória, pois foi um dos jogos que abriu mercado para uma série de jogos indie, que lhe tentam emular o sucesso.

Como fã, saltei logo para a oportunidade de testar um jogo que, de uma forma diferente e divertida, atacasse o mesmo imaginário. Na realidade, não sabia o que esperar, mas tendo participado já em Game Jams e outras aventuras de Game Designer amador, este é um tema que me é querido e portanto estava receptivo ao que viesse aí.

O developer

Game Dev Studio é um jogo programado usando a framework LÖVE, um motor de jogos 2D open-source em Lua. Pessoalmente, acho excelente ver no mercado um jogo programado numa ferramenta de software livre, há que acarinhar estes projectos que fazem crescer o património aberto da humanidade.

Se investigarmos um pouco mais, vemos que o único designer, Roman Glebenkov é ele mesmo o único programador do projecto. Segundo o Steam, publicou o Game Dev Studio na plataforma directamente em seu nome, sendo este o primeiro jogo que publica. Que grande façanha!

Por outro lado, o jogo fez parte do pacote Yogscast Jingle Gam 2018, no Humble Bundle. Este é uma bundle especial, onde a totalidade do dinheiro é angariado para doar a instituições de caridade. Cada vez gosto mais deste Game Dev Studio, e ainda nem o joguei!

Os minutos iniciais

O menu inicial irritou-me um pouco, porque não dava para perceber quais as opções, antes de passar o rato em cima delas. E embora os ícones estivessem a piscar na velocidade certa de vezes, eu tenho memória de passarinho e quando chegava à quinta opção já não me lembrava qual era a primeira. A música de elevador, por muito agradável que fosse, colocada em loop torna-se rapidamente enfadonha. Mas sou só eu que estou a embirrar certo?

Se seleccionar novo jogo, posso escolher o tutorial ou vários modos de jogos que apresentam diversos problemas a serem resolvidos. Mais um desafio de estratégia do que a experiência histórica de Game Dev Tycoon. Eu tinha dito que queria diferente, então até agora tudo bem!

Antes de iniciar o jogo em si ainda tenho tempo para criar o personagem. Portanto, será uma experiência mais na onda do RPG, o que é promissor! Possivelmente passei mais tempo do que era suposto a brincar com o editor de personagens. O editor de personagens está simplesmente genial, com a sua coleção de barbas pixelizadas, sobrancelhas e estilos de cabelo. Confesso que me conseguiu arrancar algumas gargalhadas.

Eventualmente lá distribuí os pontos pelos 4 atributos Inteligência, Visão, Carisma e Velocidade, escolhi 2 peculiaridades e 2 interesses do meu personagem e prossegui. Este jogo promete!

O jogo em si

Infelizmente o nome Game Dev Studio é um pouco levado literalmente à letra. O jogo não é exactamente sobre fazer jogos, mas mais propriamente sobre construção civil, design de interiores e gestão de capital (a parte do estúdio). Assim que entramos no jogo a primeira coisa que o nos obrigam a fazer é comprar uma secretária e escolher onde colocá-la no edifício que temos à disposição.

É claro que isso não basta, como gestores do espaço e equipamento temos também de cuidar de instalar lâmpadas em pontos estratégicos para iluminar o espaço com suficientes… Lumens! Sim, não estou a brincar. Se não tiver Lumens não posso trabalhar! Nem pensar em programar apenas com a luz do monitor, isso poderia ser encarado como um atentado à minha saúde e tenho a certeza que constitui uma ofensa ao código do trabalho.

É claro que não se fica por aqui. Há que ampliar o escritório, mandando abaixo paredes para construir uma casa de banho e uma copa onde os trabalhadores possam tomar as suas refeições. E é bom que esteja equipada com pelo menos um forno micro-ondas, uma bancada para lavar a louça, frigorífico e se me sentir generoso, vá lá, uma máquina de venda de pastilha elástica!

Há que equipar a casa de banho também, claro, com sanitas, lavatórios e papel higiénico. Afinal não queremos que falte nada no Estúdio. Soltem-se alguns beanbags aqui e acolá, programe-se a disposição das ilhas de secretárias e da iluminação, sempre com o cuidado que não faltem Lumens, e voilá, quase que estou pronto para começar a produzir jogos num ambiente tão aborrecido e pouco imaginativo como o do meu dia-a-dia!

Se por esta altura ainda não desliguei o jogo, e aguentei todo este suplício para perceber o quer o jogo que eu construa, sem perceber muito bem o que tudo isto tem que ver com programar jogos finalmente posso começar a fazer jogos. Não, isso é que era bom!

Não se podem fazer jogos sem os melhores profissionais da indústria. Eu consigo ver-me sentado à secretária, tenho todos os Lumens necessários (mas possivelmente não tenho internet), mas ai de mim se pensa em fazer um jogo antes de licenciar um motor de jogo. Ou construir o meu. E não, nada de usar o LÖVE2D.  Eu sou um desenvolvedor de jogos a sério, não uso cá open-source como o senhor Roman Glebenkov!

Depois de licenciar o motor de jogo, se não quero cometer o mesmo erro que o Senhor Glebenkov há que contratar pelo menos um Designer de jogos que não saiba o que são Lumens, um programador que seja bom e barato, um fulano do som que não faça só música de elevador, um escritor que escreva para o Rubber Chicken, e um gestor para fazer sentido desta bodega toda.

Para ser justo Game Dev Studio começa a pegar a partir daí, mas sempre com o perigo dos Lumens a pairar sobre a minha cabeça, cada vez que quero expandir a equipa, ai de mim que não compre os candeeiros adequados.

As opções no desenvolvimento são sempre um pouco pãozinho sem sal. O jogador tem de decidir o preço a que vai comercializar o jogo sem estudo de mercado. Contrata-se e expande-se o estúdio sem análise financeira ou projecto de negócios. É que já nem falo de simular desenvolvimento de jogos. Todas as ferramentas de gestão que fazem falta na vida real são omissas, mas a parte de economato e construção civil está bem vincada e patente.

Após algumas horas a jogar Game Dev Studio, e sem um ponta de entusiasmo ou interesse pelo que estava a fazer decidi colocar, para grande pena minha, o jogo de lado.

Fale agora ou cale-se para sempre

De maneira que não foi por acaso que andei fugido de escrever esta review. Eu simpatizo com o lugar de onde vem este senhor. Sei que é difícil lançar um jogo, e especialmente a morte que é de início receber-se reviews negativas. Como dizia um amigo meu, “se gostaste muito dá 5 estrelas, se gostaste mais ou menos dá 4, se não gostaste não digas nada!” Mas a esta altura do campeonato percebi que a minha obrigação não é só para com o autor do jogo, mas também para com os nossos leitores. De modo que fica aqui a minha recomendação. O jogo vende-se no Steam por 9.99€ o que me parece um preço razoável. Se o apanharem em promoção pode valer a pena só pela construção de personagens.

Game Dev Studio é uma belíssima peça de software, que atinge perfeitamente todo o enfado a que o designer se propõe. Infelizmente há mais na arte de fazer jogos do que a simples programação. Há que entreter o jogador de alguma maneira e Game Dev Studio esqueceu-se de medir os Lumens da diversão.