É muito fácil de identificar o preconceito que existe para com os chineses e a qualidade do seu trabalho. Muitos anos de produtos contrafeitos e apelidados de forma pejorativa como “dos chineses” vieram instalar uma imagem de falta de qualidade e de talento à China. Com ou sem justificação, essa é uma aura que vem ensombrar o muito bom que o país tem criado.

No meu caso, como expliquei no último episódio do Caça ao Indie ao Vivo no Twitch, foi mesmo a descoberta da produção de manhua (a manga chinesa) que senti não só uma linguagem própria, como uma qualidade e volume de produção em banda-desenhada como nunca vi em mais sítio nenhum. O mesmo senti com a Ilustração Fantástica de lá depois de comprar uma série de catálogos de ilustradores chineses: a dedicação e a entrega dos seus criadores têm não só produzido obras com uma qualidade tremenda, como estão a delinear uma linguagem própria.

Pouco faltaria para a qualidade dos criadores chineses chegar ao Ocidente, especialmente os muitos estúdios indie que lá têm sido criados. Ainda esta ano tivemos uma belíssima surpresa com REHTONA, e poucos dias depois é Bladed Fury a roubar-nos o fôlego, mostrando-nos um jogo cuja qualidade de execução o torna um dos melhores do seu género, e que comprova que num país tão povoado como a China não existem apenas estúdios a criarem cópias de outros títulos conhecidos, há, obviamente, uma série de gente a construir um nome próprio através do seu talento. E no caso de Bladed Fury e dos NEXT Studios, que talento esse…

Bladed Fury é uma das provas do porquê de eu gostar tanto do mercado indie. A surpresa total de mergulhar num título virtualmente desconhecido e encontrar um objecto altamente polido em termos visuais, mecânicos e narrativos, rivalizando em qualidade de execução com muitos intentos falhados de estúdios com maior arcabouço orçamental.

Ficar maravilhado com Bladed Fury não é incomum. A direcção artística segue uma tónica chinesa de Arte Fantástica, com reminiscências da linguagem do conhecido estúdio de ilustração indonésio Imaginary Friends Studios. A fluidez das animações, das transições entre movimentos e o quanto essa apurada animação permite tornar o combate orgânico é um dos maiores méritos do jogo. O combate é tão afinado e sólido que o tornam não só brilhante de controlar mas também de ver.

A localização do enredo original para inglês é feito com uma qualidade ímpar, sem os erros crassos de tradução que muitas vezes enviesam as traduções. Logo no início a nossa protagonista é acusada de matar o pai, num regicídio/patricídio que coloca todo o reino no nosso encalço. Cabe-nos a tarefa de provar a nossa inocência, da melhor forma que os filmes e os jogos de acção nos habituaram: à “porrada”.

“Não acreditas que eu não matei o meu pai? Então deixa-me derrotar-te numa luta para te provar o contrário”. Quem nunca…

Para além de ser um side scrolling beat’em up fluído, há uma leve componente de platforming que confere verticalidade ao jogo. Há muitos inimigos distintos, cada um com o seu set de movimentos, mas são as excelentes boss fights que demonstram o capital do combate. Lutas equilibradas, sem serem excessivamente “oferecidas” ou “difíceis”, mas com diversidade suficiente para se manterem interessantes.

Outro elemento de grande valor é a inclusão de traços visuais e de enredo inspirados no folclore chinês. A inclusão da cultura local é algo que ajuda a diferenciar o tom geral do jogo de tantas outra tentativas ocidentais, ora assentes no mythos nórdico ou da fantasia medieval europeia.

Bladed Fury é um dos melhores jogos que jogámos em Janeiro, e uma prova (se é que ele era necessária) do tremendo talento das equipas indie da Ásia, em especial dos criadores chineses que colocam no mapa objectos únicos e criativos, quebrando preconceitos em relação ao mercado chinês. Com uma execução fluída, este jogo é obrigatório para todos os fãs do género em especial dos hack ‘n slash, que vão sorver a sua tremenda qualidade nas 4 a 5 horas de duração da sua playthrough original.